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A espera
O velho carro de bois ficava no pátio da fazenda, embaixo da sombra do pé-de-manga mais que centenário. Tornara-se peça obsoleta depois que o pai comprou o carroção com pneus de caminhão no lugar das antigas rodas de madeira. A diversão preferida do menino era ficar deitado sobre as tábuas da engenhoca. Mãos cruzadas para proteger a cabeça da rusticidade da madeira, ele passava tardes inteiras a observar as nuvens no céu. Era divertido vê-las tomar as formas mais bizarras e, dali a pouco, se transformar em coisas novas.
Ele vislumbrava torreões e muralhas de cidades imaginárias, bando de carneiros todos brancos e até um magnífico São Jorge, montado em seu cavalo, a espada apontada para um dragão de cúmulos – numa repetição gigantesca da cena triunfal que se vê por ocasião da lua cheia.
Quando adolescente, imaginava um céu habitado por ninfas lascivas, soltas no céu daqueles outonos, as cabeças viradas para trás em olhares insinuantes. Também via os braços nus e o enorme dorso de uma imensa mulher nua, sentada sobre a vastidão das nuvens. As tardes passavam ligeiras e o menino ficava ali, em cima do carro de bois agora destituído de sua função principal, a esperar o movimento das nuvens, fazendo e desfazendo coisas sob o comando de um sudoeste mais ativo.
O pai implicava com a mania do menino e, às vezes, o despertava do seu sonhar acordado ali pelo meio da tarde, quando devia cumprir a obrigação diária de tanger as vacas para o curral da fazenda. O velho carro de bois e as tardes em que ele escrutinava as nuvens deixaram como legado sua principal virtude, agora que já era homem feito: a capacidade de saber esperar. Em verdade, sua vida pode ser resumida a esse mister.
O anjo da anunciação, que lhe explicaria enfim o sentido da vida, não apareceu nas inúmeras vezes em que ficou sentado na porteira da fazenda, com os olhos fixos na estrada que se perdia no horizonte, a se indagar sobre tantas filosofias e o porquê da existência. Esperou pela boa fortuna e o amor ideal, que viria no formato de belos olhos e longos cabelos, todos negros. Cogitou mudar de profissão e de país, no que resultou em novas expectativas por sonhos que não se realizariam.
Esperou que o tempo se cumprisse, mas essa esperança também foi vã: o caminho do paraíso perdido não lhe foi revelado nem a Atlântida submersa rompeu a epiderme dos oceanos. Vieram os filhos e as rugas, mas só estas ficaram. Sob sua fronte já despencam mechas de cabelos brancos, e agora, como num ritual há muito esquecido, ele fica sentado por longos períodos na porta da casa.
Vasculha o céu em busca de formas antigas, perdidas em um canto qualquer da memória. Tudo o que consegue delinear são traços disformes de figuras pouco familiares. Mas espera assim mesmo, com resignação e paciência infinitas. Ele sabe que um dia um sudoeste mensageiro ainda vai compensar toda expectativa e devolver sonhos dissolvidos em nuvens de outros céus.
A urgência da revitalização do rio São Francisco
Luís Cláudio Guedes*
A transposição das águas do rio São Francisco detém, até aqui, o status de maior projeto daquilo que um dia será chamado de a Era Lula. E não só pelo volume de recursos envolvidos – a última previsão é de que o desvio do rio da integração nacional custe algo em torno de R$ 6 bilhões. A obra pode ser um marco também pela tentativa de resolver o secular desafio da seca no semi-árido nordestino e pôr fim à indústria que a situação alimenta. Não é pouco dinheiro envolvido no projeto. Contudo, como é da praxe nacional, a obra, quando e se um dia for concluída, terá drenado soma bem maior de recursos.
O principal argumento do governo federal para tocar a transposição é de que os canais a serem abertos no sertão vão levar água para 12 milhões de nordestinos. Aí está o ponto que gera maior contestação por parte dos adversários da transposição. O número estaria superestimado e os maiores beneficiários pelo projeto seriam latifundiários e empreiteiros. Esses, porque teriam a oportunidade de reviver o hábito pátrio de fazer um outro tipo de transposição: a de dinheiros públicos para o financiamento de campanhas de políticos parceiros. Aqueles, pelos rumores da existência de especulação imobiliária nas áreas localizadas perto do que serão as futuras margens dos canais de irrigação.
A polêmica é das boas e há que se considerar a opinião dos barranqueiros sobre o tema. Barranqueiros, explico, são aquelas pessoas que moram às margens do rio e que têm interesse direto no seu destino. É salutar que eles sejam ouvidos, inclusive como forma de contraposição ao ânimo do presidente Lula em patrocinar a obra, custe o que custar..
Aos barranqueiros, principalmente dos estados de Minas Gerais e da Bahia, os chamados doadores da água a ser transporta, interessa mais ação do governo em relação a medidas que promovam a revitalização do rio. Recuperar o rio do processo de degradação que enfrenta deve ser questão que preceda a transposição pura e simples das suas águas para qualquer finalidade. O rio sofre um acelerado processo de destruição e a questão que se coloca é a seguinte: até que ponto, no médio prazo, não se corre o sério risco de o São Francisco não ter mais a água que agora se deseja transpor sertão adentro.
O recente ataque de algas que infestam o São Francisco entre Pirapora e Manga e a proliferação das cianobactérias tóxicas são graves indicadores da agonia que o rio enfrenta. O desastre ambiental foi atribuído aos esgotos humanos e ao derramamento de adubos do tipo NPK no seu leito. O fósforo, o "P" da fórmula NPK, pode favorecer o desenvolvimento das algas. O resto ficou por conta da forte estiagem que assolou a região, o que deixou as águas mais límpidas e permitiu que o sol penetrasse e, com isso, as algas se desenvolvessem mais rapidamente.
O governo trata o assunto com certa dose de açodamento e um viés autoritário – basta citar a forma como o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, foi tratado nessa última greve de fome: algo entre chantagista e inimigo do Estado e dos supostos 12 milhões de beneficiários da transposição. O que não é verdade, pois o projeto não tem unanimidade agora nem nunca terá. Esse mesmo governo tem contra si a notória dificuldade de tirar do discurso as muitas promessas que faz. É o caso da construção de um milhão de cisternas na região Nordeste, medida adicional de combate à seca. Fez um quarto disso e não volta ao assunto.
Na questão da revitalização, recordo que o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) anunciou obras de esgotamento sanitário em boa parte das cidades ribeirinhas e, no que diz respeito ao Norte de Minas, nada foi feito após seis meses da promessa. Há muitas pendências para a recuperação do rio. São medidas de urgência mais relevante que a dita transposição das águas. Além de acabar com o lançamento de dejetos no rio São Francisco, é necessário dragar os pontos mais críticos do assoreamento do seu leito e iniciar para ontem um programa de replantio da mata ciliar, destruída ao longo dos últimos 500 anos de exploração econômica das riquezas do rio e das suas margens. Tais cuidados devem ser estendidos aos afluentes que formam a bacia do "Velho Chico", que também sofrem com a degradação.
No caso da transposição, o governo age com a mesma pretensão de dono da verdade que marcou sua acachapante derrota na votação recente da CPMF. Não admitia o contraditório e o resultado foi o que se viu. Em política, a arrogância é a antevéspera da derrota. "Se o Estado cede, o Estado acaba", disse Lula sobre o bispo Luiz Cappio. Por que não submeter o tema a um plebiscito? Talvez descobrisse o óbvio: a transposição das águas do rio São Francisco não é ponto pacífico e nem sempre o que parece ser bom para o presidente de plantão é bom para o país e seu povo.
Para mostrar que não está para brincadeiras, o governo até já bateu o martelo na licitação do primeiro lote da obra, o chamado eixo Norte. O eixo Norte, de 440 quilômetros, responde pela maior parte do projeto e vai levar água em canais de concreto aos estados do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
O governo obteve outra vitória com o anúncio, na semana passada, do final da greve de fome do frei Luiz Cappio, que colocou fim ao jejum que já durava 24 dias. O religioso talvez não quisesse de fato se imolar na luta contra a transposição e teve o mérito de chamar, em duas ocasiões, as atenções do país para o tema. Dom Cappio não vestiu o figurino de mártir, talvez porque saiba o descaso com que o país trata seu restrito time de heróis. Ele não desiste: vai centrar forças na aprovação de emenda constitucional que garanta a revitalização do rio, por meio da destinação de 0,5% da arrecadação da União para um fundo especialmente criado para tal fim.
Quanto ao presidente Lula, se quiser mesmo ser reverenciado como o presidente que finalmente enfrentou um problema que se arrasta desde os tempos do Império, deveria dar mais atenção aos que clamam pela revitalização do "Velho Chico". Este sim, o grande desafio que se coloca perante o país: o risco da degradação incontornável do rio da integração nacional.
*Luís Cláudio Guedes, 43 anos, é jornalista e assessor de imprensa. Mais artigos do autor em http://luisclaudioguedes.uniblog.com.br
A paz perdida
Não faz tanto tempo assim era possível dormir de portas e janelas abertas na maioria das nossas pequenas cidades bem típicas do interior do país, dessas entre cinco e 20 mil almas -- locais em que existia até outro dia a camaradagem amistosa entre vizinhos e cadeiras nas calçadas nos fins de tarde. Sabe-se lá o porquê, certamente o avanço da miséria entre nós é uma das causas, mas o fato é que está ficando difícil a vida em lugares antes aprazíveis para morar e viver. E olha que não estou falando de 100 mas apenas de 10 ou 15 anos. Bons tempos.
Virou rotina: todo final de semana, quando ligo para saber as novidades da minha cidade natal, lá do Norte de Minas, recebo o informe de que entraram na "casa de seu fulano", "roubaram o supermercado tal". E por aí vai. São relatos de assalto à mão armada nas estradas da região, assalto a ônibus e outras tragédias nas quais o ser humano mostra o que tem de pior. Respeitadas as devidas proporções, o "noticiário" que recebo de lá não faz inveja a metrópoles como o Rio de Janeiro e São Paulo.
É o caso de repetir o lamento que ouvi certa vez de um conhecido fazendeiro, figura folclórica lá da região, que teve sua propriedade de 300 e tantas reses transformada em assentamento, por obra e graça da Reforma Agrária, e disso se lamentava:
- A situação da lavoura está "pecuária".
