Categoria: Coluna Aloísio Brandão

05.03.10

Permalink 09:59:54, por admin Email , 1382 palavras, 81 views   Portuguese (BR)
Categoria: Coluna Aloísio Brandão

Crônica

Os reiseiros cabisbaixos

Por Aloísio Brandão,
compositor e jornalista.
(aloisio.brandao@ig.com.br)

Choveu – e choveu muito – entre o Natal de 2009 e o Ano Novo, em Santana dos Brejos, sertão e oeste da Bahia. Sertanejo que é sertanejo ri, de orelha a orelha; chora de emoção e até arrisca versos e cantos, diante de uma chuva boa. Havia uma alegria contagiante, no Município, no fim do ano, porque a chuva era abundante; as aguadas para o gado, fartas; o pasto e as plantações, verdes e crescidos. Ninguém se importaria, caso a chuva não desse uma trégua, à noite, durante os festejos do réveillon, quando uma queima de fogos e um trio elétrico a plenos decibéis agitariam os santanenses que lotam o Calçadão, no centro da cidade.

Mas eis que, lá pelas 15 horas, o céu se abriu, e o fim da tarde chegou com a mansidão brejeira de sempre, e uns pálidos lilases enfeitavam as bordas das nuvens que insistiam em não se dissipar. Então, meu irmão, César, e eu fomos dar um passeio de carro com nosso pai, Seu Benedito, por bairros mais distantes da pequena cidade.

Do alto dos seus 98 anos, papai não perdeu o vigor, nem a lucidez. E não aceita ficar à margem do que acontece, no Município. Quer ver a escola em construção, o calçamento novo no bairro mais afastado, a ponte ainda no alicerce. Questiona tudo, faz comentários e jamais deixa de manifestar o seu otimismo em relação ao lugar. Naquela tardinha, aproveitamos para visitar amigos e lhes dar um abraço de Ano Novo.

Meu irmão, ao volante, tomou o rumo do Bairro São José, onde um Cruzeiro em frente à casa em ruínas do velho Otacílio expõe-se como o que, ainda, resta de um tempo de bonança. Ouvíamos, no toca-cd do carro, um disco de Nelson Gonçalves. Ouvir Nelsão é um passo para a boa emoção e para desencavar velhas lembranças da infância.

Criei-me, saboreando pérolas musicais vindas dos alto-falantes que varavam o céu, entravam pelas casas, encharcavam toda a cidade de uma doçura indescritível. Um deles era o “Serviço de Alto-falante A Voz Record” (com quatro potentes projetores por toda a cidade, como fazia questão de frisar a apresentadora Nicinha de Lê, a mulher com penas de beija-flor na garganta).

Ou o alto-falante das “Casas a Vencedora”, liderado pelo meu então professor de inglês Vilmar de Souza, hoje, um homem devotado ao estudo da história do Município. Vilmar apresentava o inesquecível “Saladinha de Sucessos”. Já o “Serviço de Alto-falante Santo Antônio”, pertencente ao Posto de Gasolina Santo Antônio, trazia um programa matinal cujo apresentador, Tõe de Doão, diariamente, tocava a bela “Normalista” (Benedito Lacerda e David Nasser). Nelson Gonçalves, portanto, era obrigatório, em Santana dos Brejos.

Voltando ao nosso passeio de fim de tarde, lá fomos nós visitar Maria, a empregada de nossa casa, aposentada há uns 15 anos, mas uma presença forte entre nós. Na volta, ouvi, de longe, pela fresta da janela do carro, a inconfundível música dos reiseiros santanneses. Pedi ao meu irmão que parasse o carro. Andei uns 50 metros, até alcançar-lhes à entrada de uma casa.

Manifestação das mais puras e intensas de Santana dos Brejos de outros tempos, aquele grupo de reiseiros, naquela tarde, porém, trazia alguma melancolia que, no início, eu não percebi, mas, depois, os minutos me fizeram reparar. Daí, a descobrir a sua origem, foi um triz. A ponta de tristeza vinha da indiferença a eles dispensada pelas pessoas.

Alegres, os resiseiros saem pelas casas da cidade ou dos povoados distantes, durante os nove dias que antecedem a sua data máxima, 6 de Janeiro, levando a sua folia. Mas o coração das pessoas daquela ruazinha já não parecia mais ser tocado pela música daquele grupo.

Meio acabrunhado, o grupo era de não mais que oito pobres homens solitários e de mãos calejadas pelo trabalho honrado, no campo, que, naquela rua distante e sossegada, ao fim daquela tarde do último dia de 2009, tocavam os seus instrumentos de fabricação caseira (pífaros de tabocas, tambores, maracás, reco-recos, ganzás) e cantavam para ninguém.

