Categoria: Coluna João Vieira

27.06.07

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Categoria: Coluna João Vieira

Consumismo como ideologia (ou da dificuldade em acabar com a corrupção e furtos...)

João Vieira

A grita do venerando Senador Pedro Simon, ante descalabro da corrupção no seio da cúpula governamental, levou-me à troca de idéias com Pedro Paulo Lomba, a quem coube “desenhar” o mítico projeto da Universidade da Selva, em Mato Grosso, para esclarecer a extensão do apequenamento dos quadros dirigentes do País. Criativo, disse-me ser conseqüência da transformação do Consumismo num sistema ideológico; e assim assimilado pela consciência pública, não como uma simples aspiração do bem-viver, mas a própria redenção social; meta a ser atingida a qualquer preço no curso da existência. Do Consumismo, enfim, como uma ideologia ou razão prática de ser e a cuja concretização são consagrados o melhor e o máximo dos esforços e propósitos... Vale conferir a lúcida observação na transcrição, em arranjo, a seguir:

“O Consumismo tornou-se uma ideologia disseminada por empresas comerciais e toda corrupção pública, e privada, está aprovada nesta ideologia. É inviável para o homem público não carregar as marcas do sucesso pessoal. A família consumista exige isso na competição social com as outras famílias.

Nunca vi uma sogra que não gostasse de um genro corrupto, que dá conforto à filha e aos netos, e por tabela a ela própria, roubando dinheiro destinado ao tratamento do câncer infantil. E o consumismo atingiu em cheio a Classe C, e tornou-se símbolo da ascensão social. Todo barraco da favela da Rocinha no Rio tem todos os mais modernos eletrodomésticos. As pessoas passaram a morar dentro da televisão, que ocupa 1/3 da parede da sala. Mata-se para roubar um tênis de marca.

Não pretendo ver a queda do Consumismo na minha vida. Mas vi a queda do socialismo soviético provocada pelo Consumismo. Acho que o Aquecimento Global, tem o grande mérito de combater a poluição gerada pelo Consumismo. Hoje, nas margens do Rio Madeira, árvores altas exibem garrafas pet presas nos galhos durante a cheia. Observe toda a mecânica ideológica exibida pelo Consumismo: sistemas de interpretação da realidade, roteiros de reconhecimento e de aquisição, palavras de ordem! E se conhece bem a origem disso tudo: a passagem do artesanato para a indústria.

O primeiro lugar no mundo ocidental em que se podia encontrar os mesmos bens, pelo mesmo preço, em qualquer época do ano (contrariando as práticas do artesanato) foi Au Bon Marché em Paris, inaugurado em 1852. Até então não havia bens triviais disponíveis para todas as pessoas. Lembre-se das pequenas heranças femininas que passavam de bisavós, a avós, filhas e netas: um jogo de copos de cristal, uma sopeira de porcelana, castiçais, um aparelho de jantar, toalhas de mesa, móveis - que eram motivo de disputas e intrigas.
Na segunda de metade do século 20, inaugurou-se a era em que as pessoas poderiam ter as coisas triviais sem esperar heranças e doações. Vieram as lojas de departamento americanas e o crediário, essenciais à máquina social e econômica do Consumismo. Consumir deixou de ser privilégio, tornou-se direito, e agora é obrigação social. As pessoas atualizadas, diferentes das do passado não consumista, são construídas de fora para dentro. Fomos a última geração construída de dentro para fora, armazenando valores como fonte de energia pessoal. Só esqueceram de distribuir renda para todos poderem consumir.

Os brasileiros são conhecidos no comércio americano e europeu como um povo cleptomaníaco. Roubam lojas na maior cara de pau e se sentem bem. Veja o honrado rabino Sobel e suas seis gravatas furtadas nos Estados Unidos. É um povo criado desde os anos 1960 - em criatórios de mídia, propaganda & marketing - para consumir, mas que não tem grana. Pendura-se todo em todas as prestações e, quando não estão olhando, furta. Pelas vias do desenvolvimento essa situação demorará muito para ser consertada e causará enorme prejuízo. Para reduzir, o instrumento educacional é incerto, lento, pouco produtivo. O Instrumento mais eficaz é a Justiça: cadeia pura e simples no fim da linha.

Observei nos Estados Unidos, que sogra não gosta de genro corrupto, porque ele tem chance de ser apanhado, ir para a cadeia, e deixar a família desprotegida e socialmente desmoralizada. A sogra americana aprendeu que a corrupção do genro pode significar a desgraça da filha e dos netos. É o caminho.

Em maior profundidade: a natureza, onde todos roubam todos, foi e continua sendo a mentora do povo brasileiro. Era isso que os ecologistas queriam: aí está”. E o fecho magistral por resumo: “O Consumismo não corresponde exatamente ao Capitalismo ideológico, que privilegia a poupança – ("se quer enriquecer, controle seus desejos"). O Consumismo contraria, por exemplo, a Kabala do Dinheiro, judaica” – conclui.