Precária, com todas as letras, a coisa anda mesmo. E não há governo, não tem polícia que dê jeito na facilidade da ação e na desfaçatez desses pilantras amigos do alheio. Que a miséria empurre um pai de família em desespero para o ilícito até se compreende, pois não há dor mais lancinante do que assistir à fome de um filho. Mas daí a servir de justificativa para a falta de vergonha dos larápios, daqueles que detestam o velho e bom batente, vai uma distância sem fim.
Respeitadas as devidas proporções, o "noticiário" que recebo da minha cidade natal não faz inveja a metrópoles como o Rio de Janeiro e São Paulo
Hoje em dia até uma simples parada para a troca do pneu furado já é motivo de alerta para os usuários das estradas vicinais da nossa região, antes tão solitárias quanto seguras para os viajantes. O que não faltam são relatos de motoqueiros assaltados ao parar para abrir uma porteira ou o caso de um mototaxista atacado no final de uma corrida para local deserto. Nesse ritmo, a delinqüência logo, logo começa importar para o nosso Norte de Minas os temíveis seqüestros-relâmpagos, que tanto têm assustado a classe média dos grandes centros. A polícia, claro, aprende e reage em ritmo bem mais lento e vai sempre a reboque da criminalidade.
Nos dias de juventude da minha geração – que foi ainda ontem – não tinha nada disso. Lembro que, por ausência de uma boa casa do ramo, os casais de namorados usavam o artifício sempre muito criativo da fugidinha para os arredores das nossas cidades, onde conseguiam local pouco movimentado que servisse ao lazer sexual. O motel bom e barato, ou "matel" como preferiam alguns, só dependia de um carrinho meia-sola - ainda que fosse um fusquinha velho. Sabe como é, para o sujeito não fazer feio aos olhos da amada. No mais, uma noite bem escura que evitasse a maledicência dos curiosos. Uma aventura dessas nos dias de hoje seria uma temeridade.
Um amigo meu, de quem não posso declinar o nome, por ser hoje respeitado cidadão de meia idade e dedicado pai de bem constituída família, era useiro e vezeiro desse expediente noturno. Até que, um dia, indo o negócio amoroso muito bem encaminhado, surge uma vaca não se sabe de onde e enfia a carona dentro do carro - de portas abertas para melhor comodidade do casal. Dona mimosa, tascou suculenta lambida no meio das costas lá dele, tão caprichosa na carícia, e aí não estão excluídos a baba pegajosa e o focinho frio do animal, que o distinto, mesmo saudável, levou coisa de duas semanas para ter de volta seu normal desempenho nas artes da amorosidade. Um sustinho de nada, se comparado com o perigo de ser surpreendido com um tresoitão apontado para a cabeça, risco sempre presente nesse nosso tempo violento.
Sei da história de uma pessoa que recusou emprego num restaurante da minha cidade natal, mesmo precisando muito dele, por receio de voltar para casa num bairro da periferia por volta de 11 horas da noite. Nunca é demais lembrar que a cidade ficou, por um bom tempo, sem juiz de Direito, promotor ou delegado. Fato que diz muito sobre o crescimento da violência e a sensação de terra de ninguém vivida pelos moradores.
Falta dizer, nas poucas linhas que me restam, das inúmeras vezes que percorri , a pé, as três léguas que separam a rodovia por onde passa o ônibus que atende a região e o sítio da minha família, que tem simpática lagoa ao lado da sede, onde os sapos coaxam a noite toda num "foi, não foi! foi, não foi!", que é sinfonia das mais agradáveis. Naquela época, medo eu só tinha mesmo de alma penada, saci-pererê, da mula-sem-cabeça e de não conseguir, um dia, ter a sonhada "condução", ainda que fosse um fusquinha, capaz de me livrasse do sacrifício daquela caminhada. O certo é que nossa antiga paz foi se embora. Isso foi.

Florada
O Ipê que mora de frente para a minha janela floriu outro dia. Não foi assim tão de repente, claro, mas só fui perceber numa dessas tardes esquisitas de domingo no inverno aqui do Planalto Central, quando o sol torna abrasivo o rosto dos transeuntes, mas não consegue evitar esse friozinho teimoso nos interiores das nossas casas e de nós mesmos.
Minha janela e a pequena paisagem que ela me reserva ficou subitamente colorida, antecipando a primavera que ainda não chegou para o resto da natureza, que ressecada e triste matura a flor que ainda virá. Mas o fato é que o tédio da tarde desse domingo ficou mais suportável porque o ipezinho-amarelo explodiu sua florescência quase temporã.
E nada é mais belo do que isso. Nem o cromo da multidão que faz a passeata nem a explosão da torcida na comemoração do gol do seu time nem o fundo do mar em Fernando de Noronha nem o Carnaval em Salvador ou a tourada em Madri. Penso mesmo que a Terra, vista lá de Marte, não deve ser mais bela que a florada do ipê aqui ao lado do meu prédio. Pelo menos, não agora.
Toda a tarde se encheu de sensações, sons e bons odores graças ao meu ipê – o que não é pouca coisa na aridez de Brasília, com a sua baixíssima umidade do ar nessa época do ano. Essa arvorezinha toda engalanada é um bálsamo na melancólica repetição dessas quadras e super-quadras cinzentas, tudo sempre na mesma mesmice retangular e impróprias ao convívio. Mas a atmosfera agora lembra um oásis e minha cabeça ganha a leveza dos que têm todo o tempo do mundo. E o pensamento viaja.
Prorrogue-se por medida provisoriamente eterna a manhã da segunda-feira que se aproxima com seus funcionários públicos ainda sonolentos, bancários apressados e os eixos monumentalmente congestionados por fords e volkswagens bancados na prestação a perder de vista. Abaixo toda a formalidade dos ternos e gravatas que acinzentam a vida, que toda chatice seja abolida, afinal, o meu ipê abriu mão do seu justo hibernar e, mesmo despido de toda folhagem, coloriu uma insípida tarde de domingo.
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Um beija-flor, quase liliputiano daqui do meu posto de voyeur acidental, passeia entre androceus e gineceus, completando essa inocente orgia da natureza
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O ipê floriu e mudou a perspectiva. Só mesmo o meu ócio, que era ocioso mesmo, desses de baiano deitado na rede a contemplar o coqueiro que dá coco, pôde permitir o que veio a seguir. Daqui dessa minha janela, vi quando um casal de rolinhas “fogo-apagou" pousou num dos galhos amarelo do ipê e iniciaram um animado namoro. O pombinho-macho, com as penas eriçadas e todo pavoneado, cantava a onomatopéia que lhe serve de nome: "fogo-pagou', "fogo-pagou", enquanto pulava de um lado para outro do galho, deixando hipnotizada a fêmea com a música do acasalamento.
Ato contínuo, ele já estava por cima dela, asas e rabinho abanando doidamente, a fêmea subjugada por firmes bicadas no cocuruto.
Um sabiá-laranjeira, talvez embalado pelo espetáculo de tão invejadas delícias, começou longo e plangente gorjeio - à maneira dos líricos - daquele mesmo canto com que nos acorda toda madrugada aqui na capital do país por esta época do ano. Há quem acredite que o canto do sabiazinho seja a anunciação das chuvas que estão por vir. Mas arrisco outra hipóetese: ele parece chorar poesias de amores perdidos, quem sabe por um outro sabiá choroso que vagueia por aí na imensidão deste Planalto Central.
A coisa foi rápida, mas não o suficiente para impedir que o pequeno bosque de sibipirunas entre o meu prédio e o próximo virasse uma festa com a orquestra de canários, bem-te-vis e pintassilgos. O barulho atraiu também um beija-flor, ainda mais liliputiano daqui do meu posto de voyeur acidental, que, todo faceiro, passeava por entre androceus e gineceus, completando essa inocente orgia da natureza.
postado por LUÍS CLÁUDIO
O último dos moicanos
A pós-modernidade bate à nossa porta com todas as promessas de felicidade e vida fácil. Mas, sempre tem um "mas" para ajudar a relativizar, o bom senso recomenda evitar certos exageros. É o caso, por exemplo, da idade mais propícia para que os pais presenteiem seus filhos com o falsamente imprescindível telefone celular. Sem prejuízo de uma opinião mais abalizada, acho o fim da picada assistir a crianças de seis ou oito anos desfilarem por aí com suas maquininhas coloridas presas à cintura, como prova de status ou sei lá o quê, numa demonstração desnecessária da infância precocemente perdida.
Na pré-adolescência ainda vá lá, pois esta é a fase em que a meninada inicia seu rito de passagem para a fase adulta, momento em que estão mais propensos ao instinto gregário que valoriza mais as tribos e pede certa distancia dos cuidados paternos. Nesse caso, o mimo serve para a dupla utilidade da socialização da moçada e à sempre útil vigilância de quem paga a conta.
Não custa repetir que o bom senso vale muito nessas circunstâncias. Nunca tive celular e dele não sinto a menor falta, mas sei de gente que reage quase a ponto da indignação quando informo desse fato, reduzindo este cronista à condição de pária e inimigo número um da civilização:
- Como assim??!! Você ainda não tem celular ???!!!
Imaginem se eu dissesse que nunca botei os meus pés numa loja do McDonald's e que vou indo muito bem, obrigado. Não é postura antiamericana nem militância de qualquer espécie: é que esse hábito simplesmente não faz parte da minha escassa cultura gastronômica, com a vantagem de me livrar do excesso de lipídeos e carboidratos, que são os responsáveis pela atual onda de obesidade que ronda por aí.
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São regras básicas que trouxeram o homem das cavernas pré-históricas até o presente estágio da civilização
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São os efeitos colaterais da tal modernidade, ou pós-modernidade como preferem alguns. Como é o caso do individualismo exarcerbado que prioriza o "ter" em prejuízo do "ser", tema sobre o qual se debruçam os estudiosos para apontar como sinais mais visíveis a mania contemporânea que tem nos shoppings centers o local preferencial de culto e a propaganda como catequese mais eficaz.
Ora, todos sabemos que em lugar das engenhocas de última geração como computadores e celulares ou tudo que é da última moda, tem muito filho por aí precisando receber alguns dos códigos-chave elementares ao convívio do bicho humano. Coisinhas básicas como um "por favor", "muito obrigado" ou um "não precisava, mas fiquei feliz com a sua gentileza". São ninharias, regrinhas básicas que, por sinal, ajudaram a trazer a humanidade das cavernas pré-históricas até o presente estágio da civilização.