Ninguém os seguia, como em outros tempos. À porta de algumas casas, já não havia o corre-corre feliz que animava a chegada dos reiseiros, em tempos não tão distantes. Tão agitadas eram as suas chegadas às casas que eles mal conseguiam tomar as salas e se postar diante das lapinhas, onde iniciavam os seus catares e tocares. Aquele grupo que vi, na ruazinha do bairro distante, na tarde de 31 de dezembro de 2009, saiu de algumas casas do jeito que entrou: cabisbaixo, abatido, como se não conseguisse romper a cerca de indiferença que se formou diante de si.

Passei o resto da noite com aqueles homens na cabeça. Evoquei cenas de minha infância, quando uma multidão os acompanharia, dividindo com eles o canto, enquanto os donos das casas fariam as honras e serviriam comida e bebida, fartamente, como manda a boa tradição. E fui formando um bolo de questionamentos, como: que futuro aguarda a Folia de Reis, em Santana dos Brejos? Os reiseiros conseguirão tirar forças de seu próprio desalento para sobreviver?

As perguntas não são sem sentido. Outras manifestações santanenses, como os Caboclinhos, foram empurradas para o mesmo precipício onde estão soterradas outras manifestações folclóricas e culturais, como a representação da luta entre Católicos e Mouros, que contava com a liderança intrépida de Jaime Vilas Boas, nos anos 60 e 70. Não pode ser este o mesmo destino dos reiseiros.

O fenômeno que impõe uma distância abismal no tempo que nos separa de nossa própria cultura é universal, ressalte-se. Registre-se o esforço, em alguns Municípios brasileiros, envolvendo população, poder público e organizações não-governamentais, com o objetivo de manter vivas as manifestações folclóricas locais. Sabem as populações desses lugares que se o seu passado for soterrado, elas ficarão sem futuro.

Eu cresci, em Santana dos Brejos, acompanhando os grupos de Reis do povoado do Tabuleirinho e da Rua das Pedras. Andava longas distâncias (às vezes, de um povoado para o outro), dançando, cantando e tocando tambor com eles, bebendo de sua sabedoria e de sua cultura. Era uma alegria chegar à porta de uma casa e vê-los felizes, sendo recepcionados pelos moradores e seus vizinhos. E, num passe de mágica, a casa inteira, da porta da frente ao quintal, estava lotada de gente alegre.

Ali, estava a alma pura e viva de um povo, manifestada em sua cultura e levada ao máximo da alegria. O canto dos reiseiros é o cordão umbilical que os liga ao seu ventre cultural, à sua raiz ancestral. Se esse cordão for rompido, um vácuo se formará, deixando em seu lugar nada, além de um vazio doloroso.

Festa religiosa de origem portuguesa que ancorou, no Brasil, no século XVIII, a Folia de Reis tem uma natureza religiosa, além de certa voltagem lúdica. Está associada, na tradição católica, à passagem bíblica em que Jesus foi visitado pelos Reis Magos Melchior, Baltazar e Gaspar.

Tratar esses homens (as mulheres não integram grupos de Reis, mas apenas acompanham os maridos, de perto) de “bando de desocupados” ou de “cachaceiros” é de uma grosseria abominável. Pelo contrário, os que assim entendem deveriam curvar-se diante de um grupo de reiseiros, em sinal de respeito à cultura que ele transporta e transfere, há mais de um século, de pai para filho, num processo delicado, como se todos eles estivessem coletivamente prenhes de um filho amado. E estão mesmo grávidos, mas de cultura. E mais: todos deveriam abrir-lhes a porta e o coração, porque é a vida que vai entrar, ali. Ora, cultura é vida.

12.09.09

Permalink 09:56:35, por admin Email , 1197 palavras, 134 views   Portuguese (BR)
Categoria: Coluna Aloísio Brandão

Crônica

A loja de memórias de Seu Vivaldo

Pelo jornalista e compositor Aloísio Brandão.
E-mail: aloisio.brandao@ig.com.br

Eu estava a caminho do povoado do Areão de Cima, para o lado oeste e a cinco quilômetros da cidade de Santana dos Brejos. Embora Julho (de 2009), quando, de dia, as temperaturas são mais amenas, eu precisava apressar o passo, para voltar com o sol ainda brando e vencer, com relativo conforto, os 14 quilômetros que teria de caminhada pela frente. Mas o sol de Julho deste ano foi implacável. Depois das 9 horas, o calor cáustico fazia lembrar dezembro e janeiro, quando a temperatura, lá, passa facilmente dos 40º. Não se anda, em Santana dos Brejos, sem que se encontre um amigo, em cada esquina. Ou um anjo, como disse o poeta Vicente Sá, quando passava uns dias de férias, lá, em minha casa. De sorte que eu havia tomado a Rua das Canelas, já avistando a estrada que vai para o Areão de Cima, quando percebi que passava em frente à Loja de Seu Vivaldo. Impossível não entrar para cumprimentá-lo. É a loja de memórias.

