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Sarau dos Saraus
No sarau de dezembro, a Tribo das Artes monta a programação com
números artísticos dos vários saraus do DF, com os quais trocamos
figurinhas ao longo do ano. Para esta terça-feira, já confirmaram a
presença representantes de 08 saraus.
Abaixo, a programação completa. Mas, como sempre acontece em dezembro,
teremos outros parceiros que não confirmaram com antecedência. Isso
faz do sarau de dezembro um grande encontro das múltiplas experiências
dessa febre sarauzeira do DF. Não perca. É o último do ano.
Quando: terça-feira - 04/12/2007, às 20h
Onde: JAZZ CAFÉ (Praça do DI - Taguatinga) - Antigo Cantoria
Quanto: R$ 4,00 (todos os artistas e organizadores abrem mão de
receber qualquer pagamento para que a bilheteria seja integralmente
destinada às despesas gráficas da revista Tribo das Artes)
Programação
Filme:
Oficina de cordéis "Poesia Popular", Realizado pelo pessoal do sarau
Meninos de Ceilândia
Exposição:
"Feirinha" de agricultura orgânica, com explicação sobre alimentação
saudável e não agressiva ao meio-ambiente - Sarau Geranium – Taguatinga
Poeta convidado:
Menenzes & Morais, do sarau Coletivo de Poetas – Brasília
Intérprete convidado:
Luiz Cesar, interpretando poemas de Manoel Bandeira, do Sarau da
Câmara do Deputados - Brasília
Lançamento de Livro:
Negro Jorgen, de Jorge Amâncio, poeta militante de inúmeros saraus,
assíduo intérprete na Tribo das Artes - Taguatinga
Teatro:
Sanatório, monólogo autoral com Teí Silva, do sarau Psicodélico – Taguatinga
Performance poético-musical:
Homenagem a Francisco Morojó (Pezão) – músicas e poemas de Pezão
interpretados por Bilia, Margô Oliveira, Júlio Barros, Yuri Pierre e
Nanci Araújo, do sarau Quartas Intenções - Ceilândia
Música:
Grupo Genipapo (forró e outros ritmos populares), do sarau Soma
Cultural – Taguatinga
Ao homem na bicicleta
Para Plínio T. de Figueiredo Leite e demais pais
Uma música é tocada
pelo homem da velha orquestra,
Enquanto eu vejo
outro sentado numa bicicletaParece uma esquina?
(Ou era na rua de muitos anos,
que existiam mais esquinas...)
Parece um viaduto?
(eles já existiam...)Só sei que uma pessoa passa e te dá uma faca,
com ela queres talhar teu destino.
Já não és mais menino...
Aprendeste com os sinos e com a gente que trabalhava.
Há muito tempo. Teu tempo.Não nos destes o mapa
dos rumos e leis
de suas correntes marítimas...
Mas sempre fostes ao nosso
lado como um velho timão.Muitos de ti viraram fregueses,
desde pequena lá no Rio ouço
"Deus lhe pague"E agora, de repente, teus olhos parecem cansados.
Será que desististes de nós?
Será que desististes de ti mesmo?
Muita coisa aconteceu...
Você naquele retrato, descascando sua laranja
nem sabia, que uma linda mulher encontraria.
Ela aceitou o desafio de construir outros laços,
Veio e não voltou mais,
De ninguém é a culpa que
pesa em teus ombros.
São as coisas da vida que não se compreendem...Este velho retrato te entregamos.
Nele vias tantos sonhos,
que talvez não tenham sido realizados.
Mas sei que te orgulhas,
teus filhos estão criados.
E naquela velha bicicleta você já sabia,
que tua vida seria
Naus de batalha e poesia...
Para aprender a voar
Para os 100 anos do 14 bis 1o Deve-se desejar muito alguma coisa;
2o É preciso saber andar, pedalar, assobiar e cantar;
3o É necessário afinar alguns instrumentos, aparar algumas arestas e afinar seu próprio canto;
4o Gostar muito de passarinhos e perder-se no voo de uma ave tão simplesmente e completamente ver a perfeição de seu pouso;
5o Amar o céu fechado e escuro tanto como se deseja o céu azul aberto. Vê-los como extensão de nossos dias. Não temer e contemplar seu mistério;
6o Coragem e uma bicicleta;
7o Um melhor amigo para poder contar;
8o Calcular melimetricamente o plano de voo para se errar, tentar acertar de uma próxima vez;
9º Não esquecer que no céu tem uma parte do mar e que também é infinito;
10º Entender porquê Santos Dumont amava tanto voar...
