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Flávio Lucci de Azevedo, ou “Fafão”, como ele assinava, nos deixou no dia 26 de junho na cidade do Rio de Janeiro. O escritor era um grande amigo e incentivador dos Projetos Culturais T-Bone, inclusive foi o primeiro escritor a lançar livro no açougue há mais de dez anos.
Fafão gostava de observar o comportamento das pessoas e reproduzir suas impressões através de crônicas. As conversas de bar e o cotidiano eram as principais fontes de inspiração do escritor, que por 25 anos trabalhou no Banco do Brasil, tendo ingressado como auxiliar de escrita em Brasília, em 1971. Os casos vividos e ouvidos por Fafão, que desde 1999 morava no Rio de Janeiro, sua cidade natal, renderam quatro livros de crônicas.
Valeu grande amigo!
Equipe T-Bone.
Alguns de seus livros..



O Teatro da Praça em 2009
A partir de julho (14/07), a Tribo das Artes vai fazer seus saraus no Teatro da Praça. Fazemos isso para renovar o formato do sarau, mas também para chamar a atenção dos grupos culturais do DF para esse espaço tão importante em nossa história e tão bem localizado. Fica pertinho da Praça do Relógio, onde há estação de Metrô.
O Teatro da Praça foi palco dos mais importantes movimentos culturais ocorridos em Taguatinga, na década de 80, quando se realizaram inúmeras FACULTAs e Semanas de Arte. Em 2006, os grupos culturais da cidade criaram o movimento VIVA EIT, em defesa do tombamento da Escola Industrial de Taguatinga e do Teatro e Biblioteca que ficam em sua área. Em 2007, conseguimos seu tombamento provisório como patrimônio histórico.
O Teatro da Praça foi reformado neste ano, mas não foi estruturado com equipamento suficiente. Algumas coisas já se estragaram em poucos meses. Mas é preciso manter o teatro em pleno funcionamento para cobrarmos melhor estrutura e principalmente para que o público descubra que ele está novamente de pé.
É preciso reabilitar o Teatro e fortalecer a Escola. É preciso buscar a participação: da direção da Escola, da Regional de ensino, da Administração Regional, do Sinpro e de todos os grupos culturais da cidade para que o movimento elabore um projeto de divulgação e uso do teatro e também um projeto arquitetônico que melhor atenda as necessidades culturais.
Ao mesmo tempo é preciso fortalecer a EIT, que há poucos anos sofreu uma política de esvaziamento dos alunos e ocupação indevida de seus espaços, visando seu enfraquecimento.
VIVA O TEATRO DA PRAÇA ! VIVA EIT !
Situação atual do Teatro da Praça
1 - Foi colocada uma mesa de som com 2 caixas, mas já estragaram;
2 - Tem uma mesa de luz com refletores acima do palco e em uma vara de luz de frente. Muitas lâmpadas se queimaram em poucos meses. Das oito da vara de frente, só duas funcionam;
3 - O Teatro não dispõe de porteiro, bilheteiro, eletricista, nem operador de luz ou som;
4 - Um camarim fica trancado e o outro fica disponível. Está reformado e limpinho;
5 - A sala de espera é enorme e poderia ser muito bem aproveitada como salão de exposições. Tem um balcão que pode ser usado como bar. Tem um bebedouro. Podem acontecer atividades variadas ali, mas não tem iluminação que possa ser direcionada nem suporte apropriado para pendurar as obras. Tudo bem que pode-se acender a luz geral, mas a Administração proíbe bater pregos na parede para pendurar obras.
Finalmente: Quem conhece o Teatro da Praça se encanta. Tem capacidade para 250 pessoas, palco grande, ótima acústica e é a principal referência da cultura de Taguatinga.
Cacá
Cordel para Patativa do Assaré:
Centenário do poeta cearense...
Antônio Gonçalves da Silva:
Um criador destemido...
Grão-mestre do improviso
O Patativa conhecido...
Patativa do Assaré:
Poeta lido e ouvido...
Nasceu em 5 de março:
1909,o ano...
No Estado do Ceará:
Um poeta soberano
Exímio compositor:
Ritmo fagneriano...
A Triste Partida...Meu Protesto
O Poeta da Roça:Vou Vorá
Apelo dum Agricultor
Vaca Estrela e Boi Fubá
Coisas do Rio de Janeiro:
“Cante Lá que eu Canto Cá”...
Se Existe Inferno:
Mote/Glosas a rimar...
Peixe...Você se Lembra?
Poeta a nos encantar...
Patativa do Assaré:
Num galope a beira mar...
Inspiração Nordestina – 1956:
Primeiro livro de poesia...
Cantos do Patativa -1967:
Carrego na fantasia...
“Cante Lá que Eu Canto Cá”:
Consagrada alquimia...
Ispinho e Fulô – 1988:
Patativa e Outros Poetas de Assaré...
Cordéis – 1993:
Aqui Tem Coisa: Não é?!
Biblioteca de Cordel, Balceiro:
Ao pé da mesa, seu Zé...
Poeta bem popular:
Exímio compositor...
Filho da contradição:
Vate interlocutor...
Mote, peleja, desafio:
Faro improvisador...
Veio de família pobre:
Da arte da agricultura...
Lutou pela sobrevivência:
Sem perder sua candura...
Lavoura, subsistência:
Doença, fome, amargura...
Ficou cego de um olho:
Ainda bem pequenino...
Padeceu o sofrimento
Desde o tempo de menino...
Aos oito anos de idade:
Sofreu mais um desatino...
Antônio perdeu o pai:
E precisou trabalhar...
Para ajudar a família:
Foi a terra cultivar...
Era preciso resistir:
Para a fome não matar...
A roça era o caminho:
Para poder sobreviver...
Tempo de analfabetismo:
Poucos lá sabiam ler...
Quem não sabe a leitura:
Muito pouco pode ver...
Aos 12 anos na escola:
Começou a aprender:
Logo é alfabetizado:
Passou a compreender
A arte da Aritmética:
Matematiza o viver...
Aprofundou a leitura:
No estudo do cordel...
Os seis meses de escola:
Deu asas ao menestrel...
Pra sobreviver à fome:
Da ciência de Babel...
Fluiu criatividade:
No ritmo do improviso...
É a poesia que nasce:
Sem licença, sem aviso:
Mistura verso e dor:
Sem perder o seu sorriso...
Repente, cordel, cantoria:
Começa a se apresentar...
Eventos, festividades:
Patativa está no ar...
É ouvido na Araripe:
Por Arraes de Alencar...
Por volta dos 20 anos:
É chamado Patativa...
O seu canto tem beleza:
Sua poesia é altiva...
Patativa do Assaré:
De poesia sempre-viva...
No Crato e no Juazeiro:
Poesia de arte fina...
Publica o primeiro livro:
Inspiração Nordestina...