O estabelecimento é uma herança do seu pai, Seu Pompílio Pereira de Novaes. Floresceu, nas décadas de 50, 60 e foi uma das mais importantes no gênero de tecidos da Rua das Canelas, quiçá não o fosse de toda a Santana dos Brejos que, àquele tempo, ainda não tinha se espichado para os lados leste e norte. Vendia, também, aviamentos e ferramentas para carpinteiros, marceneiros e pedreiros.

A pequena cidade, localizada no Oeste da Bahia, mais precisamente na região do Médio São Francisco, a quase mil quilômetros de Salvador, teve um comércio de tecidos movimentado, dadas as proporções. Costureiras e alfaiates não davam conta dos pedidos. Todas as roupas eram confeccionadas, ali.

A Loja de Seu Pompílio, de duas portas altas e verdes e de balcão largo, de madeira de lei, não tinha lá uma grande profundidade. Uma porta lateral à esquerda dava para o corredor principal de sua residência, o que trazia a intimidade doméstica para a lida.

Mas veio a era das confecções industriais. Foi quando as calças jeans arrancaram as peças de brim caqui das lojas e das alfaiatarias, de onde foram expulsos, também, os finos linhos Pérola, que eram abrigados com arte pelas mãos hábeis dos alfaiates santanenses. Em seguida, veio outra onda mais avassaladora: a que trouxe os produtos chineses a preços de banana, não se lhes importando a qualidade. A esta onda, bem mais recente e devastadora, saliente-se, não se pode atribuir a derrocada do negócio de Seu Pompílio.

Fustigadas pelo novo nicho de mercado, as bem-sucedidas lojas de tecidos de Santana dos Brejos de outrora, uma a uma, fecharam as suas portas, restando umas poucas e resistentes, como o velho pajeú imponente que vê a cidade do alto (lá, à beira de um pequeno tanque de barro para dar de beber ao gado, na roça do velho Alípio, e à margem da estrada por onde eu iria passar, minutos depois). O pajeú parece impassível diante do tempo, mas, em verdade, já se ressente do movimento de carros e motos a metros dos seus pés.

De sorte que a loja de Seu Pompílio curvou-se diante do que lhe reservara o destino, e não lhe restou outra coisa, além de... Fechar as portas? Não! Isso, não. Jamais, ao longo de mais de 60 anos, teve as suas portas fechadas, num único e desafortunado dia que fosse, ainda que as suas prateleiras vazias já não abrigassem um fiapo de linho sequer.

A loja está, lá, do mesmo jeito e impávida, diante do tempo, alheia à tribulação progressista que sacode o pequeno centro comercial de Santana dos Brejos.

O filho de Seu Pompílio, Vivaldo, assumiu o controle do negócio, com a morte do pai, e, indefectível, passou a tocar a loja. Abre-a, no horário comercial, sem atraso, como se, febril, acordasse em outra dimensão, em outro tempo.

Mas o que vende a loja de Seu Vivaldo, se aquelas prateleiras de madeira encontram-se completamente vazias? O que existe, ali, de uns 20 anos para cá, são apenas um homem pleno de ternura e o vão. Um vão que, ressalte-se, cobriu de profundidade o pouco profundo quadrilátero da loja, em seus tempos de bonança. Portanto, não há nada a se vender, ali. Absolutamente, nada.

Nada mesmo? Não, de jeito nenhum. Algumas pessoas é que não conseguem enxergar o invisível que anima as suas prateleiras. A Loja de Seu Vivaldo, agora, vende memórias. As contas, ali, são feitas à luz de uma matemática inexata que faz com que adquirir e oferecer sejam a mesma coisa e vice-versa. Todos saem dali com as “mercadorias” na memória do coração, na cabeça.

Quer ouvir uma boa história da cidade e dos povoados mais longínquos de Santana dos Brejos? Quer apenas trocar pensamentos, telepaticamente? Quer rir, de orelha a orelha, com um caso bem contado? Ou apenas dar um cochilo, após o almoço, numa tarde escaldante, no balcão largo e acolhedor duma loja que transcendeu ao tempo, ao lugar, ao homem? Então, vá à Loja de Seu Vivaldo. Mas uma advertência: não leve dinheiro, pois que este, lá, não vale nada.

Incansável, sentado do lado de dentro do balcão e invariavelmente bem vestido, Seu Vivaldo, agora, já não tem pressa de fazer girar o seu capital, não tem medo de uma nova onda fabril soterrar a sua mercadoria, nem receio de que o ar oxide os seus produtos, ou de o tempo envelhecê-los. As suas mercadorias ficaram encantadas e já não gritam mais por tesouras e agulhas.