Algibeira
Chegou o dia da madrugada enluarada:
Uma cavalgada.
Gotículas de cachoeira, olhar na ribanceira
De ver na ponta da estrada...Só poeira
"O que tem depois da curva do rio, sinhô?"
-Vejo um sino, que espanta tanto passarinho
e as lembranças de eu menino...Muitas estrelas se aninham,
formando encruzilhadas
Chegando gente para ver a claridade na mata
mas fogueira apagada
faz distante tanta estrada
" O que vem depois do horizonte, senhora?"
- Vejo lendas de rendeiras e a vontade de ficar
a noite inteira, esperando chegar a hora...
Mas se fosse outrora e de repente,
tanto lusco-fusco, ofuscasse a natureza.
Alguém deixaria a luz sempre acesa?Sabe-se que o interior foi pela serra, obstinado
"Redemoinho é pião de moleque e homem se perde"
Das madrugadas os primeiros raios iriam junto
Como folhas caindo na época certa
Em estradas diferentes, esperando a chuva.
Goiás velhoMurici, manga, caju, cajá
Goiaba, mamão, maça...jequitibá
Capela, sino, oração e perdão
Incenso, vinho, gótico coraçãoRio, se não ri
Casa, quinquilharias e piqui
Fogaréu na mata sem fim,
Cora, coração doceVelhinhos e velinhas, flores sonolentas
Chuva quente: semente.Nascente, poente em silêncio
Nuvens de você?Só sua natureza interior, atuando sem querer
Fique até o amanhecer...
Somos mulheres de outra estirpe
Somos mulheres que não tem medo
do vento ou do tempo
Somos mulheres banhadas nas águas
vagas e imprecisas do querer
Somos mulheres que acreditam
Na força feminina que mexe o universo e
todas nós
Força essa mística, suave, densa e veloz
Somos mulheres que amam aqueles que
Comungam com o nosso misticismo
que banham-se em nossas águas
e saem com o busto franco de límpido prateado
Somos mulheres que disseram sim,
sem medo de serem banidas do paraíso
Somos mulheres jovens, crianças e sábias,
muitas vezes cansadas, revigoradas, ingênuas,
que perdem-se no ideário de seguir a outro ser
Algumas perdem-se de sua estirpe
Pois só nós temos isso,
O poder de levantarmos umas as outras
Só nós reconheceremos quem verdadeiramente somos.
Deliane Leite
Céu de Especiarias
Sob o céu do Líbano,
lábios ofegam de leve,
aromas de finas especiarias,
trazidas por Samira.
A moça cor de amêndoa fresca
Prepara, sem saber,
A última refeição de seu pai
Com o gosto apurado na lembrança
De um tempo de criança,
em que as ruas
Não se faziam mais de notícias
das granadas, mísseis e
das nuvens de fuligem seca e pesada
de bombardeios aéreos.
Samira senta-se na cadeira
pensa nos dias e tarde amenas
Em que serenamente provou
O gosto da fruta mais gostosa
de sua terra.
Sem saber que a sua espera
vespertina do pai querido
se transformará em grito
também sob o céu do Líbano.
As especiarias completas,
que ora cobriam a prateleira do armário,
foram abandonadas pela metade.
A busca de cheiros a levou,
às margens do mar Egeu,
Para observar uma batalha que sente
A ela não pertencer...
As histórias diversas que ouve
no caminho, na procura onde se abrigar
a fazem desejar pelo dia em que
seu céu, novamente, será repleto
apenas por especiarias.
Deliene Leite
Se eu fosse Fernando Pessoa
mandaria alguns
Heterônimos
fazerem as coisas por mim
Mas como não sou
Vou eu mesma e faço:
Desato o nó dos sapatos
As correntes de ouro do pescoço
Mando meus outros eus ao encontro
Dos outros...