Os Cantos do Patativa:
Com a verve cristalina...
Patativa do Assaré:
Novos poemas comentados...
Em coletânea poética:
Textos bem apreciados...
"Cante lá que eu canto cá":
Os seus versos consagrados...
Nove filhos com Belinha:
Esposa de toda a vida....
Amava o Cariri:
A sua terra querida...
Memorizava o verso:
Fez da arte sua lida...
Nordestino Sim, Nordestinado Não:
Apelo dum Agricultor...
Vaca estrela e Boi Fubá:
De A Triste Partida, criador...
Coisas do Rio de Janeiro:
Versos de um cantador...
Se Existe Inferno, Você se Lembra?
Peixe, A Terra é Naturá...
Tantos versos pela vida:
Meu Protesto, Vou Vorá...
O Poeta da Roça, Mote/Glosas:
Cante Lá que eu Canto Cá...
Patativa e Outros Poetas de Assaré:
Ispinho e Fulô, Balceiro...
Aqui tem coisa, Cordéis:
Poetás bem brasileiro...
Biblioteca de Cordel:
Lido até no estrangeiro...
Antologia Poética de Patativa:
Digo e Não Peço Segredo
Ao pé da mesa, com Geraldo:
Foi poeta sem degredo...
Um vate de alta verve:
Homem que não teve medo...
Cidadão de Fortaleza:
“Medalha da Abolição”...
Enredo de Escola de Samba:
Honoris Causa do Sertão...
Homenagem da SBPC:
Pela arte da criação...
Memorial Patativa do Assaré:
Prêmio do Ministério da Cultura:
No Teatro José de Alencar:
A voz da literatura...
Prêmio Unipaz no Ceará:
Holismo, terra, ternura...
Diploma de “Amigo da Cultura”:
“Medalha Francisco de Aguiar”:
Troféu “Sereia de Ouro”:
Prêmio da Cultura Popular...
Em o “Cearense do Século”:
Tirou Terceiro Lugar...
"Biblioteca Pública Patativa do Assaré":
"Artista do Turismo Cearense":
Prêmio FIEC, Fortaleza:
Cidadão Norte-Rio-Grandense...
Honoris da UFC e da UECE:
Cidadão caririense...
Título de Doutor em Sergipe:
"Cidadão Empreendedor"...
Troféu do MST:
Pela terra, lutador...
Medalha Ambientalista:
Poeta preservador...
Doutor Honoris Causa:
Títulos e premiações...
Fama e homenagens:
Glórias e celebrações...
Foi poeta popular:
Das cidades aos sertões...
Poeta da agricultura:
Do verso foi lavra-a-dor...
Palavrava a poesia...
Cultivava a sua dor...
Venceu a morte com arte:
Cantou a vida e o amor...
Poesia de sapiência:
De sabença popular...
Memória de elefante:
Mestre no improvisar...
Oralidade fluente:
Feito as ondas do mar...
Dominava o soneto:
A linguagem corporal...
Voz, pausa, entonação:
A expressão facial...
Apreciava Camões:
Foi poeta sem igual...
Metrificava com classe:
Religião, filosofia...
A terra, a fome, o sertão:
A luta do dia a dia...
Praticava a poética:
Ia além da teoria...
Eternizado por Gonzaga:
Patativa diamantino...
Poeta de verve fina:
Um Camões bem severino...
Lá na Serra da Santana:
Nasceu o vate nordestino...
Tema de monografia:
E pesquisa de mestrado...
Foi estudado na França:
Em tese de doutorado...
Rosemberg e Jefferson:
Filmaram o seu legado...
Foi poeta veemente:
E mestre na ironia...
Sextilha, décima, soneto:
Era bom no que fazia...
Feiticeiro da palavra:
Um mago da poesia...
Por Gustavo Dourado
Luiz Martins da Silva
Para Francisca Azevedo
[Fluente em moderno javanês]
I – Versão sobre átomos
Na caixa postal para mim,
Em concórdia, lápis-lazúli,
Cílios índigos de Cleópatra
Traçados na esferográfica,
Estenografia de hieróglifos,
Sagrados grifos de escribas,
Sólidos signos de marfim.
II – Versão on bytes
Antigos segredos re-velados,
Criptografias matemáticas,
Novos nomes, velhos códices,
Invisíveis papiros mega-giga-tera-bytes,
Indivisíveis lógicas do binário,
Estrito senso do sentido refratário.
Ah! Os inefáveis desvãos da informática.
Por Sandra Fayad
- Não vai sair esta noite? Pergunta minha filha
- Não. Esta secura me desanima. Sinto falta de ar, alergia – respondo.
- Pelo jeito, se você não viajar para o litoral, vai ficar os próximos seis meses em casa – observa ela.
Nem respondo. Estou mal humorada.
Ligo o umidificador e a TV. Informe da previsão do tempo para o dia seguinte:
“...na Região Centro Oeste do Brasil, tempo firme com céu claro e possibilidades de chuvas esparsas em algumas áreas isoladas.”
Nem dou bola para a parte final da informação. Já estamos no dia 30 de maio de 2009 e nunca choveu no dia seguinte aqui em Brasília (pelo menos que eu me lembre...).
- Isso aí é rebate falso. Os metereologistas erraram mais uma vez ou então a emissora está querendo nos fazer sonhar, como nas novelas. A chuva se despediu de nós há mais de uma semana com umas gotinhas sem-vergonha que nem deram para apagar a poeira.
Começo a cochilar, ainda com o pensamento voltado para o áudio que ouvira pouco antes. Aquela palestra me deixou muito impressionada. As constatações de que a água já acabou em várias partes da Terra por causa da irresponsabilidade do homem e as péssimas perspectivas para os próximos quinze anos me fizeram ficar mais preocupada (*).
Desligo a TV e o umidificador e durmo. Sonho que chove. Ouço a água caindo mansamente sobre o telhado. Acordo e adormeço duas ou três vezes, ouvindo aquela sinfonia. Não sei se sonho ou se penso na felicidade das plantas e dos animais da Horta Comunitária. Estou bem no limiar entre o sono e o despertar, mas não me levanto. Pelo menos não me lembro de tê-lo feito, a menos que eu seja... sonâmbula.
Acho que desperto de acordo com o relógio biológico. Olho para o relógio de mesa que marca nove horas e cinco minutos.
- Nossa Mãe! Dormi demais. Já passou da hora de dar o café da manhã do Skipye, de me vestir de atleta e sair para a caminhada dominical no Eixão Norte. Tenho que me apressar! O sol deve estar a pino e não é bom fazer caminhada tão tarde com essa secura. Estranho! Neste horário os pássaros deveriam estar cantando lá fora...
Salto da cama e vou até a janela para olhar a rua através das persianas.