Quando estive, na loja de Seu Vivaldo, em Julho de 2009, saí com os olhos marejados, quando ele me disse: “Aloísio, seu pai, Seu Benedito de Amorim Brandão, é um dos homens mais honestos de Santana dos Brejos”. E contou histórias suas. Despedi-me, certo de estar levando as melhores mercadorias.

E quando saí da loja (e olha que não demorei tanto assim), senti o bafo quente do sol. Mas resolvi encarar a caminhada interrompida, e segui adiante. Meu coração firmara outro compromisso comigo: o de tomar aquela estrada que eu via à frente, chegar ao Areão de Cima e, dali, mergulhar à direita numa estradinha de carro de boi abandonada, onde não passa ninguém, absolutamente, ninguém.

A estradinha possui cerca de cinco quilômetros da mais transformadora e doce solidão. Tenho a sensação de que ela seja exclusivamente minha, e que ninguém a conhece, ninguém jamais pôs os pés, ali. Andar nela é criar uma hora boa para compor, para rezar, para pensar nas pessoas que amo. Um dia, ainda levo aquela estradinha abandonada para casa. Será que ela existe mesmo?

18.08.08

Permalink 10:28:05, por admin Email , 1495 palavras, 349 views   Portuguese (BR)
Categoria: Coluna Aloísio Brandão

Porto da paz

Por Aloísio Brandão,
Jornalista e compositor
(Aloísio.brandao@ig.com.br)

Eram 11 horas de 16 de julho de 2008, quando tomamos a estrada de barro poeirenta que nos levaria de Santana dos Brejos a Porto Novo, a pouco mais de 40 quilômetros. A manhã claríssima e o céu azulzinho, sem nenhuma nuvem, eram dramáticos. Afora o pó de terra fino e grudento que esta época do ano prepara nas estradas barreadas sertanejas do Nordeste e os solavancos, a viagem foi agradável e mais rápida do que eu imaginara.

A solidão transformadora daquele pedaço meio esquecido da Bahia e a conversa interminável e emocionada com o motorista Marcelinho de Lia de Pedrito no carro de quem eu viajava foram um prefácio do que eu encontraria pela frente: um belíssimo povoado perdido no tempo.

Uma hora depois, Marcelinho de Lia de Pedrito esticou o beiço e, como quem traz a mais aguardada boa-nova, anuncia: “Estamos chegando, em Porto Novo. Fica logo do outro lado desse morro, aí”. Meu coração disparou. Nem sei por que, mas disparou. Acostumado a tantas viagens, por que meu coração haveria de disparar, justo diante da notícia de estar chegando a Porto Novo?

Foi o tempo suficiente para arrumar o cabelo desalinhado pelo vento encharcado de poeira que entrava pela janela que não fechava – a do lado do passageiro -, para calçar as velhas botas Bull Terrier e ajeitar o bermudão caqui folgado. E, de repente, o lugarejo começa a obrar o seu encantamento. No início, tudo parecia um filme meio desbotado, do realismo fantástico. É Porto Novo que vem entrando em mim, sem me dar tempo para respirar.

Já às primeiras casas, dava para ver o mistério que o tempo tecera naquele povoado: o seu total desapego às horas. O carro de Marcelinho de Lia de Pedrito avançou pela primeira fileira de casas, e eu lhe pedi para que fosse o mais lento possível. Precisava amoldar-me à fôrma do não-tempo, naquele lugar.

Além do mais, sorver Porto Novo, num gole, poderia ser perigoso para a emoção. Era preciso tempo para decodificar, aos poucos, aquela ausência de tempo. Porto Novo desidratou-se de tudo o que é desimportante para se tornar a essência em povoado. Portanto, era preciso calma para a minha cabeça desapegar-se da aceleração em que vive metida e, aos poucos, absorver Porto Novo. Não seria fácil. Ali, o tempo desintegrou-se.

Marcelinho de Lia de Pedrito, com sua incrível sensibilidade para a poesia e para a música, e chegado à uma boa contação de histórias, estacionou o carro, ao fim da rua principal das quatro ou cinco ruas existentes, onde fica o restaurante de Augusto. Em verdade, um rancho de madeira com uma varanda arejada e de onde se vê, a coisa de uns 15 metros dali, o caudaloso e veloz Rio Corrente.