Depois tem gente que ainda se assusta quando a televisão mostra alguns garotos partindo para o argumento da força bruta para conseguir os primeiros beijos de assustadas mocinhas, como é comum assistirmos volta e meia num desses programas de final de domingo. O homem de Neanderthal seria mais sutil. Comportamentos desse tipo acabam desembocando naquelas cenas de violência empregada por alguns pit boys de academia e seus músculos em profusão nas andanças pelas boates das grandes cidades, resultado do desconhecimento de etiqueta e noções mínimas de boas maneiras.
Sem levar em conta que toda tecnologia à disposição da rapaziada por vezes resulta na esculhambação que eles fazem com o nosso idioma em e-mails, blogs e afins, reduzindo-o a barbarismos como "bjins", "naums", "kd", "vamos tc?", "msg" e outros absurdos tais, que pretendem significar "beijinhos", "não", "cadê", "vamos teclar?" e "mensagem". Não é de lascar? E depois ainda tem quem defenda essa conversa mole de que a internet colaborou para que as pessoas voltassem escrever. Melhor voltar aos sinais de fumaça.
Antes que me acusem de rabugice, é preciso dizer que passo longe de ser portador do mal atual da tecnofobia e que costumo, sim, ir aos shoppings centers vez em quando. Faço bons passeios pelos corredores e normalmente me surpreendo com a quantidade de coisas que estão ali à disposição dos meus olhos e cartão de crédito e das quais, felizmente, não preciso para ser feliz.
P.S.: O autor do texto já usa celular há algum tempo, mas faz a ressalva de que a sua vida não mudou para melhor em razão dessa adesão à tecnologia. De modo que o texto não perdeu a validade.
A inundação

Começava mais um ano como todos começam. A família reunida para as festas do Ano Novo, como, aliás, já o fizera uma semana antes por ocasião do Natal. O homem agora contemplava o rio, os cotovelos apoiados no muro de balaústres do velho cais e o corpo ligeiramente inclinado para frente. Atrás dele a pequena praça, com as suas casas antigas construídas em adobão. Do lado sul, na mesma direção em que o rio formava uma pequena baía, ficava o imponente prédio de tijolos à vista do novo Fórum, numa elevação do terreno, de onde era possível avistar o rio se contorcendo todo para envolver a pequena ilha no formato de coração.
A jusante, o homem podia ver a bela paisagem na caminhada do rio em direção do outro Estado. O pequeno atracadouro, lá bem longe, antecedia a imaginária linha no horizonte, ali na justaposição do azul do céu com o verde no leito do rio, ambos se imiscuindo num torvelinho de vastidão. Os olhos do homem percorriam a paisagem à sua frente num lento vai e vem, como um pêndulo vagaroso que desejasse traçar a metade de uma circunferência, dividida pela linha do muro do cais logo a seus pés.
O ano que se iniciava seria o quadragésimo da sua vida, pensava o homem. Saindo de sua abstração, notou os movimentos do pescador que se esforçava para manter a proa da canoa na direção da outra margem, o remo manejado com excelência cortava a água como lâmina. O rio estava calmo naquele fim de tarde, a superfície das águas balançava placidamente e refletia os raios do que ainda restava do sol a intervalos regulares. Ele acomodou-se melhor na mureta e se entregou às reminiscências, estimuladas pelas águas cintilantes dos beijos do sol que se preparava para partir.
O leito calmo do rio transforma-se numa imensa tela para a projeção dessas suas lembranças. Como num filme de realismo fantástico, o homem revia a grande enchente.
Um grupo de adolescentes fazia fila para subir na balaustrada e dali se atirar nas águas turvas e apropriadamente próximas do nível da pracinha junto ao cais, que ameaçavam invadir um dos pontos mais altos da cidade e a jogar por terra (ou por água, para ser mais apropriado) a crença de que o local seria uma fortaleza inexpugnável à fluxão do rio.
As vítimas daquele flagelo se perguntavam se aquilo não seria uma nova versão do dilúvio bíblico
Não foram fáceis os dias da grande inundação. As vítimas daquele flagelo se perguntavam se aquilo não seria uma nova versão do dilúvio bíblico. A chuva caiu fina, fria e intermitente por mais de 30 dias, período em que o sol raramente aparecia, a sua força toda impotente agora para romper a teimosa espessura das nuvens.
A cidade ficou isolada do resto do mundo. O homem lembrou-se de como os preços ficaram inflacionados, a gasolina e o gás de cozinha racionados. Quanto à gasolina, uma providência inútil, pois quem possuía veículos a motor não tinha mesmo para onde ir.
Naquela época não havia ainda o dique que serpenteia o barranco ao longo do beira rio e as águas, na sua desesperada busca por espaço, invadiram a cidade por uma depressão que a dividia em duas, a alta e a baixa, numa violenta inversão daquilo que a geografia local estabelecera como fluxo fluvial. Resultando que os moradores dessas duas regiões ficaram isolados entre si, os de baixo não podendo ir ao alto e vice-versa. Do seu posto de observação o homem imaginou rever o frenético sacudir das ondas de águas sujas e enrugadas, que se estendiam até perder de vista, não sem antes engolir o porto das embarcações na margem oposta, do qual só se via agora a cumeeira das casas e o verde das copas das árvores mais frondosas.
Sentados na pequena muralha do cais, os pés quase tocando as ondas que se chocavam no concreto, os meninos da cidade matavam o tempo contando os troncos e galhos de árvores e gravetos e tábuas e as grotescas figuras dos animais mortos e os refugos de toda espécie que a grande enchente ia abraçando no seu caminho, numa procissão que parecia não ter mais fim.
No seu transe, o homem ouvia o barulho das chegadas e partidas das brigadas de voluntários misturando-se com o burburinho dos curiosos. A balsa de travessia, sem ter agora o que atravessar nem o barranco na outra margem onde se atracar, tinha sido arregimentada pela Capitania dos Portos para os trabalhos de salvamento.
Num pequeno casebre em local ermo, o grupamento de salvação encontrou uma família inteira, pai, mãe e cinco filhos acabrunhados sobre a viga de sustentação do telhado da casa pobre em que viviam. A água chegava nos batentes das pequenas janelas e passeava tranqüila por entre os cômodos. Ao lado da casa, amarrados aos troncos de um pequeno curral coberto, uma triste vaca mocha e um velho cavalo de arado cochilavam à espera do fim iminente. Em cima, no telhado, uma fileira de galinhas se misturava com as cores das roupas da família, cuidadosamente presas aos caibros e longe do alcance da água. Um leitão esquálido, pendurado por uma corda que lhe envolvia o tornozelo, esgoelava sem parar cada vez que as águas ameaçavam roçar-lhe o focinho. Sua incômoda posição de ponta cabeça a não deixar dúvidas sobre o absurdo da situação.
E todos os dias e de todos os lados chegavam levas de desabrigados, salvos por improvisadas arcas de Noé. Bichos e homens vindos das ilhotas, das fazendas, dos pequenos povoados e do mato inundado. O gado ficou isolado em pequenas elevações do terreno das fazendas e as raposas, as onças suçuaranas, cervos, além das cobras penduradas nos galhos das árvores. Náufragos todos. Quando a chuva finalmente foi embora, viu-se o rastro da destruição por todos os lados e o temor das doenças transmitidas pela urina dos ratos que, desabrigados de suas tocas, ameaçavam espalhar as pragas de um novo Egito.
Sentado no paredão do velho cais, as pernas balançando no vazio, o homem recordou tudo isso até perceber que a noite já caíra, o crepúsculo chegava chamando o rio para as brumas. Ele desceu da mureta de blocos vazados, atravessou a praça e voltou para casa. Aquela foi a primeira vez em que se sentiu velho.
Luís Cláudio Guedes é jornalista e escritor.
Blog: luisclaudioguedes.uniblog.com.br
CRISTOVAM: BIBLIOTECA É MAIS CIVILIZADA DO QUE FAIXAS DE PEDESTRES
Senador visita Parada Cultural T-Bone e se surpreende com acervo e
auto-atendimento
"Quando eu era menino, ouvia dizer que o símbolo máximo da civilização era a Suíça, porque lá as pessoas compravam os jornais na rua, sem vendedor algum para atender e deixavam o dinheiro do pagamento no local. Mas agora, em 2007, vejo que a Suíça perdeu este posto para Brasília, porque aqui nós temos uma bibblioteca pública funcionando 24h, onde é o próprio leitor quem anota os dados de indentificação para levar o livro para casa e devolve
depois". Foi assim que o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), definiu a Biblioteca Popular Parada Cultural, que funciona no posto de ônibus da entrequadra 712/13 norte, mantida pela ONG T-Bone.
Professor e escritor, 63 anos, formado em engenharia mecânica e doutor em Economia pela na Soborne, o senador Cristovam visitou a Parada Cultural e gostou do que viu. "Tem até a enciclopédia Larousse. E o que é incrível: está intacta. No meu tempo de reitor da Universidade de Brasília encontrei várias páginas dela arrancadas por alunos. Aqui o pessoal preserva. Aqui é a outra Brasília, diferente da Brasília dos escândalos políticos de corrupção.
Aqui é a Brasília do lado oposto: da civilização e da ética". Neste momento, a companheira do senador, Gladys Buarque, comentou: "Dia desses eu vi uma reportagem na televisão mostrando páginas rasgadas de livros de Arte da Biblioteca da UnB, vandalismo praticado por por alunos de livros de Arte da universidade".