Separo as lâminas, solto–as e penso:
-Acho que ainda estou sonhando.
Abro toda a janela. Olho. Volto-me para o lado oposto do quarto. Olho novamente para fora. Passo a mão no granito sob a janela. Está molhado. Tudo lá embaixo está molhado. Significa que...
- Tan... tan... tan... tan... Está chovendo!!! Então não era sonho. Choveu mesmo a noite toda. Chuva mansa! Gostosa! Amiga!
Mudo a programação. Visto-me e vou até a parte externa da casa para sentir os pingos sobre a cabeça, cumprimento as plantas, converso com o boxer.
- Você viu, Skipye? Que delícia! Chuva. Chuva, Skipye!!!
Ele festeja comigo, abanando o rabo. Dou-lhe a refeição. Enquanto a cafeteira processa o meu cafezinho, fico olhando a rua toda molhada.
- Ah, como é bom!
Respiro melhor. Abro todas as janelas e portas para que a umidade penetre no interior da casa. Ligo os ventiladores, para tentar destruir os ácaros. A temperatura está agradável. Danço e canto. Não me contenho. Preciso compartilhar. Acordo minha filha.
- Você já viu que delícia? Isto é pura poesia!
Às 10 horas o sol começa a despontar timidamente. Quinze minutos depois já firmou. Às 10h30min saímos para a caminhada no Eixão, com o calor secando as calçadas. Não sei se digo “que bom!” ou “que pena!”. Fico calada. Não é “auspicioso” reclamar do tempo.
São duas horas de caminhada e encontros com a alegria. Todos sorriem, sem motivo aparente. Ótimo astral, estado de espírito em alta. Paz !
- Vamos almoçar todos juntos em um restaurante.
Tudo dá certo: disposição, boa vontade, harmonia, sorrisos, brincadeiras.
- Parece que vai voltar a chover.
- Oba!
- Tomara!
- Legal!
- Que bom!
Voltamos a casa. E ela recomeça mansa, bem vinda, abençoada...
Conversamos alegremente com amigos e familiares pelo telefone sobre... a chuva, é claro!
Noite do dia 31 de maio: Ah, que delícia! Que presentão! Somente nós, os candangos-brasilienses é que sabemos como isso é bom!
http://www.sandrafayad.prosaeverso.net/
(*) http://novuspress.com/audiosdefigueira/AnaPrimavesi/Amorosos%20sinais%20de%20alerta.mp3
Faço silêncio para escutar o som
da música do vento, dos pássaros,
dos cães, na manhã, barulhentos, da paz,
faço silêncio para dizer-te mais,
e para ouvir-te, faço silêncio,
mesmo se, há tempos, já não me dizes nada,
para embeber-me de tua não fala,
e saciar-me, faço silêncio.
Amneres - www.poesiaemtemporeal.com
Paulo José Cunha, especial para a TV Câmara, em homenagem aos 49 anos de Brasília
Um dia Le Corbusier lamentou o abandono em que o governo do general Castelo Branco havia deixado Brasília e disse: "É uma pena, mas que belas ruínas teremos". O arquiteto que inspirou Lúcio Costa e Niemeyer criou uma imagem terrível demais para ser verdadeira. Impossível admitir a idéia de caminhar pelas ruínas de uma cidade que já nasceu sinônimo de ousadia e juventude.
Quando Lúcio traçou a cruz de onde brotaria o avião do Plano Piloto, esqueceu de pôr a data. Quando Niemeyer desenhou as linhas do Congresso, da Catedral, das colunas do Alvorada, também não se lembrou de datar o desenho. E foi assim que Brasília já nasceu condenada à eterna modernidade.
Daqui a mil anos, quando um visitante entrar pela primeira vez na Esplanada, há de ter o mesmo espanto dos candangos, quando perceberam que haviam se tornado personagens do sonho de um menino de Minas, atrevido que só, tão doido por novidades que ficou conhecido como presidente bossa-nova, isso na época em que um tal de João Gilberto tocava o violão de um jeito... novo. Glauber Rocha inventava um tal de Cinema... Novo. E a cidade que nascia do ventre do cerrado goiano, invenção daquele menino levado, já começava... nova. E moderna.
E permanecerá moderna, daqui a milhares de anos. Como sempre foi, como ainda é, como continuará a ser. Nova, e muito mais que eterna:
Para sempre, moderna.
Rosa murcha mergulhada
No meio do meio copo d’água.
- Copo de vidro transparente!
Folhas cabisbaixas, amareladas
- Olham pra mesa ou pra nada?
Haste ereta, mas podre.
Pétalas cadentes, arroxeadas
Despencarão ao simples toque.
- Se não queres sujar a mesa
Não mexe! Não toca!
- Está morta?
- Essa, nem comporta
Banho de formol...
Já cumpriu seu papel.
Nasceu botão, abriu-se ao sol,
Deixou-se escolher - como eu.
Para ser usada como anzol.
Fisgou um coração solitário,
Em momento crucial.
- Pecou!
Não lhe ofertou um santuário.
Foi co-responsável por tê-lo
Confinado em um aquário:
- Adoeceu!
No confessionário
Penitência dura: Morrer!
- Mereceu?
NA DANÇA DA ÍRIS
Multidão que se acomoda, senta, levanta,
Busca o melhor ângulo para se mostrar...
Música romântica, voz afinada que canta,
Copos, bandejas, garçons zonzos a circular...
Olhares que se cruzam, descruzam, desviam,
Disfarçam, encaram sem despistar...
Batons, perfumes, cabelos em vôos vadios,
Pernas exibidas em meias, rodopiam no ar.
Mulheres e homens nas suas melhores vestes
Em busca do número que completará seu par,
No salão só meia-luz: luz de corpos celestes!
Há que conter o avanço da noite. Ela deve tardar!
Eu ali, recém-chegada, acomodando-me;
Você surgindo da penumbra, sem alarde,
Enfiando os olhos firmes dentro dos meus
Na dança da íris navegou, foi se instalar.
Depois meus lábios colados no ímpeto dos teus
Comprimiam seios e peito no aperto do abraço,
Braços se misturando como preciosos camafeus,
Na pele e nos músculos: arrepios e descompasso.
Bsb, 24/06/2008
Roda de Samsara ( * )
No meu tempo de menino,
Cachorro era cachorro
E menino um pouco mais.
Cachorro doente era lixo;
Menino, entre os animais.
Hoje, todo mundo é gente,
Uns mais gente que os outros.
Agora, que bicho sente,
Tem direito até a astrólogo,
Clínica e pronto socorro.
Um poeta laureado ( ** ),
Mas que já saiu de cena,
Escreveu lindo poema
Sobre o céu dos animais,
Onde repousam suas almas.
Importante é quem se ama,
Pois todos iremos um dia,
Seja gente, planta ou bicho,
(Para todos há um nicho)
No céu dos céus, o Nirvana.