Aproveitamos para encomendar, logo, o almoço, pois já passava do meio-dia. Uma moqueca de peixe acompanhada de pirão, arroz e salada foi sugerida por Augusto. Moqueca, no sertão baiano, não conhece camarão.
Enquanto Augusto, descalço, nu da cintura para cima e metido num calção preto descorado, emprestava o seu capricho à preparação do almoço, fui dar uma volta a pé pelo povoado. Marcelinho não quis acompanhar-me. Reclamou do sol. E, lá, fui eu bater perna. Quanta beleza por todo lugar. As casas, pintadas em cores vivas e várias delas bem conservadas, pareciam desgrudar-se de um quadro de Volpi para se abrigar naquelas ruazinhas.

O casarão de Seu Anízio Gonçalves e D. Idália, falecidos, compadres do meu pai, Seu Benedito de Amorim Brandão, exibia o esplendor dos tempos em que era moradia de sua numerosa família, antes de ela migrar para Santana dos Brejos, no início dos anos 70. O casarão estava fechado.
Aproveitei para visitar amigos dos meus pais. Nazinha estava na cozinha, preparando um arroz, e ficou nervosa, quando me viu entrando pela porta. Nazinha é o coração em pessoa. Não sabia se ficava ao fogão, ou se me oferecia uma cadeira, uma água. Acabou trazendo-me uma pinha doce, colhida em seu quintal. Dali, ela me levou à casa de D. Nice de Isaías Araújo. Em seguida, fui à casa de Chico de Menininha. Puro jardim à beira do Corrente.

Voltei a caminhar sozinho pelas ruas. E uma carga de emoção apoderou-se de mim, novamente, quando tomei uma ruazinha margeando o rio, de onde subi para a rua principal e fui dar na igrejinha de São Sebastião, o padroeiro do lugar. Calma e ternura por todo lado. Quase ninguém pelas ruas. Um senhor, sentado em um tamborete de madeira e encostado ao tronco de um oitizeiro, quebrava delicadamente o silêncio com o seu rádio de pilha posto sobre as pernas. Cumprimentou-me com tanta doçura.

Mais abaixo, uma velha de uns 90 anos enfiava, com destreza, a linha na agulha. Parei para ver a cena, e me perguntei se aquela linha não seria adestrada para entrar na agulha, pois que a senhora não usava óculos. Já perto do restaurante do Augusto para onde eu voltava, três senhoras e uma criança desfiavam uma conversa mansa, sentadas à sombra de uma algaroba. E só. Ninguém mais pelas ruas.

Dentro das casas, de onde exalava os cheiros bons das comidas ribeirinhas pelas chaminés prenhas de picumãs, ouvia-se apenas o silêncio, entrecortado por talheres mais afoitos e ruidosos. Já passava das 13 horas. E a fome apertou.

No restaurante de Augusto, encontrei Marcelinho de Lia de Pedrito me esperando com uma cerveja. O cheiro do tucunaré ia longe. Pedi um copo e ofereci cerveja a um meio-mulato de sol, espadaúdo, musculoso e baixo, de uns 45 anos, chamado Tácio. Ele quis saber se eu era de Salvador. Disse-lhe que era de Santana dos Brejos, mas que morava, em Brasília, há 30 anos.

Perguntou-me se eu era médico. Respondi-lhe que jornalista e compositor. Aí, ele saiu de fininho, com a sabedoria dos velhos sertanejos e, minutos depois, voltou, trazendo um violão e vários amigos. Pedi-lhes apenas uns minutos, enquanto saboreava a comida de Augusto. Eles já haviam almoçado, pois que, naquela beira de rio, em pleno sertão nordestino, almoça-se muito cedo.

O peixe servido por Augusto foi um acontecimento à parte. Aquele cabra pareceu-me um mágico na cozinha. O tucunaré era tucunaré e não uma invencionice gastronômica dessas que acabam virando um monstrengo sem gosto, nem personalidade. O peixe de Augusto estava preparado com a brandura dos entendidos: pouco tempero, pouco sal, o que fazia sobressair o sabor do peixe em postas sem ranço, sem aquele gosto barrento de alguns peixes de rio.

O pirão, uma tentação! Obviamente, que Augusto se prevaleceu da qualidade da farinha de mandioca bem torrada, parida nas farinhadas de Santana dos Brejos, para extrair dela o melhor sabor e a textura exata para o pirão. O arroz estava ligeiramente molhado e deixava sobressair pequenos pedaços de alho bem passado. A salada era simples: alface, tomate e cebola em rodelas.
O Corrente, ao lado, deslizava-se, fartamente, formando redemoinhos e desafiando uns meninos que pulavam em flecha dos galhos duma árvore à margem. Pouco à esquerda, via-se uma ilha plena de verde. Próximo ao restaurante, do outro lado da rua, num rancho sem paredes, alguém alheio a tudo dormia profundamente numa rede.

Nenhum carro, nenhuma moto, ninguém vendendo bugigangas importadas, nenhum barulho. Só o aparelho de som de Augusto dava um sinal sonoro, tocando Maria Bethania, bem baixinho, naquele mundo que os mapas turístico e socioeconômico não alcançam.