CIDADANIA - Cristovam disse ainda que a Biblioteca Popular é uma "lição de cidadania ainda mais avançada do que as faixas de pedestres", que ele implantou de forma pioneira ao tempo em foi governador do Distrito Federal, na década de 1990. "Na faixa o pedestre ainda tem que fazer um sinal com a mão para que os motoristas parem - e muitos deles não páram. Aqui não existe
a coação, o sinal que o pedestre faz para o motorista. Aqui é mais
civilizado porque é voluntário. Aqui a sensação de cidadania e de liberdade é bem maior. Eu acredito que a Parada Cultural vai se transformar em ponto turístico, porque mostra a verdadeira Brasilia". Cristovam lembrou que as faixas de pedestres que implantou viraram atração turistica: "Do jeito que os turistas ficam admirados com as faixas de pedestres,deverá admirar-se ainda mais com a Parada Cultural. Essa biblioteca é mais do que a faixa de turista". Em seguida, o senador sugeriu ao Luiz Amorim, administrador da ONG T-Bone, que "espalhe essa experiência por outras paradas de ônibus". E, para completar, o escritor Cristovam foi surpreendido por um leitor: Gimadalbêrico Antônio da Silva, estudante do segundo grau, havia pego emprestado um dos seus livros, Os Deuses Subterrâneos, romance publicado em 1994 pela Editora Recorde. A coincidência
gerou um sorriso largo no senador. (Menezes y Morais).
BIBLIOTECA POPULAR TAMBÉM EM TODAS AS PARADAS DA W 3 NORTE
Usuário de transporte coletivo preenche ficha com dados cadastrais e leva o livro sem burocracia O diretor da ONG T-Bone ampliou a Bilioteca Popular Parada Cultural por todos os pontos de ônibus da avenida W 3 Norte, mais precisamente nas quadras setecentas. Em cada uma dessas paradas, Luiz Amorim disponibilizou 300 livros de autores diferentes, num total de 3,5 mil exemplares. "É uma provocação, porque nesses pontos não temos funcionário para atendimento,
existe apenas uma prancheta com papel contendo as instruções para o
empréstimo e uma caneta para que o usuário anotar seus dados, caso ele queira".
A primeira Bibliteca Popular do projeto Parada Cultural foi inaugurada no ponto de ônibus da entrequadra 712/13 norte, no dia 21 de junho, data de nascimento do escritor Machado de Assis (1839-1908), com 15 mil livros da área de Ciências Humanas e Literatura. O funcionamento é 24h e tem um funcionário para atender ao público, que trabalha de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h. Aos sábados, domingos, feriados e demais horários, a Parada Cultural funciona em forma de auto-atendimento: o leitor anota seus dados numa prancheta, leva o livro para casa e depois devolve.
TRÊS MIL - Amorim disse que decidiu colocar livros nas demais paradas de ônibus por causa da pressão dos usuários de transporte coletivo, que exigiram também uma biblioteca popular em outros locais. "Temos confiança total na comunidade. O usuário de transporte coletivo sabe que existem outros leitores que também precisam ler e que não podem comprar livro",disse Amorim. Na Biblioteca da 712/13 norte já foram emprestados mais de
três mil títulos diferentes à comunidade. (Menezes y Morais).
Caros amigos do T-Bone,
O nosso amigo jornalista Luís Cláudio Guedes escreveu duas matérias em seu blog sobre nosso trabalho. Vale a pena ler! Grande abraço, Fran.
O livro ali, no meio da rua
A singular história de Luiz Amorim, um açougueiro de Brasília, que ama os livros e acaba de abrir uma biblioteca a céu quase aberto na Asa Norte. Trabalho começou há 13 anos com o Açougue Cultural T-Bone, único no mundo
Empresário brasileiro tem pouca visão social, avalia Amorim

Os bonecos ZÉ DA PAIXÃO e CHICOTA apresentarão no próximo sábado, dia 18/08, roda de leitura com contação de história e oficina de brinquedo traça-traca. As atividades infantis aos sábados são abertas para a comunidade. Acontecem duas vezes a cada mês, sempre com ENTRADA FRANCA.
O Projeto Sede de Cultura busca oferecer às crianças da comunidade um encontro com os livros, a leitura e com personagens contadores de histórias. Realizado pela Biblioteca Comunitária T-Bone e coordenado pela bonequeira, atriz e contadora de história Gabrielle Corrêa.
Data: 18 de agosto de 2007, das 14 às 17 horas. Local: Biblioteca Comunitária T-Bone Inf: Renato 3201-9360 ou Gabrielle 8739-9652
Programação:
14 às 14:15
• Recepção dos alunos
• Apresentação do mamulengo Zé da Paixão
14;15 às 14:30
• Lanche
14:30 às 16:00
• Abertura da roda de leitura com contação de história com o brinquedo traca-traca, oficina de brinquedo traça-traca., com utilização do seguinte material: caixas de fósforo, cola, fitas de cetim, jornal ou papel de presente, e caroços de feijão.
16: 20 às 16: 50
• Apresentação do espetáculo Ao Pôr-do-Sol, com a boneca Chicota
16:50 às 17:00
• Lanche
Atividades de sábado do Projeto Sede de Cultura da Biblioteca T-Bone



No dia 3 de agosto de 2007, os alunos da Escola Estrutural tiveram um encontro marcante com os livros, a leitura e o teatro, além de terem participado de oficinas de brinquedos e de brincadeiras de roda. Foi uma tarde alegre que começou com a apresentação do mamulengo Zé da Paixão. Em seguida a turma fez um saboroso lanche, teve roda de leitura onde foram lidas várias histórias, pelos monitores e pelos próprios alunos. As crianças aprenderam a fazer brinquedos populares com o artista Zé Carlos, divertiram com as brincadeiras de roda e, por fim, assistiram uma contação de histórias com a boneca gigante Chicota. Na volta para casa, no fim da tarde, a natureza ainda ofereceu um maravilhoso pôr-do-sol no céu de Brasília. Por hora, todos nós, alunos, artistas e monitores, saciamos nossa sede de cultura, pelo menos até a próxima edição desse projeto que promete fazer a diferença na programação cultural da nossa cidade. Na próxima edição haverá mais apresentação de mamulengo, boneca Chicota, roda de leitura, oficina de pintura e sessão de cinema. Dia 18 de agosto, das 14 às 17 horas, na Biblioteca Comunitária T-Bone.
Gabrielle Corrêa
Olá amigos do T-Bone! Leiam abaixo crônica da escritora Ana Miranda publicada no jornal Correio Braziliense, Caderno Cultura de sábado, 04/08/07. Boa Leitura!

Próxima parada: livro
“JAMAIS VI ALGO PARECIDO NO MUNDO, 6 MIL LIVROS DIA E NOITE NUM PONTO DE ÔNIBUS, UMA MESA, FICHAS, UMA CANETA, TUDO ALI, DIA E NOITE, DE DIA HÁ UM ATENDENTE, MAS À NOITE OS LIVROS PERMANECEM SOZINHOS”
Estive em visita a uma biblioteca única e exemplar: fica numa parada de ônibus assim, aberta, em plena rua, na W3 Norte. São cerca de 6 mil livros organizadamente dispostos em suas estantes, debaixo de dois pequenos toldos, no próprio ponto de ônibus, junto aos bancos dos pretensos passageiros, serenamente postos em um e outro lado, uma biblioteca capaz de comover Borges, Kafka, Tolstoi, Virginia Woolf e todos os fantasmas de escritores do mundo, livros encadernados em couro, livros novos, livros velhos, enciclopédias, livros bons, de bons autores... parece algo de uma fada, de um mago com sua vara de condão.
Pessoas chegam para tomar o ônibus ou descem na parada, operários, estudantes, secretárias, pedreiros, açougueiros, poetas, sonhadores, domésticas, donas de casa, grávidas, professores, aposentados, penitentes, desesperançados, desempregados, miseráveis, mendigos, alcoólatras, faxineiras, funcionários, padeiros, atletas, engraxates, vendedores de picolé, lavadores de carro, não-alfabetizados, leitores sem dinheiro para comprar um livro, estão indo ou vindo do trabalho, gente simples, gente do povo, gente das periferias, da classe média, gente de todo jeito, que anda de ônibus, uns acabam pegando um livro, folheiam, se interessam, uns perguntam se os livros estão ali para ser vendidos, ou o quê?
Mas logo entendem, lêem as instruções de uso da biblioteca nos cartazes afixados aqui e ali, assinam o formulário e levam o livro escolhido. Jamais vi algo parecido no mundo, 6 mil livros dia e noite num ponto de ônibus, uma mesa, fichas, uma caneta, tudo ali, dia e noite, de dia há um atendente, mas à noite os livros permanecem sozinhos, se alguém me dissesse que iria montar uma biblioteca popular numa parada de ônibus, ainda mais no nosso país, eu acharia linda a utopia, todos acharíamos um sonho, uma ilusão acerca dos seres humanos, as possibilidades de não dar certo seriam imensas, mas assim surgem as inovações, esses os gestos de coragem, de ingenuidade, os livros dormem sozinhos e na manhã seguinte estão no mesmo lugar, por ali talvez tenham passado mendigos, bêbados, boêmios, vândalos, adolescentes rebeldes, homens desencantados, mulheres abandonadas, incendiários, vampiros, prostitutas, poetas, fugitivos, filósofos, tristes e melancólicos, meninos que trabalham, corujas, ratos, lua e estrelas, e todos os mais habitantes da noite, nem a caneta foi levada. Os livros que levam são anotados pelos próprios usuários e devolvidos. Um cartaz diz “Aqui tem livro livre”, “A biblioteca vai onde o povo está”, “Leve-o e cuide bem dele, afinal ele é o seu melhor amigo”, “Confiamos em você”.
A biblioteca está dando certo, a idéia é de Luiz Amorim, menino que veio da Bahia aos 7 anos de idade, vendia picolé, engraxava sapatos, lavava carros, aos 13 estava trabalhando num açougue, aos 17 aprendeu a ler e escrever, morava no açougue e usava todo o seu tempo livre para ler, amava os livros como poucas pessoas, acabou comprando o açougue, aos oucos foi transformando-o numa biblioteca, 10 livros, 20, 100, mil, a carne e o espírito, hoje ele é filósofo, cita os gregos, tem duas salas ao lado do açougue e ali guarda mais de 20 mil livros e é uma casa de cultura, pertinho do ponto-de-ônibus-biblioteca, Amorim realiza um trabalho diário, minucioso, cheio de esperanças, promove encontros de escritores com o público ou grandes espetáculos de música com cerca de 10 mil pessoas a assistir, em plena rua, mas isso não basta. Ele quer montar uma biblioteca numa favela de Brasília. Anotem, registrem e aprendam, excelentíssimos senhores.
Pessoal!
Cliquem no link para ler matéria super bacana sobre o T-Bone na coluna do Gilberto Dimenstein na FOLHAONLINE. Boa leitura!