Luiz Martins da Silva
* Samsara – segundo o Dicionário Houais:
2 Rubrica: filosofia, religião.
no budismo, série ininterrupta de mutações a que a vida é submetida, espécie de ronda infernal de que o indivíduo só se liberta quando alcança o nirvana
** James Dickey (1923-1997) norte-americano – dele já traduzi e publiquei (na revista Bric-à-Brac) o seu O céu dos animais.
Tanto mar
De frente para o espelho, fazendo um nó na canga de praia, lembro-me: enrolei um sarongue no corpo e fui ao carnaval. Ou seria sarong? Não estou certa, sei que é um pano de vestir típico de algumas regiões da Oceania e, inspirado nele, fiz um dia uma fantasia e fui ao baile. O que encanta no carnaval são as infinitas possibilidades. Poder pintar-se, mascarar-se, desnudar-se. Poder brilhar, brilhar, brilhar.
Vozes cantando em uníssono espantam os pensamentos. Corro à varanda e vejo as costas molhadas dos soldados marchando e cantando no asfalto, na chuva que encobre a barra do tempo, no encontro entre céu e mar. Esse verso é recorrente, penso, como recorrente é o mar em meu coração. Ouvir seu barulho é assossegar, corpo e espírito totalmente harmônicos. Olho de novo, e estiara. Um frígido sol por entre as nuvens ilumina a praia. A barra ainda é escura, mas está clareando, penso.
“Tanto mar, tanto mar,
sei também quanto é preciso, pá,
navegar, navegar…”
Vem-me à memória a canção de Chico Buarque, o compositor carioca. Porque será que o mar emociona? Pergunto-me. Pela grandiosidade. Pela infinita beleza. E por poder ao vê-lo sonhar, como o faço agora a perder o olhar ao longe no horizonte onde o mar é mais distante.
Sarongue - segundo o Dicionário Aurélio, pedaço de tecido, ordinariamente de cores vivas, usado sobretudo pelas mulheres dalgumas regiões da Oceânia para cobrir o tronco e a parte superior das coxas.
Por Amneres
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Glória Maria chegou ao céu. Lá, encontrou velhos amigos. Entre eles, João Goulart. O presidente, braços abertos, correu ao encontro da cantora mais antiga de Brasília. "Eu sei que vou te amar", cantava ela pra lembrar as boas festas do Palácio da Alvorada.
Paulo José Cunha, aqui na terra, homenageou a artista que alegrava a noite da capital. Compôs o poema "Boca da noite". Generoso, dividiu a obra com os visitantes do blog.
Boca da noite
(cantiga para Glória Maria)
Quando uma voz se cala
dentro da noite boêmia
é a cidade toda que se cala
como se ouvisse
um cantiga estranha
cantada em outra escala.
Quando alguém da noite pára
de cantar, alguém pode pensar
que a canção parou, sem reparar
que a canção que um dia foi cantada
permanecerá cantando-se, eterna,
e encantada, em cada trago,
em cada boca apaixonada.
quando a voz
que um dia embalou amores e paixões
suspende o tom, e faz silêncio,
é como se dissesse:
- Agora, é com vocês,
que saem dos bares de mãos dadas.
Porque a canção que uma voz
plantou em plena madrugada
renascerá eternamente,
em cada olhar,
em cada paixão desesperada
A ave una
Sempre desejei falar de uma visão,
Mas quanta ignorância a minha!
Sei somente que era uma ave marinha
Por algum desígnio pousada em minha visão.
Viajava num barco apinhado
E eu era o único besta a olhar
Um ponto, aos poucos ampliado,
Até à vista geral se apresentar.
Ninguém deu a mínima para a figura
Balouçante em mar de calmaria,
Obra do Artista anônimo em escultura,
Viva manifestação de sua Poesia.
Horas a fio, inerte, oscilando sobre uma bóia.
Ou era eu mesmo transmigrado em outra Idéia?
Luiz Martins da Silva
Com 32 cantores/bailarinos no palco e acompanhamento de banda e orquestra, o espetáculo musical 'Uma Noite no Cinema' estréia integrando a fantasia e o poder de envolvimento do cinema e o talento de artistas de Brasília. O espetáculo reproduzirá, no palco, interpretações de várias cenas musicais encontradas nos grandes filmes de todos os tempos. Figurinos e cenários deixam o musical ainda mais rico.

No repertório, músicas de filmes como Mudança de Hábito, O Máskara, O Casamento do Meu Melhor Amigo, Hairspray, Flashdance, Footloose, Chicago, entre outros.
Uma Noite no Cinema
Data: Dia 19 às 21h; dia 20 às 17h e 21h; dia 21 às 16h e 20h
Local: Centro de Convenções Ulysses Guimarães - Sala Planalto
Ingressos: R$ 20,00 (meia) e R$ 40,00 (inteira).
Pontos de venda: Lojas FreeCorner (304 Sul, 308 Sul, 308 Norte,
303 Sudoeste, Brasília Shopping, Conjunto Nacional, Gilberto Salomão,
Concept) e Central de Ingressos do Brasília Shopping - já a venda.
Informações: 9812-2689
Texto publicado no jornal Correio Braziliense no primeiro caderno (opnião). Data: 16/09/08.
Derrubando muros
Valéria de Velasco
valeria.velasco@correioweb.com.br
Quando inaugurou a primeira biblioteca popular da cidade no ponto de ônibus da 512 Norte, o criador do açougue cultural T-Bone, Luiz Amorim, surpreendeu. Poucos acreditavam que os livros expostos nas estantes controladas apenas pelo sentimento de respeito a um bem público sobreviveriam à depredação e ao furto. Mas o que parecia aventura virou exemplo de que os bons investimentos vencem os preconceitos e o projeto se multiplicou. Já são 35 bibliotecas na W3 Norte, cada uma c om cerca de 600 livros disponíveis 24 horas à população — qualquer um pode levá-los para ler, sem nenhum tipo de controle, exceto o da própria consciência.
Tudo isso, em pouco mais de um ano. E por uma razão simples: no salto entre a primeira parada cultural e os 35 pontos de ônibus cobertos pelas bibliotecas populares, Luiz Amorim, que aprendeu a ler aos 16 anos e diariamente percorre as paradas renovando o acervo, não se desgrudou um instante sequer da fé na sua utopia de levar a lei tura a quem não tem como ir buscá-la por outros meios. Simplesmente, ele transformou a decisão de fazer em atitude. Enquanto isso, a semana em que se comemorou o Dia Mundial da Alfabetização, 8 de setembro, passou batida, sem que os gestores pagos com o dinheiro do contribuinte para acabar com o vergonhoso índice de analfabetismo no país apresentassem algo a comemorar. Nono lugar no ranking do analfabetismo na América Latina e no Caribe, o Brasil tem 16 milhões de pessoas com mais de 15 anos in capazes de entender o que está escrito sequer nos letreiros dos ônibus, além de 30 milhões de analfabetos funcionais — os que não conseguem interpretar o que lêem nem expor suas idéias por escrito.