O que veio, após a última garfada, naquele ambiente delicadamente rude, foram o violão e os cantares. Cantei para eles composições minhas. Eles retribuíram, cantando trabalhos seus e de outros compositores. Saiu “A volta do boêmio” (Adelino Moreira), imortalizada na voz de Nelson Golçalves, e outras.

Porto Novo tem uma meia dúzia de ruas e uns 3 mil habitantes. É distrito de Santana dos Brejos e foi onde o Município nasceu. O Rio Corrente margeia a lugar e desemboca, no São Francisco, a uns 80 quilômetros dali, num povoado chamado Gameleira, Município de Sítio do Mato, pertinho de Bom Jesus da Lapa (BA).

Sempre desconfiei de que a ruazinha que surge do nada, em meus sonhos, há mais de 20 anos, fosse uma daquelas ruazinhas de Porto Novo.
Mais tarde, Tácio perguntou-me ao pé-de-ouvido: “Você vai escrever alguma coisa sobre Porto Novo? Eu fico com medo de Porto Novo ser descoberto, de isso aqui encher de gente e acabar a nossa paz”. Falou, como se desejasse que ninguém lesse este texto.

14.02.08

Permalink 08:50:46, por admin Email , 959 palavras, 277 views   Portuguese (BR)
Categoria: Coluna Aloísio Brandão

Homenagem

Monsenhor Félix de Souza deflagrou uma bela e conseqüente revolução pelo conhecimento e pela fé, no sertão baiano
Monsenhor Félix de Souza deflagrou uma bela e conseqüente revolução pelo conhecimento e pela fé, no sertão baiano

O exemplo de Monsenhor Félix


Pelo jornalista e compositor Aloísio Brandão.
E-mail aloísio.brandao@ig.com.br

Era uma manhã quente de um verão distante, pouco depois de uma chuva rápida. E, lá, ia ele, metido em sua batina preta e meio rota. Nunca ninguém o viu sem a batina. De repente, mergulhou numa pequena nuvem de borboletas amarelas (elas são uma tradução do sertão, à época das chuvas) e pareceu suspenso por elas, tamanha a sua leveza. Era o Monsenhor Félix Antunes de Souza. Ou apenas Monsenhor Félix para os santanenses. Foi o homem que deflagrou a mais bela, mais conseqüente e instigante revolução, em quase todo o Oeste da Bahia: a revolução pelo conhecimento e pela fé.

No dia sete de fevereiro de 2008, Monsenhor Félix morreu, em Salvador, aos 93 anos, vitima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e foi sepultado, no dia nove, numa cripta dentro da Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, onde ele celebrava as suas missas, às 6 da manhã, em Santana. Deixou um povo chorando e reflexivo sobre o tamanho da herança que recebeu dele.

Monsenhor Félix nasceu, em Remanso (BA), no dia dez de agosto de 1914, e se ordenou padre, em 1940, pelo Seminário de Diamantina (MG). Dois anos depois, chegou, em Santana (antes, chamada Santana dos Brejos), para assumir a Paróquia do Município. Encontrou, ali, uma gente com quase nenhuma escolaridade, meio tosca, carente de religião e rachada por facções políticas. Estava posto, então, o desafio gigantesco para aquele sacerdote de gestos parcimoniosos, de fala sussurrada e de uma humildade desconcertante. Começava, ali, também, a construção de sua vasta e funda obra. E ele soube ser o necessário oásis naquele deserto humano.

Em 1947, o Monsenhor criou uma escolinha primária. As aulas aconteciam, em casa do amigo Quincas Cardoso e, depois, em sua própria casa. Quatro anos depois, ele fundava o Colégio Sant'Ana, ginasial. Logo em seguida, deu um passo majestoso, criando a Escola Normal de Santana, caminho curto para a fundação do Educandário Diocesano Sant'Ana, que passou a oferecer, também, o curso de Técnico em Contabilidade.

Santana fora, assim, projetada como o grande pólo radiador de educação e cultura. Para lá, iam estudantes de toda a região, em busca da fonte pura do Monsenhor Félix. O grande suporte de sua obra, tanto do conhecimento, quanto a religiosa, foi a congregação Filhas de Fátima, da qual foi o co-fundador e orientador. Quem a fundou foi D. João Muniz, Bispo da Diocese da Barra à qual pertencia a Paróquia santanense. A organizada Congregação ganhou um grande convento e expandiu o trabalho do Monsenhor.