Muitas vezes nos perguntamos se seria possível sermos mais de um. Aquela coisa meio batida que encontramos em quilos e quilos de filmes, fora os pastelões televisivos. Quem não gostaria de estar em dois lugares ao mesmo tempo? Resolver todos os conflitos pessoais em tensão permanente (ou não seria essa tensão que dá graça a vida?), poder estar em dois ou até três trabalhos diferentes, sempre sonhados, para ganhar mais. Enquanto um de nós estudaria compenetrado sem se importar com o sol que faz lá fora, o outro curtiria um delicioso passeio de bicicleta ou tomaria um banho de cachoeira. Seria possível ler mais livros, escutando mais música. Ou, no caso de situações urgentes, estar junto de quem amamos e de quem estamos temporariamente afastados ou por situações geográficas, obrigações diárias e outros.
O fato é que por meio desse tempo “fragmentado” em que vivemos diariamente, somos levados a diversas escolhas em nome do estar. Como estar? Onde estar? Com quem estar? E o mais importante: Por que estar? Ítalo Calvino em “Se um viajante numa noite de inverno” (1979), já afirmava que a dimensão do tempo foi estilhaçada e que não conseguiríamos viver nem pensar senão em fragmentos de tempo que se afastam, seguindo cada qual sua própria trajetória, e que logo desapareceriam.
Apesar de muitos não saberem até que ponto gostariam de ser mais de um: se para aplacar constantes insatisfações cotidianas, desfrutar de mais experiências e por aí vai. O fato é que isto tem nome: “vontade de liberdade”. Nome cunhado por um cientista social da pós-modernidade, Zygmunt Bauman. Quem ficou feliz saiba que esta idéia se opõe diretamente a segurança projetada em torno de uma vida social estável, tão almejada no início do século XX e que insistimos em perseguir até hoje.
Porém, em matéria de “vontade de liberdade”, não conheço cara mais safo que Fernando Pessoa. Poeta português que de forma inconfundível soube solapar todo com seu desejo de liberdade por meio de seus heterônimos, tão diferentes entre si, com nascimento, profissão e convicções sociais e ao mesmo tempo tão Fernando Pessoa. Sabemos que eles estão até a o último fio de cabelo refletindo a concepção fragmentária e sem centro com que Fernando Pessoa experimenta em toda sua obra, o mundo. O grande drama de ser lúcido, de ter metafísica, de lançar-se ou ter sido lançado na modernidade.
Não seria esta experiência de Pessoa que precisaríamos para entender de vez que é impossível sermos apenas um e ocuparmos apenas um “lugar”? Estamos ao mesmo tempo habitando “a natureza” sem maiores questionamentos como Alberto Caeiro, vivendo como se não fosse necessário que tudo tivesse um sentido de ser como Ricardo Reis e com desejo de conquista constante e angústia alucinante nos aproximaríamos de Álvaro de Campos. Impregnados de outros “eus”, caminhamos na pós- modernidade, assumindo diversas identidades, incorporando estilos em nome dessa vontade de liberdade e tentando não nos arrependermos do que não fizemos.
Esta inconfundível experiência que a literatura de Pessoa nos deixa é a herança que não pode ser abarcada por nenhum outro tesouro. A sensação de que nunca estaremos “sozinhos” na loucura de nossos pensamentos, sonhos e desejos. Que as experiências são atos solitários, mas por excelência, únicos, que não podemos nos eximir de viver. Alguém pensou, em algum momento, que ser apenas um seria só o necessário? Talvez sim, mas certamente não somente o suficiente para viver uma vida.“Tenho pensamentos que, se pudesse eu trazê-los à luz e dar-lhes vida, emprestariam nova leveza às estrelas, nova beleza ao mundo, e maior amor ao coração dos homens.” Fernando Pessoa
Deliane Leite é poeta da Tribo das Artes, pesquisadora em Literatura Brasileira e professora de Língua Portuguesa.
Este BLOG é um espaço aberto aos amigos convidados pela T-Bone para publicar seus textos de temas livres, além das notícias do dia-a-dia da ONG. Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo publicado. Boa leitura! Luiz Amorim
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