Livrar-se dessa vergonha seria simples se os governantes transformassem em políticas públicas os bons projetos. Propostas não faltam, como a de Paulo Freire. Mas o método ensinava a pensar e por isso a ditadura militar deu logo um jeito de prender e expulsar do país o educador que o mundo a prendeu a admirar. Como pensar tira votos, foram se sucedendo projetos que até hoje se mostraram incapazes de virar o jogo do analfabetismo. Para Freire, a alfabetização era um processo em que os homens “assumem o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo”. Luiz, que leu o primeiro livro aos 18 anos, reedita o mestre: “O livro tem uma capacidade incrível de transformação. Com ele, podem-se derrubar muros e não precisaríamos sequer de cercas elétricas”.
Os Doze Pares de França, O Pavão Misterioso, Juvenal e o Dragão, Donzela Teodora, Imperatriz Porcina, Princesa Magalona, Roberto do Diabo, Côco Verde e Melancia, João de Calais, O Cachorro dos Mortos, A Chegada de Lampião no Inferno, Viagem a São Saruê…São livros do povo(alicerçado no pensamento do mestre Luís da Câmara Cascudo e deste poeta cordelista).Fontes da Poesia Popular do Nordeste do Brasil.Quintessências da Literatura de Cordel.
Origens do Cordel
Cordel. Vem de corda,cordão,cordial, toca o coração.
Os folhetos eram expostos em cordões,lençois, esteiras, nas feiras,praças,portas das igrejas, bancas e nos mercados. Literatura de cordel , poesia de cordel, romance, folheto(s), arrecifes, abcs, “folhas volantes” ou “folhas soltas”,”littèratue de colportage”,”cocks” ou “catchpennies”, “broadsiddes”, “hojas” e “corridos”…
São nomes que a poesia popular recebeu ao longo do tempo, na Europa e nos países latino-americanos.
No Brasil, o termo cordel se consagrou como sinônimo de poesia popular. O cordel apresenta-se em narrativas tradicionais e fatos circunstanciais, em folhetos de época ou “acontecidos”.
As origens da literatura de cordel estão na Europa Medieval.Tem suas bases na França(Provença), do século XI e posteriormente na Espanha, Portugal, Itália, Alemanha, Holanda e Inglaterra. Chegou ao Brasil Colônia com os portugueses, depois incorporou a poética nativa do índio, a criatividade e o ritmo da poesia do negro e dos vaqueiros e tropeiros(o aboio).Tornou-se um ritmo sertanejo-tropical,integrando-se a outros ritmos como o baião, o xote, o xaxado e o forró. Ganhou uma característica especial com o advento da xilogravura, na ilustração das capas de milhares de folhetos.
Polêmica e complexidade dos ciclos temáticos.
Os principais temas e ciclos do cordel(minha classificação) abordam vários assuntos: abcs;
religiosidade; costumes; romances; história; heroísmo(façanhas); cavalaria(vaqueiros, bois, cavaleiros,tropeiros); valores, moral e ética; atualidades; circunstâncias; fatos e acontecidos; sociais e noticiosos, louvações; fantasias(fantástico, maravilhoso); profecias, apocalipse e fim do mundo; biografias e personalidades; poder, estado e governo; política e corrupção; exemplos; intempéries e fenômenos da natureza (secas, inundações, maremotos, terremotos etc); crimes; coronelismo; cangaço, valentia, banditismo e jagunçagem(Lampião, Maria Bonita, Antônio Silvino, Corisco e Dadá, Sinhô Pereira, Jesuíno Brilhante, Quelé do Pajeú, Lucas de Feira); Padre Cícero(O Santo do Juazeiro); Frei Damião; Getúlio Vargas(Estado Novo, conquistas trabalhistas);Antônio Conselheiro(Canudos); Coluna Prestes e Revoltosos; Juscelino Kubitschek(construção de Brasília); Lula; televisão e cinema; ciência e tecnologia; Internet; crítica e sátira; humor, obscenidade,putaria e sacanagem(pornocordel); terrorismo(atentados) e guerras; modernidade e contemporaneidade; desafios, cantorias e pelejas, entre outros menos conhecidos e ainda não catalogados etc.
Classificação dos ciclos temáticos do cordel, por Ariano Suassuna:
1) “Ciclo heróico, trágico e épico;
2) Ciclo do fantástico e do maravilhoso;
3) Ciclo religioso e de moralidades;
4) Ciclo cômico, satírico e picaresco;
5) Ciclo histórico e circunstancial;
6) Ciclo de amor e de fidelidade;
7) Ciclo erótico e obsceno;
8) Ciclo político e social;
9) Ciclo de pelejas e desafios.”
Mitologia e Trovadorismo…
A Literatura de Cordel, mais que centenária no Brasil(ultrapassou cem mil títulos publicados, segundo Joseph Luyten), tem suas origens ocidentais e pré-medievais,no universo poético de Provença, França, com os trovadores albigens (com destaque para Arnaud Daniel, Bertran de Born, Guiraut de Bornelh e Rimbaud Daurenga).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Proven%C3%A7al
Entre os trovadores portugueses, precursores da Literatura de Cordel e do Repente, vêm-me à memória Martim Soares e Paio Soares de Taiverós, além dos célebres reis-trovadores Dom Diniz e Dom Duarte.As influências sobre o cordel e a poesia popular contemporânea são multidiversas: desde a poesia mesopotâmica árabe-fenício-semítica, mediterrânea, hindu e persa, à poética egípcio - caldaica – hebréia – greco - latina e afro - indígena…
Não se pode esquecer a influência bíblica(Salmos de Davi, Provérbios de Salomão, Cântico dos Cânticos, Apocalipse), do Lunário Perpétuo, enciclopédias, dicionários, almanaques, dos grandes livros religiosos e belos cânticos de todos os tempos, presentes nas diversas civilizações ao longo do processo histórico.
Os chineses e indianos devem ter tido significativa influência nas origens e desenvolvimento da poesia popular, por sua antigüidade e por tantos escritos primordiais como os Vedas, Gita, Upanishads, Mahabarata, Ramayana, I Ching, o Zen e o Tão – Te - King, via Confúcio, Lao-Tse, Buda, Krishna, Rama e outros sábios do velho e mágico Oriente, tão incompreendido pela cultura ocidental.
A Poesia de Cordel demonstra a sua força e pujança na expressão ibero-lusitana - afro - brasilíndia e galego - castelã…Sem esquecer da verve provençal e italiana(latina). Os romanos com suas epopéias fecundaram a semente da poesia ocidental, herdada dos gregos, etruscos, celtas, gauleses, bretões, normandos, nórdicos e dos povos bárbaros da antiga Europa, Ásia e África.