Açougue vira casa de cultura e ponto de ônibus mantém biblioteca
http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/cbn/capital_040707.shtml
Queridos amigos, abaixo texto integral da reportagem da Luciana Bento publicada na revista Carta Capital, edição 452 - 11/07/2007. Obrigada Luciana e toda a equipe da revista. Grande abraço, Equipe T-Bone.

Bifes e romances
A Esplanada dos Ministérios fica ali pertinho. Mas o ambiente do T-Bone em nada lembra a imagem da capital federal impressa no imaginário coletivo.
Ossos do ofício O lugar é um misto de mercearia de carnes e livraria, um centro cultural no meio de peças de contrafilé, patinho e picanha. Ali, além de comprar carne, o cliente pode levar romance, poesia e ensaios para casa.
O criador da curiosa simbiose entre alimentos e corpo, mente e espírito é o baiano Luiz Amorim, 47 anos, 34 deles em Brasília. “Vamos conversar na cozinha? Aqui é meio tumultuado”, diz. Era uma bela manhã de sol e propus um café na padaria da esquina. “É melhor lá embaixo”, insistiu. Tudo bem.
No açougue (ou será livraria?) há mais de 500 títulos de literatura dispostos em bancas e prateleiras. O número já foi bem maior, mas a Vigilância Sanitária limitou a mistura entre livros e carnes, classificando-a de anti-higiênica. A solução foi armazenar os volumes em outro lugar e manter os exemplares remanescentes numa distância segura das carnes.
“Já naquela época, os livros não tinham contato com as carnes. Mas até que essa história foi boa, pois nos obrigou a criar o Centro Cultural T-Bone”, conta, referindo-se a outra de suas iniciativas, hoje transformada em ponto de cultura do projeto Cultura Viva do Ministério da Cultura.
“A gente não cobra a devolução dos livros, as pessoas trazem de volta quando querem”, explica. E eles devolvem? “A maioria sim. Comecei com dez livros aqui, hoje tenho mais de 45 mil volumes. Acho que deu certo, né?”
A crença nas boas intenções parece mover o açougueiro e empreendedor cultural, como ele mesmo se define. Amorim parte do pressuposto de que o número dos que vão devolver os livros e doar outros volumes é bem maior do que o daqueles que podem surrupiá-los do açougue.
Utópico? Pois o novo projeto de Amorim é ainda mais ousado. Lançado em 21 de junho, a Parada Cultural reúne um acervo de 6 mil livros à disposição de qualquer um, exposto em estantes em uma parada de ônibus no final da Asa Norte, todos os dias da semana, 24 horas por dia. Os volumes ficam lá, no ponto, para quem quiser. Só há um atendente em horário comercial. No restante do tempo, o leitor escolhe o livro e anota o nome, telefone e título da obra em um caderno. Simples assim. E os vândalos? Não podem destruir a biblioteca? Amorim prefere ser otimista e acha que até mesmo eles se sensibilizarão com o projeto. Desde o lançamento da Parada Cultural, 500 livros foram emprestados. Todos voltaram às estantes do ponto de ônibus.
Mas estamos no açougue, o local onde tudo começou. Em menos de três minutos entende-se o porquê da insistência de Amorim em conversar na cozinha. O açougue está cheio e ele simplesmente não pára: atende clientes, escolhe peças de carne, recebe pagamentos, confirma dia e hora do próximo show promovido pelo açougue (sim, o T-Bone organiza shows, debates e exposições), dá dicas de livros para os interessados, fala ao telefone, recebe a mercadoria do dia. O ambiente, de fato, é meio tumultuado.
Açougueiro de profissão, Amorim mantém ainda um bufê e fornece, sob encomenda, ingredientes para churrascos e festas. É o seu ganha-pão. Entrou na atividade em 1980, aos 13 anos, quando arrumou emprego no lugar que viria comprar anos mais tarde. Na época, era analfabeto e foi morar nos fundos do estabelecimento. Aprendeu a ler aos 16 anos e iniciou-se nas letras com um gibi. Sobre filosofia grega.
“Não entendi direito o que estava escrito, mas aquilo mexeu comigo”, conta. Em 1984, quando virou dono do açougue, resolveu colocar a sua modesta biblioteca, de dez livros, à disposição dos clientes. Hoje o T-Bone é uma inquestionável referência cultural para os moradores da cidade.
Alguns projetos culturais e sociais ligados ao T-Bone ganharam apoio e patrocínios, como as tradicionais Noites Culturais – que apresenta, duas vezes por ano, shows de artistas renomados e talentos locais. Nesse dia, a rua é fechada e a programação segue noite adentro. Belchior, Guilherme Arantes, Geraldo Azevedo, Chico César e Jorge Mautner já passaram por lá. A próxima atração é Erasmo Carlos.
“Lancei um desafio ao Amorim, trazer o Chico Buarque para se apresentar no açougue”, empolga-se o publicitário Mauro de Deus, freqüentador do lugar desde os primórdios. “Venho pela qualidade da carne, mas também porque o T-Bone é um oásis em Brasília. O Luiz derruba o mito de que esta é uma cidade de corruptos, de aproveitadores, e nos dá um grande exemplo de sensatez e espírito público.”
O entra-e-sai de fregueses é intenso e a maioria vai para comprar carne mesmo. Alguns passam direto, outros dão uma olhadela na oferta de livros para empréstimo. Um ou outro leva um exemplar. Mas ninguém fica indiferente ao cotidiano nada tradicional do açougue.
A psicóloga Fabiana Garcez, de 30 anos, aprova a mistura entre carne e cultura. De passagem pelo T-Bone para comprar o almoço, ela conta ter participado de vários eventos promovidos pelo açougue, que conheceu há muitos anos por meio do padrasto, o cineasta Wladimir Carvalho, mais um artista da cidade que faz do açougue seu point cultural.
“Oi, Luiz, trouxe pra você.” Artista veterano da cidade, Clodo Ferreira chega com uma caixa de CDs do extinto trio Clodo, Climério e Clésio debaixo do braço, para ser vendido no T-Bone. Amorim pega a caixa, se desculpa e sai para atender mais um cliente. “O que mais me empolga é o fato de esta iniciativa vir de um açougueiro. Se viesse de um produtor cultural, seria esperado, previsível. Mas é fantástico que toda essa movimentação gire em torno de um açougue”, elogia o músico.
Para explicar a empreitada, Amorim recorre com naturalidade aos filósofos. E cita Sartre, Hegel, Marx, Nietzsche e Schopenhauer. “Não tenho nenhum interesse no empreendedor individual, fechado em si mesmo. Para mim as coisas
só fazem sentido se tiverem uma interação com o coletivo”, afirma.
E como juntar os interesses comerciais com os da comunidade? “Já tive uma relação muito conflituosa, praticamente abandonei a parte comercial por causa dos projetos culturais, que são muito envolventes. Mas agora estou aprendendo a equilibrar”, explica.
A receita, diz ele, é canalizar a criatividade de empreendedor cultural para a melhora dos serviços do açougue. Vale até estabelecer princípios éticos e de conduta, divulgados no site do T-Bone: fortalecer as relações, ousar e abusar da criatividade, ter uma consciência para a sustentabilidade e reconhecer as conquistas individuais e coletivas dos funcionários são alguns deles.
O projeto Sede de Cultura 2007 está a todo vapor. Nas terças e sábados, no período da tarde, a Biblioteca Comunitária T-Bone recebe 80 crianças da cidade Estrutural. Os educadores coordenam e desenvolvem atividades de artes plásticas, teatro e contação de histórias. Melhorar a leitura e interpretação de texto, desenvolver e criar hábitos de cidadãos conscientes de suas responsabilidades individuais, sociais e políticas são metas do projeto. Após as atividades cada aluno escolhe um livro para levar como “dever de casa”. O Sede de Cultura é uma parceria da ONG T-Bone e Caesb.
Santana elogia biblioteca na parada de ônibus da W3 Norte
O senador Adelmir Santana (DEM-DF) elogiou hoje (22.06) na tribuna do Senado Federal a iniciativa do produtor cultural e açougueiro Luiz Amorim T - Bone que na noite de ontem inaugurou a Biblioteca Popular 24 horas, na parada de ônibus da 712 Norte. Santana é presidente da Fecomércio/DF e irá visitar a biblioteca nos próximos dias para doar alguns livros da editora Senac.
"O Luiz Amorim já havia transformado parte do seu açougue, o T - Bone, na 312 Norte, em biblioteca para os moradores da quadra. Agora, ele foi além: levou a biblioteca até a parada de ônibus da 712 Norte. Esta é uma iniciativa que merece louvor e todo o nosso apoio", disse Santana.
Da inauguração participaram poetas, escritores e cantores de Brasília, além do cantor-filósofo Jorge Mautner que fez um show no local.
Por Sandra Fayad
O T-BONE que era só açougue,
Agora é açougue inteligente.
Inventou carne com cultura,
Organizou uma grande festa,
Mandou convite pra toda gente.
Contratou para a aventura
Livros didáticos com seresta,
Fábulas com xilogravura,
Romances de grandes poetas
Declamando para escritores
Sobre dança e escultura.
Mas na festa do T-Bone
Convidado não vai à festa
Nem com convite pelo megafone.
A festa proposta pelo T-Bone
É na parada de ônibus da W3,
Com letras recitadas pelo microfone,
Com notas despencando do saxofone,
Onde o convidado -dia e noite –
Esperava um dia ter vez.
Na Parada Cultural do T-Bone
Há versos declamados pelo microfone.
Há encontros com textos e poesias,
Na voz de quem nem tem telefone.
Na Parada Cultural do T-Bone
Você chega por qualquer das vias,
Entra sem chamar pelo interfone
E sai carregando livros e alegrias.
(Lei nº 9.610/98 -Todos os direitos autorais reservados)
http://www.sandrafayad.prosaeverso.net/
Olá pessoal... abaixo texto integral da reportagem de André Bezerra e Adriana Bernarde sobre o lançamento do Projeto Parada Cultural publicada hoje no Caderno Cidades do jornal CORREIO BRAZILIENSE. Obrigada, André, Adriana e toda a equipe pelo reconhecimento. Grande abraço, Equipe T-Bone.