Ao longo dos anos, Monsenhor acumulou uma sólida cultura. Homem de vários idiomas e notório saber em várias áreas do conhecimento, era focado na essencialidade. Alertava para as ciladas armadas pelo consumismo, pelas coisas vãs e supérfluas, pelos modismos. A sua própria vida foi o exemplo do que pregava: detestava qualquer tipo de pompa, ostentação, bajulação. Era também um crítico mordaz do que entendia como capitalismo e comunismo opressores.

Os seus sermões eram acontecimentos plenos de sabedoria e fé. Como evocava e interpretava os filósofos gregos e os que vieram depois, inclusive os contemporâneos (ele era um sujeito atualizado), poetas, escritores e compositores brasileiros e de fora (de Drummond a Mallarmé, de Joyce a Machado, de Dylan a Chico), as suas pregações acabaram virando aulas. Mas onde quer que estivesse – pregando ou numa conversinha à porta do seu colégio ou na rua – jamais perdia a chance para reforçar que o homem tem que servir a Deus com humildade.

Monsenhor Félix deixa um patrimônio inestimável para o povo de Santana. Patrimônio imaterial que está plantado nos corações e nas cabeças das pessoas. Agora, os santanenses refletem sobre o tamanho da herança recebida, mas têm que se esforçar para multiplicá-la, sob pena de o patrimônio ser dilapidado. As suas palavras estão vivas e são caudalosas. Não podem secar, porque apontam o caminho do qual a população não deve sair: o amor.

Aquele Monsenhor que preferia ser chamado apenas de "padre", um dia, fora convidado pelo então Governador Roberto Santos a Palácio. E, desconfiado, tomou a sua velha Rural por estradas de terra de mil quilômetros rumo a Salvador. Quando chegou, foi surpreendido pelo Governador com uma homenagem sincera. Anos depois, em Brasília, Roberto, já deputado, me disse, após uma entrevista: "Que homem importante é o Monsenhor Félix".

Mas o sacerdote voltou para Santana do jeito que fora a Salvador: humilde e calado. Não fosse "A Tarde", poucos tomariam conhecimento da comenda recebida. E continuou a tocar a vida, como antes. Tímido, reservado, decidido, andava olhando para o chão e raramente dirigia o olhar a alguém. Mas quando o fazia, parecia alterar o ambiente e as pessoas. Levava livros à mão e lia, caminhando. As suas palavras são para ser vividas. Monsenhor é um verbo que se fez sabedoria e amor. Para muitos, virou um anjo. Um anjo particular dos santanenses. Foi mesmo um homem de Deus.

PS.: Sobre a manhã quente de um verão distante, não eram bem as borboletas amarelas que o suspendiam. Quem sabe, ele voava com as suas próprias asas.

26.01.08

Permalink 14:59:14, por admin Email , 350 palavras, 333 views   Portuguese (BR)
Categoria: Coluna Aloísio Brandão

MÚSICA / LITERATURA


Luhli canta e lança livro, na T-Bone

■ O compositor Aloísio Brandão participa do show da autora de “O Vira”, “Bandolero” e “Fala”, interpretadas por Ney Matogrosso.

A cantora, compositora e poeta Luhli é a convidada da T-Bone para comemorar os dez anos do projeto “Noite Cultural”, criado pela Casa. A carioca precoce e polivalente, que fazia dupla com Lucina e autora de mega-sucessos da MPB, a exemplo de “O Vira”, “Bandolero” e “Fala”, lançará o seu livro “Conversa Rimada” e fará um show, no dia 31.01.08 (quinta-feira), a partir das 20 horas, no Açougue T-Bone, na 312 Norte. Luhli, que ganhou um “h” em seu nome, vai dividir o palco com o parceiro brasiliense, o cantor-compositor Aloísio Brandão. A entrada é gratuita.
Luhli é um nome consolidado na composição brasileira. Tem músicas gravadas por Nana Caymmi, Joyce, Wanderléa, Tetê Espíndola, Rolando Boldrim, Zélia Duncan e principalmente Ney Matogrosso, que deu voz a 13 sucessos da compositora, como "O Vira", "Fala", "Pedra de Rio", "Aqui e agora", "De Marte", "Êta nóis!", "Me rói", "Coração Aprisionado”, "Chance de Aladim", "Bugre” e, ainda, "Napoleão" e "Bandolero".
Em sua discografia, há sete títulos em parceria com Lucina. A dupla Luli & Lucina assina diversas composições no repertório de cantores de renome. Sobre o livro “Conversa Rimada”, é um trabalho conjunto de Luli e do poeta carioca Felipe Cerquize, que também participará do lançamento.

ALOÍSIO BRANDÃO – Convidado por Luhli, o cantor, compositor e violonista Aloísio Brandão é o autor de músicas e letras instigantes e inventivas. Parceiro de Luhli, desde 1988 (a última composição dos dois é do início deste ano e se chama “Nascendo”), Brandão é sertanejo do interior da Bahia e, há 28 anos, mora, em Brasília, onde também atua como jornalista. A sua arte traz recursos da experimentação, frutos de elementos da cultura interiorana com a confrontação urbana, coisa que ele faz com extrema personalidade. Ver os dois parceiros juntos, no palco, é um presente da boa música brasileira ao público.