Foi nesse espaço mitológico que surgiu a poética mágica de Dante e a verve inventiva do mestre Leonardo da Vinci e dos grandes artistas italianos. Entretanto, foi na Espanha de Quevedo e Cervantes(Quixote) e em Portugal de Pessoa, Camões e Gil Vicente, que o cordel ganhou feição popular e postura lítero-poética.
É na poesia cavalheiresca e trovadoresca que o cordel se inspira e alimenta-se de forma histórica, principalmente a partir dos Doze Pares da França(que retrata os tempos do Imperador Carlos Magno), das gestas e epopéias, dos bardos, apodos, Templários, da Távola Redonda do Rei Arthur, de El Cid, O Campeador, dos cavaleiros e cruzadas e da obra monumental de Camões e Cervantes, ambos influenciados por Dante Alighieri e por toda a tradição popular da oralidade greco-latina-ibero-lusitana.
Os trovadores foram os principais precursores e alicerces para a futura Literatura de Cordel nos países de língua portuguesa, principalmente no Nordeste do Brasil, a partir de Salvador-Bahia, dos portos marítimos e do Rio São Francisco, até chegar em Campina Grande, Caruaru e Juazeiro do Norte, onde criou raízes e imortalizou-se na verve dos poetas cordelistas e cantadores repentistas.
Não se pode esquecer o papel do boi(ciclo do gado), dos bandeirantes, dos jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, do negro(batuque, orixás, terreiros, candomblé), dos índios, caboclos, mamelucos, cafusos, mulatos, garimpeiros, aventureiros, lavradores, vaqueiros e tropeiros: disseminadores de costumes, falas e dialetos pelo vasto Sertão, da poesia regional e universal.Os poetas cantam a sua aldeia e desencantam os uni.versos.
A Literatura de Cordel foi enriquecida pela criatividade e maestria de Gil Vicente, Camões, Rabelais, Gregório de Matos, Bocaje, Castro Alves, Gonçalves Dias, Cervantes, José de Alencar, Tobias Barreto, Catulo da Paixão Cearense, Juvenal Galeno, Ascenso Ferreira, além da contribuição incomensurável dos trovadores provençais e do romanceiro medieval.
NOITE MUSICAL DE SOLIDARIEDADE AO TIMOR LESTE
A Biblioteca Demonstrativa de Brasília (W/3-Sul, EQ. 506/7) promove, no dia 15 de setembro, às 19h30, em parceria com o Comitê Brasiliense de Solidariedade ao Timor Leste, uma Noite Musical de Solidariedade a este país que recém conquistou a sua independência e que tendo uma história comum com a do Brasil, pertence à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
O objetivo é o de demonstrar a solidariedade dos brasilienses aos nossos irmãos do Timor Leste, país que foi ocupado militarmente por 25 anos pela Indonésia e que após conquistar a Independência, empreende esforços para a sua reconstrução e para superar seus difíceis indicadores de subdesenvolvimento. Timor Leste, ex-colônia portuguesa, também tem o português como uma de suas línguas oficiais, razão pela qual a atividade tem como meta contribuir para a formação de um acervo de livros em língua portuguesa e também de CDs de música brasileira a ser doado ao Ministério da Educação timorense e à Rádio Timor-Brasil, cujos equipamentos também foram doados àquele país da Oceania pelo Comitê Brasiliense de Solidariedade ao Timor Leste.
Será uma atividade singela: artistas de Brasília, através da música, expressarão com o seu canto e seu talento, a doação de um gesto, uma noite musical, cujo ingresso a ser "cobrado", será na forma de livros e CDs de música brasileira a serem doados e veiculados na rádio Timor Brasil. Quando da doação dos equipamentos de rádio, em julho último, também foram doados 300 CDs de música brasileira, entre os quais muitos de artistas de Brasília, alguns dos quais estarão se apresentando nesta Noite Musical de Solidariedade. Aqui estarão Célia Rabelo, Salomão de Pádua, Alysson Takaki, Márcio Bomfim, Marcelo Zanith, Nilson Lima, Myrla Muniz, Conjunto Samba & Choro, Assis Medeiros, Daniel Jr, Nelsinho, Zareh, Eustáquio, Márcia Veras, entre outros.
A Biblioteca abre suas portas também para a sua solidariedade. Já há uma rádio em Timor, onde a música brasileira e as palavras saudade, samba, batuque, fraternidade, solidariedade ecoam livremente levando o Brasil para outro lado do mundo. Agora precisamos ajudar solidariamente a montar uma biblioteca brasileira, especialmente de literatura infantil de autores brasileiros, de livros didáticos, de dicionários, como expressão de nosso desejo de uma relação cooperativa, fraterna e solidária para com os timorenses. Os nossos artistas já estão fazendo a sua parte, agora você também está convidado a oferecer generosamente a sua solidariedade.
Compareça, cante conosco e ajude a construir uma ponte cultural - feita não de tijolos, mas de livros e discos - que atravesse tanto mar que nos separa e seja capaz de unir os dois povos num dos mais nobres sentimentos da civilização humana, a solidariedade.
Maria da Conceição Moreira Salles – Coordenadora da Biblioteca Demonstrativa
Beto Almeida - Comitê Brasiliense de Solidariedade ao Timor Leste
Brevidades
[de adolescência]
Vita brevis ars longa
Sim, sabia,
Tanto quanto o sabiá sabia
Dançar tango,
Mas nesse corre
Não
Assim, já é demais.
Que seja muita vela
Enquanto espuma para
O meu casquinho, mas
O marinheiro quer
Muito mais
Mar
Navegar
Nem que seja sobre
Espelhos
Índigos oceanos de dois olhos
Que não me davam paisagem.
Estreitas paragens que não viram
O quanto eu (precocemente) me fiz homem ao mar...
Entre rochedos,
Mas...
Por mais esguia que seja
A tormenta
Das vidas que a vida têm muito
Pouco,
Muito pouco, somente um
Estalo de pipoca,
Tão fugaz quanto se foram as tardes
De domingo no parque
Tanto que nem consigo saber
Em qual das minhas infâncias me afoguei.
Na seção de tiros um único [em ti] acertei,
Mas a prenda era tão insignificante que por pouco não
Aprendi com
Tanto amor que dizias ter
Aliás, mais para ensinar do que para
Dar.
Se bem que tu mesma me roubaste:
“Ulysses, não sou Penélope...”
Mas...