Vida urbana
Parada de ônibus vira biblioteca
A partir de quinta-feira, passageiros que usam o ponto da 712/713 Norte ganham acervo de mais de 5 mil livros, que poderão ser emprestados sem burocracia. É a primeira iniciativa do gênero na capital
André Bezerra e Adriana Bernardes
Da Equipe do Correio
Fotos: Monique Renne/Especial para o CB
Estudantes aproveitam o tempo com a leitura: enquanto o circular não passa, viajam pelo mundo da ficção, sem ter de pagar pelo bilhete
Para a maioria das pessoas, lugar de livro é na livraria ou nas estantes empoeiradas das bibliotecas. Porém, há quem acredite que os livros não devam ficar enfiados em lugares fechados ou dentro de casa, mas sim, circular por aí, de mão em mão, até que o máximo de pessoas possível possa desfrutar da leitura. É assim que pensa o açougueiro e empreendedor da cultura Luiz Amorim, dono do Açougue Cultural T-Bone. Ele resolveu levar esse pensamento ao extremo, e agora está prest es a dar início a um projeto corajoso, que abre outras possibilidades para o livro.
O ponto de partida será uma parada de ônibus. O local, que antes servia apenas para esperar o transporte coletivo na quadra 712/713 Norte, vai receber, a partir da próxima quinta-feira, a primeira Biblioteca Cultural 24 horas, aberta e livre de Brasília, totalmente de graça para a população. Imagine a seguinte situação: enquanto espera pelo ônibus na parada, você pega um livro. Deixa escritos numa list a o nome e o local onde trabalha. Não é preciso comprovante de endereço. Nada. Não precisa nem dizer quando irá devolver o exemplar. Só é preciso ser razoável. Pois como você, existirão outros interessados.

“Muita gente acha que isso é loucura, que não vai dar certo, mas não dou ouvidos. Acredito muito nesse projeto e tenho certeza que a comunidade vai se entusiasmar e participar. Na verdade, a idéia é levantar uma discussão, uma reflexão”, explica Amorim, mentor da biblioteca livre.
Ele conta que a idéia nasceu a partir do uso cotidiano da parada de ônibus. “Todo mundo reclama das condições de conforto e segurança nos pontos de ônibus, mas ninguém ainda parou para discutir a humanização da parada. Creio que o livro ajudará a lançar essa reflexão”, afirma.
Banca móvel
Hoje e amanhã, Luiz e a equipe do T-Bone vão instalar quatro grandes estantes de ferro na parada de ônibus. Os livros ocuparão todo o espaço, desde a lateral até os fundos do abrigo para passageiros. Cerca de 5 mil livros devem ser acomodados no acervo inicial. Além disso, uma banca móvel deve guardar mais mil livros mais raros, incluindo títulos de literatura, filosofia, ensaios, livros infantis e pedagógicos, entre outros. A Administração de Brasília está disposta a autorizar a instalação das estantes.
“Aqui, os livros serão livres e ficarão disponíveis 24 horas por dia. Com isso, quero propor uma discussão sobre novos modelos de bibliotecas públicas. Te mos que discutir o acesso à cultura. A idéia é uma grande provocação mesmo”, observa Amorim. A iniciativa ganhou apoio de patrocinadores de grande porte como a Companhia de Saneamento Ambiental (Caesb) e a Embaixada da Espanha, que doou 500 livros novos para o projeto.
Na última quarta-feira, o empreendedor fez uma pequena demonstração de como funcionará a novidade. Ele disponibilizou 300 exemplares de vários gêneros aos passageiros. O primeiro olhar foi de estranhamento. Pouco a pouco , porém, as pessoas se aproximaram. Ouvidos atentos. Expressão de incredulidade. A proposta é tentadora para os devoradores de livros e um convite para quem ainda não descobriu que a leitura proporciona viagens inesquecíveis.
Primeiros usuários
O aposentado Paulo Murici, 57 anos, ouviu tudo atentamente. “É um projeto muito interessante. As pessoas ficam esperando o ônibus e ao mesmo tempo, pegam informações, cultura. Isso desperta o interesse da comunidade pela leitura. O Brasil é um país que lê pouco, mas tem escritores fantásticos”, analisou. No fim da conversa, foi o primeiro usuário da nova biblioteca a pegar emprestados Psicoterapia centrada no corpo, de Victoriano Baquero, e Conversando com Deus, de Neale Donald Walsch.
Paulo deixou o ponto de ônibus com dois exemplares na mão e uma idéia na cabeça. “Tenho um acervo de mais de 300 livros que estão empoeirando em casa. Meu cunhado estava pensando em montar uma biblioteca pública em Planaltina. Vou doar tudo para ele”, decidiu.
O administrador de empresas Marconi Dourado, 30 anos, também se encantou com a idéia. “Meu filho tem 2 anos e meio e já brinca com o teclado do computador. Mas não apresentamos um livro a ele”, refletiu. Ele só tem receio do desleixo que pode existir por parte de alguns usuários, já que o controle será praticamente inexistente. “A gente sabe que muita gente não tem cuidado com as coisas dos outros. Mas pode dar certo. Vai despertar o interesse pela leitur a. E quem se interessa, cuida”, avaliou ele, que levou para ler Nas margens do Rio Piedra eu sentei e chorei, de Paulo Coelho.
Bela surpresa
A idéia surpreendeu os estudantes. “Tem muito livro aqui que não tem na biblioteca da minha escola. Achei super legal”, Bruna Gislaine Lopes, 14 anos. Foi a primeira vez que a dona-de-casa Nailza Vieira, 28 anos, viu uma biblioteca no meio da rua. A moradora do Paranoá não tem o hábito de pegar livros em bibliotecas. Nem sabe dizer se n a cidade dela existe uma. Mas agora, já sabe onde recorrer. “Achei uma ótima idéia. Como sempre pego ônibus nessa parada, vai facilitar muito”, disse animada.
Kizzy Queiroz, 13 anos, empolgou-se tanto com a idéia que perdeu o ônibus para casa. Disputava com uma amiga o título que conta a história cantor e compositor Zeca Pagodinho. “Vocês podiam ter me avisado que o ônibus havia chegado”, reclamou com as colegas. Teve de esperar 20 minutos a mais para pegar o próximo coletivo. Mas saiu de lá com o exemplar embaixo do braço. “Eu sou louca por pagode. Sei que vou adorar esse livro”, afirmou. A estudante Kellen Chris Gonçalves, 13 anos, estava preocupada com os maus usuários. “Sempre vai ter aqueles espertinhos que vão levar o livro para casa e não vão devolver. Mas vai depender da consciência de cada um”, alertou.
FESTA DE LANÇAMENTO
A Biblioteca Cultural 24 horas será inaugurada quinta-feira , pela manhã; à tarde, às 18h, o compositor e cantor Jorge Mautner traz a sua rabeca para animar os passageiros da parada, entre outros grupos da cidade.
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personagem DA NOTÍCIA
Açougue, cultura e arte

O baiano Luiz Amorim, nascido em Salvador, acredita que cultura foi feita para ser compartilhada. Principalmente a riqueza que se acumula a partir da leitura: “Os livros não são bons apenas porque com eles falamos bonito e escrevemos melhor. Eles são responsáveis por criar e transformar o pensamento”, diz o empresário.
Amorim chegou em Brasília em 1973 e teve de trabalhar dos 7 aos 12 anos para ajudar a família. Na adolescência, trabalhou como ajudante num aço ugue e só foi receber a alfabetização aos 16 anos. “Meu primeiro contato com um livro foi somente aos 18 anos, e me tornei um verdadeiro apaixonado”.
Na década de 90, conseguiu comprar o seu próprio açougue, e criou o T-Bone, na 312 Norte, que atualmente é um dos principais redutos culturais da cidade. Amorim criou as Noites Culturais, em que artistas nativos e até grandes nomes nacionais se apresentam pertinho da comunidade. Após 21 edições, hoje, o evento cresceu e chega a reunir até 20 mil pessoas na entrequadra. O T-Bone também tem uma casa de cultura localizada na 712/713 Norte, onde são realizadas exposições, lançamentos de livros, shows, mostras de filmes e diversos projetos culturais e educativos. (AB)
Por Sandra Fayad
- Alô, Mãe-Terra!
- Como vai, filha? Que bom que me ligaste!
- Estás ocupada?
- Sim. Mas não te preocupes. Posso interromper um pouco.
- Liguei para contar que hoje acordei com vontade de escrever uns versinhos para a senhora. Quer ver?
- Ah, quero sim.
“Mais quente que Marte
Menos fria que Vênus
És da vida o baluarte
És a pátria dos terrenos.”
- Que lindo! Muito obrigada, filha.
- Mereces muitas homenagens por tudo o que nos tem dado e por todos os sacrifícios, que só uma mãe dedicada é capaz de fazer. A propósito, como anda a tua saúde?
- Ih, esse assunto é pra mais de légua...
- O que foi? Tens mania de esconder as dores embaixo do Manto Inferior. Mas agora quero que me contes tudo.
- São dores por toda a natureza, desde o pólo norte até o pólo sul. Cada dia, fico mais destemperada. Ora me derreto de calor, ora me encolho de frio, independentemente das estações. Às vezes, sinto muita febre. Vem lá do meu Núcleo Interno em direção à Crosta. Ardo em brasas vulcânicas. Dizem os Raizeiros da Amazônia que estou entrando na menopausa. Ando intoxicada com a poluição também. Sinto muita falta de ar. Reclamei sobre essa fumaceira tóxica, mas os donos das indústrias contestaram. Dizem que é frescura minha e que precisam produzir novos materiais a baixo custo, para fazer a economia dos países crescer, enriquecer, progredir. Já não consigo amamentar a fauna, nem nutrir as raízes da flora. Elas não estão se adaptando aos sabores ácidos nem do meu leite doce ou salgado. Muitas espécies importantes já foram extintas e outras estão em fase de extinção. Para completar, agora apareceram umas alergias, que rasgam minha camada superficial, criando fissuras por toda Crosta. Chamam isto de erosão. Estou fragilizada e feia, filha.
- Isso é grave. Você já consultou os Especialistas da Medicina?