P.S. Vale trazer à lembrança Padre Antonio Vieira com sua obra clássica Os Sermões, onde consta Sermão do Bom Ladrão. E por oportuno, o apócrifo Arte de Furtar, que chegou a ter a autoria atribuída também ao P. Vieira e que esquadrinha à exaustão, mas com engenho e graça, ou se quiser, ironia, desse tão insólito quanto carvernoso “dom” de nossa raça.

João Vieira, sociólogo, escreve semanalmente neste espaço. E-mail: joaovieira01@pop.com.br

10.06.07

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Categoria: Coluna João Vieira

Dia do meio ambiente


A data mundialmente consagrada ao Meio Ambiente, 05/06, há de servir de motivação para que se tome a termo as condições ecológicas em que vivemos. O estado em que deixamos a NATUREZA, depois de ocupa-la; depois de nos apropriarmos dela para a serventia de manutenção – sustentável ou não – de nossas vidas. Objetivamente!
Em Caldas Novas – paraíso ecológico, por conta da excelência das águas que tem – o meio ambiente, infelizmente, é desequilibrado. Historicamente desequilibrado, desde quando apareceu aqui gente de impulsão construtivista fazendo, de fato, uma cidade. Não uma cidadezinha qualquer, mas um pólo urbano de porte médio, tendendo para a escala metropolitana, em vista dos “espigões” alevantados; e uma sucessão de casas sem intervalos verdes (que se prestassem como respiradouros ecológicos), compondo um maciço compacto de edificações a perder de vista...
Isto depois de “limpar” a área cortando, pela raiz, a vegetação original jacente, fazendo-a substituir por verdadeira e prosaica “selva de pedra”...

Não precisava tanto – bastava desbastar apenas o suficiente utilitário, e não (nunca) usurário, quer dizer, com o objetivo (prioritário) da lucratividade imobiliária! É o progresso, ou se quiser, “desenvolvimento”, ressalvado, este, dos senões e limitações pelas aspas!
Similarmente ao dia das mães, ou dos pais, o “dia do meio ambiente” não deverá cingir-se à data escolhida, de Cinco de Junho, e sim, todos os dias do ano. O ano todo, inteirão, voltado para o “cuidado ecológico” ou a causa ambiental. Sobremodo em se tratando do ambiente (privilegiado) de Caldas Novas, e adjacências, já popularmente consagrado sinônimo de “águas quentes”. E que podemos, sem muito pessimismo – ao contrário – até com certo realismo, perguntar: e até quando?
O sobreesforço de captação de fontes, via perfuração artesiana, já é hoje um remontado e arrematado problema para as administrações, nos âmbitos das específicas competências municipal, estadual e federal. Felizmente já esquadrinhado e assumido em seus aspectos mais temerários e insustentáveis – é o que se colhe em informações correntes.
Entretanto, o problema ecológico candente da cidade e, de certa forma, sua micro-região, quando não, talvez, da região inteira, é o da conservação ecológica, ou por outra, o d e s m a t a m e n t o; ou a falta total de cuidado ambiental; ou ainda a ambição desmedida – no mínimo, negligência para com o futuro, que há de ser, sim, estável e continuado. Em suma: negligência para com o bem estar humano!

Que fazer?
Só a iniciativa pública – quer dizer – deixar somente por conta da administração oficial, não basta! É preciso que a comunidade como tal, pelas forças vivas que a sustêm, se conscientize e assuma a questão meio ambiental, agendando, pospondo um mutirão de boa vontade em favor da causa ecológica caldanovense. E mais a contribuição, desprendida, de cada um dos cidadãos em particular, seja ele nato, adotado ou tão só e apenas usuário, das benesses termais, ou outras, deste nicho-prodígio da ecologia brasileira. Mas que não se faça, nunca, um usurário predador, porque de vilão o mundo está farto (literalmente), ao ponto de quase sucumbir... Planetariamente!

João Vieira escreve semanalmente neste espaço.
E-mail: joaovieira01@pop.com.br

28.05.07

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Conversa de violões

Antigamente os tocadores de violão usavam a dedeira que traziam sempre consigo, no bolso. Depois veio a Bossa Nova, para marcar os tempos modernos com um estilo de violão dissonante, com as cordas puxadas, ou feridas, por todos os dedos, tecnicamente! Como o fazem Roberto Menescal, Toquinho e demais papas do gênero inovado da canção romântica, mais intimista, que remodelou os “saraus” ou a seresta brasileira.

A dedeira, então, sumiu ou se refugiara em bolsos de tocadores de violão das classes sem nenhuma visibilidade do interiorzão, ou das periferias. E os diligentes musicistas “inseridos” passaram a fazer como podiam sua seresta percorrendo a escala numa nota só, ou todas, mais sempre mais suavemente e ocupando a totalidade dos seus dedos. E aí aparece o Clube do Choro em Brasília, retomando o uso, sem alardear, da dedeira com o acompanhamento abarrocado de “baixarias” (toque das cardas graves do vilão), que por minha vez, entendo não ser mero “acompanhamento” e muito mais uma execução musical paralela, em contracanto, perfeitamente compatível e de todo coerente com temática musical em quadro.