Valeu
Luiz Martins da Silva
Por Aloísio Brandão,
Jornalista e compositor
(Aloísio.brandao@ig.com.br)
Eram 11 horas de 16 de julho de 2008, quando tomamos a estrada de barro poeirenta que nos levaria de Santana dos Brejos a Porto Novo, a pouco mais de 40 quilômetros. A manhã claríssima e o céu azulzinho, sem nenhuma nuvem, eram dramáticos. Afora o pó de terra fino e grudento que esta época do ano prepara nas estradas barreadas sertanejas do Nordeste e os solavancos, a viagem foi agradável e mais rápida do que eu imaginara.
A solidão transformadora daquele pedaço meio esquecido da Bahia e a conversa interminável e emocionada com o motorista Marcelinho de Lia de Pedrito no carro de quem eu viajava foram um prefácio do que eu encontraria pela frente: um belíssimo povoado perdido no tempo.
Uma hora depois, Marcelinho de Lia de Pedrito esticou o beiço e, como quem traz a mais aguardada boa-nova, anuncia: “Estamos chegando, em Porto Novo. Fica logo do outro lado desse morro, aí”. Meu coração disparou. Nem sei por que, mas disparou. Acostumado a tantas viagens, por que meu coração haveria de disparar, justo diante da notícia de estar chegando a Porto Novo?
Foi o tempo suficiente para arrumar o cabelo desalinhado pelo vento encharcado de poeira que entrava pela janela que não fechava – a do lado do passageiro -, para calçar as velhas botas Bull Terrier e ajeitar o bermudão caqui folgado. E, de repente, o lugarejo começa a obrar o seu encantamento. No início, tudo parecia um filme meio desbotado, do realismo fantástico. É Porto Novo que vem entrando em mim, sem me dar tempo para respirar.
Já às primeiras casas, dava para ver o mistério que o tempo tecera naquele povoado: o seu total desapego às horas. O carro de Marcelinho de Lia de Pedrito avançou pela primeira fileira de casas, e eu lhe pedi para que fosse o mais lento possível. Precisava amoldar-me à fôrma do não-tempo, naquele lugar.
Além do mais, sorver Porto Novo, num gole, poderia ser perigoso para a emoção. Era preciso tempo para decodificar, aos poucos, aquela ausência de tempo. Porto Novo desidratou-se de tudo o que é desimportante para se tornar a essência em povoado. Portanto, era preciso calma para a minha cabeça desapegar-se da aceleração em que vive metida e, aos poucos, absorver Porto Novo. Não seria fácil. Ali, o tempo desintegrou-se.
Marcelinho de Lia de Pedrito, com sua incrível sensibilidade para a poesia e para a música, e chegado à uma boa contação de histórias, estacionou o carro, ao fim da rua principal das quatro ou cinco ruas existentes, onde fica o restaurante de Augusto. Em verdade, um rancho de madeira com uma varanda arejada e de onde se vê, a coisa de uns 15 metros dali, o caudaloso e veloz Rio Corrente.
Aproveitamos para encomendar, logo, o almoço, pois já passava do meio-dia. Uma moqueca de peixe acompanhada de pirão, arroz e salada foi sugerida por Augusto. Moqueca, no sertão baiano, não conhece camarão.
Enquanto Augusto, descalço, nu da cintura para cima e metido num calção preto descorado, emprestava o seu capricho à preparação do almoço, fui dar uma volta a pé pelo povoado. Marcelinho não quis acompanhar-me. Reclamou do sol. E, lá, fui eu bater perna. Quanta beleza por todo lugar. As casas, pintadas em cores vivas e várias delas bem conservadas, pareciam desgrudar-se de um quadro de Volpi para se abrigar naquelas ruazinhas.
O casarão de Seu Anízio Gonçalves e D. Idália, falecidos, compadres do meu pai, Seu Benedito de Amorim Brandão, exibia o esplendor dos tempos em que era moradia de sua numerosa família, antes de ela migrar para Santana dos Brejos, no início dos anos 70. O casarão estava fechado.
Aproveitei para visitar amigos dos meus pais. Nazinha estava na cozinha, preparando um arroz, e ficou nervosa, quando me viu entrando pela porta. Nazinha é o coração em pessoa. Não sabia se ficava ao fogão, ou se me oferecia uma cadeira, uma água. Acabou trazendo-me uma pinha doce, colhida em seu quintal. Dali, ela me levou à casa de D. Nice de Isaías Araújo. Em seguida, fui à casa de Chico de Menininha. Puro jardim à beira do Corrente.
Voltei a caminhar sozinho pelas ruas. E uma carga de emoção apoderou-se de mim, novamente, quando tomei uma ruazinha margeando o rio, de onde subi para a rua principal e fui dar na igrejinha de São Sebastião, o padroeiro do lugar. Calma e ternura por todo lado. Quase ninguém pelas ruas. Um senhor, sentado em um tamborete de madeira e encostado ao tronco de um oitizeiro, quebrava delicadamente o silêncio com o seu rádio de pilha posto sobre as pernas. Cumprimentou-me com tanta doçura.
Mais abaixo, uma velha de uns 90 anos enfiava, com destreza, a linha na agulha. Parei para ver a cena, e me perguntei se aquela linha não seria adestrada para entrar na agulha, pois que a senhora não usava óculos. Já perto do restaurante do Augusto para onde eu voltava, três senhoras e uma criança desfiavam uma conversa mansa, sentadas à sombra de uma algaroba. E só. Ninguém mais pelas ruas.
Dentro das casas, de onde exalava os cheiros bons das comidas ribeirinhas pelas chaminés prenhas de picumãs, ouvia-se apenas o silêncio, entrecortado por talheres mais afoitos e ruidosos. Já passava das 13 horas. E a fome apertou.
No restaurante de Augusto, encontrei Marcelinho de Lia de Pedrito me esperando com uma cerveja. O cheiro do tucunaré ia longe. Pedi um copo e ofereci cerveja a um meio-mulato de sol, espadaúdo, musculoso e baixo, de uns 45 anos, chamado Tácio. Ele quis saber se eu era de Salvador. Disse-lhe que era de Santana dos Brejos, mas que morava, em Brasília, há 30 anos.
Perguntou-me se eu era médico. Respondi-lhe que jornalista e compositor. Aí, ele saiu de fininho, com a sabedoria dos velhos sertanejos e, minutos depois, voltou, trazendo um violão e vários amigos. Pedi-lhes apenas uns minutos, enquanto saboreava a comida de Augusto. Eles já haviam almoçado, pois que, naquela beira de rio, em pleno sertão nordestino, almoça-se muito cedo.
O peixe servido por Augusto foi um acontecimento à parte. Aquele cabra pareceu-me um mágico na cozinha. O tucunaré era tucunaré e não uma invencionice gastronômica dessas que acabam virando um monstrengo sem gosto, nem personalidade. O peixe de Augusto estava preparado com a brandura dos entendidos: pouco tempero, pouco sal, o que fazia sobressair o sabor do peixe em postas sem ranço, sem aquele gosto barrento de alguns peixes de rio.