- Alguns estão realmente preocupados – são filhos amorosos como tu. Querem eliminar as influências externas que estão me prejudicando por dentro, querem fazer campanhas a favor da vida, mas esbarram em tanta burocracia, em tantos interesses econômicos, que muito pouco conseguem fazer. Outros enfiam suas cabeças em laboratórios de pesquisa, para buscarem fórmulas químicas mágicas. Querem modificar minha corrente sangüínea, controlar meu temperamento. Acham que minha força precisa ser domada, moldada aos desejos dos grandes interesses internacionais. Coitados! Pensam que sabem tudo sobre mim e que vão controlar meus sopros e espirros sobre mares e montes ou os fluxos e refluxos das minhas marés. Se saio arrebentando tudo pela frente e soltando faíscas por toda a parte, é porque não me respeitam. Não vêem que essas reações são conseqüências dos seus erros do passado recente. Esquecem que sou eu a mãe, a provedora das suas necessidades, a própria subsistência deles e de seus descendentes.
- Já disseste isto a eles?
- Já lhes disse que se eu sucumbir, irão junto comigo. Já expliquei também que só necessito de tratamento fitoterápico e que podem abandonar suas fórmulas mágicas, pois nada substituirá o tratamento natural. Minha recuperação está nos cuidados com meus pêlos verdes, minha crosta, meus minerais. Basta que os preservem e os usem racionalmente.
- E o que responderam?
- Rebelaram-se. Disseram que tem planos para me depilar toda. Precisam viabilizar obras gigantescas como o túnel que vai da América do Norte à Europa. Querem também esgotar a exploração de matéria-prima da minha crosta, para construir mais usinas, mais veículos, mais cidades. Estão loucos porque o petróleo está acabando.
- Fizestes algum exame de saúde?
- Sim. Fiz uma densitometria. Descobriram que minha estrutura mineral está bastante comprometida, por causa do crescimento desordenado das cidades e do uso inadequado do solo. Chamam isto de terrosteoporose. Os exames mostraram também que o gás ozônio está me causando radiação ultravioleta, com lesões irreversíveis na minha crosta, e queda da capacidade imunológica.
- Ainda assim, consegues trabalhar?
- Mais ou menos. Já não posso plantar onde estou e nem colho o que planto onde consigo plantar. Os que pensam no seu futuro e, consequentemente, no dos seus descendentes, protestam a meu favor, porque sabem que estão e estarão sempre ligados a mim pelo cordão umbilical. Mas a grande maioria não se importa. Quer viver apenas hoje. Comporta-se como se fosse imortal. Nem mesmo com as gerações futuras quer compromissos. Eles dizem que quando eu não servir mais para nada, vão se mudar para outro planeta. Estão de olho em Marte.
- Mas lá não é muito frio?
- É. Mas estão procurando um jeito de torná-lo habitável. Vê como são as coisas! Passei milênios dando-lhes o pão de cada dia e eles não reconheceram a minha dedicação e o meu desprendimento. Nunca me disseram: - Muito obrigado, Mãe-Terra. Ao contrário, agiram como filhos ingratos e insaciáveis. Sempre acharam pouco o que eu lhes oferecia. Extraíram de mim o que eu tinha de melhor. Destruíram gerações e gerações da minha fauna e da minha flora. Fiquei pobre e doente. Quando meu estômago começou a se revirar, com enjôos pelas porcarias que me fizeram engolir, comecei a vomitar. Vomitei e ainda devo vomitar muito mais detritos e lavras. Estou muito desgostosa e cansada. Talvez seja melhor mesmo que saiam da barra da minha órbita. Quem sabe, depois disso, eu ainda tenho alguma chance de me recuperar?.
- Não fica assim tão triste, Mãe-Terra! Olha, nós poetas, estamos preparando uma festa especialmente para ti. Vamos protestar veementemente contra os maus-tratos dos nossos irmãos, trabalhar para abrir-lhes os olhos, provocar mudanças significativas.
- Obrigada, filha.
- Não há de quê. É minha obrigação. Bem, para encerrar esse telefonema, aí vai mais um versinho para alegrar tua noite:
“ Dorme em paz, Mãe-Terra querida
Que a deusa Gaia te mostre, em sonhos,
O resgate nos teus filhos do respeito à vida
E devolva à natureza seres risonhos”.
Direitos Autorais (Lei nº 9.610, de 1998 )
http://www.sandrafayad.prosaeverso.net/
NEM Q-BOA, NEM LIQUI-PAPER
(Soneto dos Namorados)
Sandra Fayad
Namoraram Adão e Eva: namoro por Deus abençoado!
Já com Romeu e Julieta, foi familiar namoro proibido.
Namoraram D. Pedro I e D. Inês: é amor eternizado.
Com nosso D. Pedro e Domitila significou amor traído.
Amaram-se Napoleão e Josefina (exceto em batalhas).
Em meio a batalhas, namoraram Prestes e Olga Benário.
Richard Burton e Liz Taylor, envoltos em felpudas toalhas,
Namoraram a dourada canarinha e seu dourado canário.
Namorando teu olhar, convencida que me tens amor,
Animei-me a plantar e depois cultivar belo orquidário,
Para no dia dos namorados te ofertar uma nobre flor.
Abençoado por Dom Bosco, nosso namoro será eterno.
Mergulhado na Q-boa, não desbota, nem muda de cor,
Nem se apaga com liqui-paper da nossa vida-caderno.
A Associação Brasileira de Municípios (ABM) prêmiou as personalidades da sociedade civil e do meio político que mais contribuíram com o desenvolvimento e crescimento do Brasil. O presidente e fundador do da ONG Projetos Culturais T-Bone, Luiz Amorim, recebeu o troféu de destaque na categoria "Turismo e Cultura" e ainda foi convidado a discursar pela organização . "Eu agradeço muito o prêmio e acredito que a cultura tem que ser ainda mais valorizada nesse País", simplificou o ganhador.
A cerimônia de premiação ocorreu no auditório do Quality Hotel, no dia 23 de maio durante o II Seminário Internacional sobre Federalismo e Desenvolvimento Local e Regional, e contou com outras categorias como Troféu Municipalista por ações na Agricultura Familiar, além de Melhor Gestão na área de Saúde, entre outros.
Artigo de Jorge Mautner, publicado no Jornal O Globo de 28 de abril de 2007, cita o nosso ponto de cultura.
Por Jorge Mautner
Comecei a minha participação no Programa Cultura Viva do MinC, com seus Pontos de Cultura, na companhia de Nelson Jacobina em Belém do Pará. Fizemos um show inaugural e depois entramos no barco digitalizado de Jorge Bodanzky, que nos levou até Abaetuba junto a outros artistas e intelectuais.
Ficamos duas semanas na região, onde participamos de festas e visitas a quilombos, comunidades que nos fascinaram com suas danças, canções e rituais que amalgamavam cantos de tribos, religiões africanas e missas cantadas em latim sincretizado com palavras indígenas e melodia atonal dissonante. Tudo isso no meio da selva. Tudo isso com o apoio de uma política pública de Estado, que antes não chegava a essas comunidades. Essa alegria e a raridade de tesouros culturais revelados ao grupo logo se fizeram presentes em todos os Pontos de Cultura que tenho visitado em todos os recantos deste país-continente! Seja na grande São Paulo, na periferia, em Osasco, em Mogi das Cruzes ou em Natal, com os meninos rabequeiros do Ponto de Cultura Felipe Camarão, na periferia mais perigosa da cidade. Seja em Santa Fé, com as crianças ciganas e seus pais inscritos para aprender artes, para ler e escrever, para criar e dignificar suas expressões. Seja no Morro do Cantagalo, no Rio, com o AfroReggae, ou no Circo Voador, com a emocionante apresentação dos meninos violinistas da Mangueira!
Seja no Ponto de Cultura T-Bone, em Brasília, cuja origem é um açougue. Um açougueiro apaixonado por literatura que começou a viciar seus fregueses entregando um livro de presente para cada carne por eles comprada. Um açougue que hoje funciona como centro de atividades literárias e culturais e, também, como biblioteca comunitária.
Em todos esses encontros, falamos sobre filosofia, História, poesia, literatura, sociologia, antropologia, música, metafísica, comunicação, mídia, jornalismo e, principalmente, sobre o Brasil vivido por cada um. Em todos os lugares, afirmamos a celebração da vida, do Brasil e da diversidade dentro da unidade do amor à pátria, em um nacionalismo não xenófobo, mas exultante de majestade democrática que proclama o Brasil-Universal, a maior cultura do século XXI, pela solidariedade e pela cidadania!
O mais fascinante é que todos esses Pontos estão produzindo seus CDs e vídeos, com os registros do trabalho feito por suas próprias mãos e estruturas, graças ao financiamento dado pelo MinC, que permite a aquisição de kits multimídias, com computador e internet, câmera e programas de edição. Com os Pontos de Cultura, temos comunidades indígenas, rurais e quilombolas, por exemplo, formando seu próprio acervo e produzindo mídias para divulgar suas manifestações em rede no país e no mundo.
Se isso não for cultura da forma mais intensa e irradiante, então o que seria Cultura? Seria só a cultura oficial, a que vem embalada na forma de arte, seria só o mercado, só o que sai na mídia? A Cultura quando se faz e é feita pela cidadania tem muitas faces e interfaces: dialoga, converge, amplia e move consciências. É libertária. Por meio de palestras, discussões, debates, aulas, troca de informações e integrações culturais, atuamos, trocamos, mobilizamos e transformamos. Se isso não for cultura, eu não sei mais o que é cultura!
A visão de cultura limitada às artes há muito foi superada. Cultura hoje envolve todo o conjunto das manifestações humanas em suas mais diversas formas. A gestão do ministro Gilberto Gil tem apostado nessa visão contemporânea de cultura, que tem origem nos conjuntos simbólicos da nação e atinge as mais diversas formas de expressão de indivíduos, grupos e sociedades. Cultura que se comunga como direito de cada brasileiro, como direito de criar, recriar e acessar as mais variadas criações culturais do país.
É essa discussão, tão rica e diversa, que matéria veiculada pelo Segundo Caderno do Globo, recentemente, poderia ter explicitado. Uma discussão viva, empírica, repleta de testemunhos e personagens intensos, criativos, comprometidos com sua própria história e com a História de uma nação nova, ousada, contemporânea e criativa.