Pronto! Resgatou-se a dedeira e o romantismo mais solto e livre das rodadas de choro, saraus e serestas, com os mais novos aderindo, para gáudio emocional de papais e vovôs (e porque não?), também de todo o público brasileiro ouvinte que, no fundo, no fundo, sempre guardara no recôndito de seus gostos, e da alma, as velhas canções do gênero dor-de-cotovelo, como as de Adelino Moreira, Orestes Barbosa, cantadas, por exemplo, por um Nelson Gonçalves; ou Silvio Caldas; ou Orlando Silva, ao lado dos clássicos da composição musical nacional como Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth, Noel, Pixinguinha... Ari Barroso! Ou ainda instrumentistas emblemáticos da musicalidade brasileira como Waldir Azevedo (cavaquinho), Jacob do Bandolim, entre outros magos da execução instrumental da estirpe de um Patápio Silva, lendário flautista do começo da Era Republicana.

Estava, de fato, pronto o cenário para uma modernidade mais plena que espetaculosa; tempos modernos de pais, filhos, vovôs num mesmo diapasão musical e com alguns dos novos surpreendendo pela habilidade instrumental – com dedeira, ou seja, o acompanhamento violonístico com todos os floreios e “baixarias” a que se tem direito. Em verdade, o mais antigo em música, mas numa linguagem atualizada – como que a facilitar a passagem de um estilo a outro sem quebra de continuidade nos planos tempórico e emocional...

O clube do choro brasiliense se exerce, hoje, a pleno e tem motivado, qual célula de reprodução sissiparizada, o surgimento de unidades similares em outras latitudes do quinhão territorial brasílico, de dimensões continentais! E assegurado o traço de identidade pátria, em diapasão musical comum, de prodigiosa técnica, muita graça e bom gosto! Ou procedendo-se, apesar de tudo e dos contratempos (discrepâncias sociais; a maldade dos (infelizes) de cepa maldita, teimosos em semear a des-graça...), a unificação do sentimento positivo da reverência musical em “feitio de oração” – para sermos fiel e sobremodo respeitosos para com o compositor-poeta!

Modestos, os azes do Clube do Choro de Brasília ainda acham brechas para brindar com uma boa “canja”, a eventos significativos dessa praça. Como aconteceu com a abertura, também para almoço, do bar e restaurante temático, “Pata Negra – Taberna Espanhola”, localizado na Quadra 413-Sul, do Plano Piloto. Foi quando apreciamos “Paella” e/ou “tapas” da culinária espanhola, embalados por Concerto (sublinhado e com “c” maiúsculo), dos “chorões”: Antônio Lício, da flauta; Denivaldo, saxofone; do professor (de música) Fernando Machado, da clarineta; Everaldo “Arapinha” e Dr. José Costa, violão comum e de sete cordas, respectivamente; e o fecho de tamborim (tocado pelo também acordeonista, Nivaldo e pandeiro pelo pandeirsta-malabarista, Edvaldo, com toques até de cotovelo! Depois, a surpresa.

Um dos jovens do grupo (Vinicius), até então na assistência, tirando do bolsa sua dedeira, domina com desenvoltura o “Sete Cordas”, liberando o Dr. Costa (médico da especialidade otorrino) para um tempo de “Chopp Pata Negra” – artesanal – por ser também filho-de-Deus e de bom merecimento pela maestria com que faz cirurgia-de-pescoço e toca violão de sete cordas! Mas, a fim de dar aos concertistas tempo para chopes ou vinhos e tapas e “paellas”, assumiu o “pódio” ou tablado musical, a dupla de fama das noites brasilienses (vozes associadas, guitarra e contrabaixo), Daniel Junior & Zareth, que se exerceu em grande estilo em ritmo e cantoria, típicas...

Efetivamente uma tarde em tempo, quer dizer, sem tardança, de uns momentos pra lá de bons... De nossas vidas!

P. S. – Dois registros: 1) Quando da apresentação de “Amor proibido” de Cartola, os dois violões se alçaram e realçaram, como que travando um “diálogo” ou prosa instrumental, de todo articulada, com perguntas e respostas alternadas, associadas em rigorosa perfeição harmônica... Brincando! E, 2) O fato (?) da idealização e implantação do “Pata Negra” ser de iniciativa da jornalista espanhola, e “Chef”, Maria Jesus em sociedade e parceria com Cassiana Capparelli – minha filha! (E mais a participação (salvacionista) dos respectivos esposos)...


João Vieira escreve semanalmente neste espaço.
E-mail: joaovieira01@pop.com.br

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