O pirão, uma tentação! Obviamente, que Augusto se prevaleceu da qualidade da farinha de mandioca bem torrada, parida nas farinhadas de Santana dos Brejos, para extrair dela o melhor sabor e a textura exata para o pirão. O arroz estava ligeiramente molhado e deixava sobressair pequenos pedaços de alho bem passado. A salada era simples: alface, tomate e cebola em rodelas.
O Corrente, ao lado, deslizava-se, fartamente, formando redemoinhos e desafiando uns meninos que pulavam em flecha dos galhos duma árvore à margem. Pouco à esquerda, via-se uma ilha plena de verde. Próximo ao restaurante, do outro lado da rua, num rancho sem paredes, alguém alheio a tudo dormia profundamente numa rede.
Nenhum carro, nenhuma moto, ninguém vendendo bugigangas importadas, nenhum barulho. Só o aparelho de som de Augusto dava um sinal sonoro, tocando Maria Bethania, bem baixinho, naquele mundo que os mapas turístico e socioeconômico não alcançam.
O que veio, após a última garfada, naquele ambiente delicadamente rude, foram o violão e os cantares. Cantei para eles composições minhas. Eles retribuíram, cantando trabalhos seus e de outros compositores. Saiu “A volta do boêmio” (Adelino Moreira), imortalizada na voz de Nelson Golçalves, e outras.
Porto Novo tem uma meia dúzia de ruas e uns 3 mil habitantes. É distrito de Santana dos Brejos e foi onde o Município nasceu. O Rio Corrente margeia a lugar e desemboca, no São Francisco, a uns 80 quilômetros dali, num povoado chamado Gameleira, Município de Sítio do Mato, pertinho de Bom Jesus da Lapa (BA).
Sempre desconfiei de que a ruazinha que surge do nada, em meus sonhos, há mais de 20 anos, fosse uma daquelas ruazinhas de Porto Novo.
Mais tarde, Tácio perguntou-me ao pé-de-ouvido: “Você vai escrever alguma coisa sobre Porto Novo? Eu fico com medo de Porto Novo ser descoberto, de isso aqui encher de gente e acabar a nossa paz”. Falou, como se desejasse que ninguém lesse este texto.
Escandalosos crepúsculos ( * )
Amo sertões e veredas,
Aos brados reverencio
Profundas brenhas da América
Fazendo nascer grandes rios
Enigma destas paragens
Que, em ânsias de infinito,
Cruzam no mesmo horizonte
Céu, Terra, Água, Fogo e mito.
Ah! Se por aqui houvera
Passados os olhos de Whitman
A recontar do Universo
Luxúrias em grandes escritos!
Quanta coisa a enumerar
Para compor um poema
Dos leques do buriti
À flor da canela-de-ema.
Mas quando cheguei por aqui,
Mesmo sabendo parlendas,
Não é que me enamorei
De estranha flor do cerrado?
E agora relendo passados,
De toda essa gente heróica,
Candangos, paus-de-arara,
Corridos das secas do ‘Norte’
Verei meus filhos crescidos,
Mas sem haver de inferir
Quanta estrada para um homem
Até se arranchar por aqui.
Quanto verso e quanta prosa
A desvendar destes céus
De dia, escassez de nuvens;
De noite, perfumes de flora.
Mas só pra quem vive de ocaso,
Patético semblante de louco,
Aparece lua branda de um lado;
E um disco laranja do outro.
Luiz Martins da Silva
* Dedico este poema-mosaico [antigo, mas reescrito] a tantos artistas amigos que têm, sem saber, feito em conjunto um único texto-mito (mitopema?) deste outrora sertão Centro-Oeste e que nestes versos irão flagrar alguma citação de seus estilos próprios.
Ora, valho uma nota de mil;
Ora, nem barro de porco.
Às vezes, sou reles e vil;
Às vezes, sou mesmo louco.
Avesso
Luiz Martins da Silva
Súplica
Todo dia, a petição,
Todo dia, o lero-lero.
Afinal, por que não dão
O que tanto pede o quero-quero?
Luiz Martins da Silva
Sentimento cerrado
Guardarei para sempre indelével aonde for
Estas patéticas paisagens tingidas de crepúsculos,
Estas noites agônicas de brisas vindas da Lua
E tão somente a nos proteger lassos orvalhos
Que logo desfalecem face à aparição de luz maior.
Ele, heliocêntrico, retinto, rútilo disco faraônico
Não tolera nuvens no seu salão azul de audiências,
Onde impõe cegueiras de narinas ressequidas,
Alérgicas à profusão de invisíveis cepas de rarefeitos pólens,
Mas ótimos para pintura corporal de seriemas e calangos.
E eis que surgem, tímidos, em meio à savana,
Aqui, acolá, um lobo, um anum, um carcará,
Cada um saiba de si, no sufoco, araçá, jenipapo, graviola, murici.
Aqui, acolá, num torto galho, ipês roxos e amarelos
E as esquálidas, mas elegantes se floridas, canelas-de-ema.
São, assim, silvestres estilos metamórficos todo o ano
Até virar folinhas desidratadas alimentando labaredas
A lamber vastidões na missão de estourar esporos
Que ao primeiro cio da terra se desdobram em rebentos.
Ramagens novas: sucupiras, quaresmeiras, guarirobas, caliandras.
Guardarei para sempre este cinema que me faz interior,
Alma de solo calcinado cor pó de cimento,
Que à primeira chuva se exagera na oferta de aromas,
Por todos os lados brotações de mimos,
É quando a pretexto de cajuzinhos a campo saímos
Feito bichos ainda há pouco escondidos em troncos queimados,
Tudo que era cinzas muda de pele para novos encontros.
É a vida, de novo colibri, sabiá, bem-te-vi, serigüela, cajá-manga,
Alaridos de convites. É a natureza musical dos amantes.
E o deserto? Redimindo-se em promessas de aguaceiros e torrentes.
Luiz Martins da Silva
IV Festival de Música Instrumental e Arte Popular de Cavalcante-GO-23 e 24/08 de 2008 - PETROBRAS
O IV Festival de Musica Instrumental e Arte Popular de Cavalcante será realizado em 23 e 24 de Agosto,sábado e domingo na Praça Central Diogo Teles.O tema é Água. Como em todos as outras edições com muita paz e alegria com atrações musicais de BSB e da Cidade(leia abaixo)e Arte popular, Sessão de Cinema, Exposição de Artesanato e as comidas e bebidas típicas da região.Tudo isso sob o olhar amoroso das montanhas e a brisa tépida da Chapada!
Este BLOG é um espaço aberto aos amigos convidados pela T-Bone para publicar seus textos de temas livres, além das notícias do dia-a-dia da ONG. Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo publicado. Boa leitura! Luiz Amorim
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