A matéria também poderia ter oferecido um dado importante: as ações de saúde dos Pontos de Cultura não são financiadas pelo Ministério da Cultura, mas pela própria comunidade. O MinC reconhece e potencializa uma ação já forte na comunidade. E se essas ações comunitárias envolvem assistência social e de saúde, óbvio, elas não são interrompidas para “fazer cultura”. Todas as ações de qualificação do ser humano são, em parte, ações culturais, pois o tornam mais capaz e, portanto, mais disposto e com mais condições de se expressar e canalizar sua expressão. As ações expostas pela matéria, culturais ou não, são complementares e fundamentais para atender à complexidade social das comunidades. É salutar que os Pontos de Cultura estejam atentos a essas conexões.
A reportagem também poderia ter apurado mais informações sobre as aulas de informática, que não são um fim em si mesmo, mas plataformas para a formação de ampla rede cultural cibernética no país. São essas aulas que permitem, por exemplo, a capacitação técnica dessas comunidades para a gravação de CDs e filmes.
Outra informação importante: os R$ 185 mil investidos pelo governo em cada Ponto de Cultura representam uma solução inteligente, barata, eficaz e preventiva, quando comparados aos R$ 4.400 desembolsados pelo Estado para cada adolescente infrator nas unidades de privação do país.
Por fim, a reportagem também poderia ter escutado os jovens atendidos pelos Pontos, que trazem relatos maravilhosos sobre seu aprendizado, suas manifestações criativas e, principalmente, sobre como mudaram suas vidas a partir da vivência cultural e estética proporcionadas por esses Pontos.
O Programa Cultura Viva é o projeto mais audacioso, ousado, inovador e pioneiro em termos de cultura e atualidade deste século. O MinC oferece recursos para os projetos culturais de comunidades de todo o país, projetos desenvolvidos, executados e mantidos por essas comunidades. Esta é a genialidade do programa. Não é o Estado que vem de fora construir estruturas e atividades, pressupondo o que as comunidades desejariam ter. São as próprias comunidades que o fazem, que apontam as suas necessidades e desenvolvem sua capacidade executora. A maior riqueza dessa gestão do MinC está no diálogo do Estado formulador, que formula e executa políticas públicas, com o Estado fomentador, que dá suporte às ações e necessidades discutidas e formuladas pela sociedade. “O Estado não impõe, dispõe”, já ouvi essa frase do ministro.
Cultura é um conceito cada vez mais vivo, elástico e mutante, reapropriado cotidianamente pela sociedade. O Globo poderia ter provocado essa discussão sem precisar focar parcialmente (com uma vaga suspeita de conflito entre assistência social e arte) um programa que tem resultados tão diretos e positivos em comunidades que antes não recebiam um tostão do Estado e, hoje, sabem que não estão caminhando sozinhas.
Jorge Mautner é compositor
Quem gosta de um som que mistura guitarras vibrantes e batidas desconcertantes não pode perder aparesentação da Banda Casa Bizantina de Goiânia. Eles já atuam no cenário underground da capital de Goiás há cerca de seis anos, mas agora pretendem expandir seus horizontes. "Brasília é uma cidade super bacana, cheia de coisas interessantes para fazer. Nós já tocamos no porão do Rock, no Teatro Garagem, e viemos fazer o show aqui no T-Bone", conta o vacalista, Fabiano Olinto.
Para a noite do Amigos da Cultura, os cinco rapazes selecionaram músicas de seus três CDs gravados, colocando todas dentro de um formato eletro-acústico. "Os originais são bem rock 'n' roll, mas a gente quer experimentar agora essa nova versão", explica o vocalista.
O grupo foi trazido de Goiânia com o apoio da ONG Projetos Culturais T-Bone e do divulgador cultural Pinheirinho. Quem quiser saber mais sobre a Banda pode acessar o site www.casabizantina.com.br.
O estudante, Andrey de Matos Martins, doou um computador para a ONG do T-Bone. A iniciativa se deu porque o rapaz havia comprado uma outra máquina e não sabia o que fazer com a antiga. "Eu pensei que ele não servia pra mim, mas podia servir pra vocês. Espero que isso ajude nos trabalhos do pessoal aqui", torce. Nós, da ONG e da BCT, só podemos agradecer pelo gesto de desprendimento e ajuda ao próximo. O computador foi sim muito bem-vindo e, ao contrário do que representaria se ficasse parado sem utilidade na casa do Andrey, vai servir para que toda a Equipe T-Bone possa trabalhar de forma mais tranquila e confortável.
A fama da Biblioteca Comunitária T-Bone ultrapassa as barreiras do Distrito Federal e chega a Goiânia-Go. Ontem a BCT recebeu visitantes da Universidade Federal de Goiás (UFG), que tiveram uma pequena palestra com Luiz Amorim, presidente da instituição. A professora Patrícia Martins foi quem organizou essa excursão. "A idéia era que eles conhecessem lugares tradicionais e não tradicionais como o T-Bone. Eu já conhecia o trabalho do Luiz e queria levá-lo para falar com os alunos lá em Goiânia, mas como ele é muito atarefado foi mais fácil trazer todo mundo pra cá", conta. Ao todo, 36 estudantes fizeram parte da caravana. A grande maioria são do curso de Biblioteconomia, porém haviam alguns representantes de Jornalismo no grupo. Todos fazem parte das disciplinas "Marketing em Formação" e "Serviço de Referência".
E-mail da profª Patrícia
Olá Luiz Amorim,
Chegamos bem a Goiânia, depois da carinhosa receptividade por onde passamos em visita, na cidade de Brasília.
Somos muito gratos (as) pela sua receptividade e consequentemente da equipe T-Bone.
Que delícia de bate-papo, descontraído, sincero e de total prazer e alegria de estar naquele momento.
Imaginamos sua jornada de trabalho e isto nos faz mais gratos pelo tempo e atenção dispensada somadas a propriedade em discorrer sobre o trabalho de vocês.
Muito sucesso na realização do evento do dia 17!!! A Casa Bizantina tem um lindo trabalho por aqui e um público cativo.
Eu não fiz fotos, mas vou pedir aos estudantes que compartilhem as fotos e estas chegarão até vocês!
Forte abraço!!!!!Patrícia Martins
Adar Rocha e Luiz Amorim na Biblioteca T-Bone*Adair Rocha
A pergunta aponta para uma afirmação com inversão de direção: isto é, há uma influência cultural na marca partidária. Um partido político que tão rapidamente assumiu, num processo de aliança, a gestão de um país plural, diverso e complexo como o Brasil, é, sem dúvida, a marca de uma nova cultura política. A inversão de mão ou a ampliação do acesso à política pública é de natureza cultural, como cultural é o aprofundamento da leitura da contradição presente na lógica cultural urbana, que tem na violência uma das suas marcas.
Como, via de regra, a lógica institucional, também a partidária tende ao reducionismo da cultura à arte, facilmente podendo chegar a outro reducionismo: o do luxo, ou do enfeite especialmente quando a desigualdade instala-se como um traço também cultural. Por isso, a política, enquanto relação de poder, na busca da hegemonia dos saberes, é, isto sim, uma das expressões da cultura.
Mas não é uma noção politicamente neutra. No compromisso formal com a multiformidade ela é mais clamorosamente partidária. Radicaliza na defesa de expressão da vida.
Desta forma, a experiência de administração pública do PT, tanto as municipais, as estaduais e a federal, já em segundo mandato, tem marcado o equilíbrio entre o pensamento e a ação, quando a cidadania, a economia e a representação simbólica têm sido o pano de fundo do palco da cultura no Brasil.
Algumas marcas e um selo: Gestão Territorial, com a construção e implantação do Sistema Nacional de Cultura (SNC), do Plano Nacional de Cultura (PNC), a Conferência e o Conselho Nacional de Políticas Culturais, depois e em conjunto com a participação local dos sujeitos reais do processo: a população. Facilitação do acesso, apoio e incentivo à cultura existente, nas duas diversas dimensões, constitui-se no papel do poder público, portanto do MINC.
Fortalecimento das culturas tradicionais, da pluralidade étnica e da diversidade cultural brasileira, tem sido também uma agradável constatação dos centros urbanos e dos rincões do Brasil, das aldeias aos quilombos, passando pelo conjunto das culturas populares. Preservação da memória, como patrimônio novo, na sua dimensão material e imaterial, têm marcado a restituição da arquitetura cultural brasileira.
O fomento e os critérios de empresas estatais e privados na distribuição da verba pública têm permitido e ampliado o acesso de cada vez maior parte do Brasil, na produção cultural.
O audiovisual, através de editais, de debates e da ousadia de projetos tem revolucionado o setor, formando uma rede cada vez mais enredada entre o Minc, SAV e Ancine, de Revelando os Brasis aos doc TV da cultura digital à Programadora Brasil.
Finalmente, a grande marca que o Minc tem imprimido na incursão da política pública a lugares muitas vezes nunca dantes contemplados, com acento para periferias, favelas, acampamentos, sítios tradicionais, lixões, açudes, etc., São os PONTOS DE CULTURA.
O fortalecimento da autonomia e da organização da sociedade sempre foi o pressuposto gerador da existência do PT. A formação dos núcleos de base, locais, categorias e por movimentos específicos marcou a diferença diante dos demais partidos.
Por isso, o Ponto de Cultura que se constitui numa das marcas da política pública de governo e, de estado, torna-se expressão também da vocação petista ao buscar colocar a imaginação a serviço do poder.
Especialmente as periferias, nos seus bairros que podem ser também favelas, nas movimentações culturais presentes no campo, têm nos pontos o canal de acesso aos bens públicos para a vitalidade da cultura que a multidão gera.
É claro que isto tem sido fruto da “conversão” do PT, ao longo dos seus vinte e tantos anos de história, aos apelos culturais da política e aos desafios da política, que é também uma dimensão cultural.
Uma das vitórias que marcam a tradição do PT é a existência do setorial de cultura, fruto de muita insistência da diversidade da produção cultural, situando a cultura para além de eventos, contextuados nos acontecimentos que geram significados à vida.
Isto faz com que o PT aponte a cultura e a juventude como desafio político do seu futuro.
*Militante e ex-dirigente petista, professor, escritor e gestor público de cultura.
Este BLOG é um espaço aberto aos amigos convidados pela T-Bone para publicar seus textos de temas livres, além das notícias do dia-a-dia da ONG. Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo publicado. Boa leitura! Luiz Amorim
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