12.08.07

Permalink 18:54:11, por admin Email , 939 palavras, 539 views   Portuguese (BR)
Categoria: Coluna Aloísio Brandão

O homem com violões na alma

Músico do sertão baiano, Seu Expedito descobriu a luthieria com quase 80 anos de idade. “Não consigo mais parar de fazer instrumentos, mesmo que não venda nenhum”, explica ele.
Músico do sertão baiano, Seu Expedito descobriu a luthieria com quase 80 anos de idade. “Não consigo mais parar de fazer instrumentos, mesmo que não venda nenhum”, explica ele.


Pelo jornalista, escritor e compositor santanense Aloísio Brandão.

A casa, toda verde-cana, é de uma simplicidade comovente e fica numa rua pacata, de movimento quase nenhum, em Santana dos Brejos, Município de 25 mil habitantes, em pleno sertão da Bahia, região do Oeste do Estado, no Médio São Francisco. Ninguém pode imaginar que, dentro daquela casinha que mais parece ter se desgrudado dum quadro de Volpi, a música faz sua morada com extrema humildade.

É quase meio-dia de um domingo (29.07.07). Estou acompanhado do amigo Beto de Agenor, que, no meio do caminho, entra num barzinho para tomar um copo de cerveja “e refrescar o couro das tripas”. O silêncio da rua é gritante, quebrado apenas pelo som dos cascos de um cavalo sobre o calçamento a paralelepípedo.

O bicho vai numa grande pachorra e o cavaleiro, penso para um lado, cantarola, feliz e baixinho, algo incompreensível, deixando claro que não tem pressa alguma pra chegar a lugar nenhum e que mais nada, no mundo, lhe interessa, além de viver aquele momento.

O cavaleiro passa. A casa que procuro está fechada. Três vizinhas, na calçada, falam sobre coisas de cozinha, quando eu pergunto: “Vocês sabem se Seu Expedito está”? Uma delas chega o ouvido à porta e me convida: “Está, aí, sim. Ouça a música de sua clarineta”. Beto de Agenor confirma a presença do homem.

O que vem da clarineta, lá de dentro da casa, é uma seqüência de colcheias, como se o músico fizesse um exercício em escala maior. Mas poderia ser um jazz, uma polca, um choro, uma valsa. O volume é baixo. Bati à porta e uma das mulheres reforça o meu gesto, tocando o vidro da janela. Alguém abre um arremedo de cortina e expõe difusamente o rosto. Dá para ver os olhos ligeiramente azulados cravados no rosto meio mulato. É Seu Expedito, um poço de música e de vida.

Santanense do povoado de Porto Novo, a 40 quilômetros da cidade do Município, Expedito Luiz Ferreira nasceu a 29 de dezembro de 1928. Criou-se, em Santa Maria da Vitória, cidade vizinha a Santana dos Brejos. Ali, estudou música com o maestro Joaquim Lisboa e integrou, como trombonista, entre 1947 e 1952, a Filarmônica Lira da Vitória, regida pelo mesmo Lisboa.

Depois, veio para Santana dos Brejos, a convite do também maestro e clarinetista Colimério Joaquim dos Reis (o Seu Coli), meu avô, para fazer parte da Filarmônica Vinte e Dois de Julho. Ficou pouco tempo. É o único sobrevivente do grupo liderado pelo velho Coli.

Daí, Seu Expedito ganhou o mundo como um globe-trotter. Morou, no Distrito Federal e por aí. Foi sapateiro, jogador de futebol, seleiro, fotógrafo, soldador, chaveiro, escultor, até que, há uns cinco anos, já com mais de 70 anos, descobriu a luthieria, a delicada arte de fabricar instrumentos. Aliás, ele sequer sabia que este é o nome dado para designar tal especialização.

Seu Expedito escolheu Santana dos Brejos para morar, em maio de 2007, retornando às suas origens. O nosso luthier santanense constrói, de forma artesanal (usa apenas a faca, o formão, o martelo, a plaina, o serrote etc.), violões, cavaquinhos, banjos, guitarras e outros instrumentos. No silêncio de sua casa, ele vai fazendo o que mais lhe dá prazer, hoje em dia: aquilo que faz virar música.

Ninguém, em Santana dos Brejos, ainda comprou um único instrumento de Seu Expedito. Talvez, porque nem saiba de sua existência, na cidade. Mas ele não tem pressa de reconhecimento, nem de vender os seus produtos. Contudo, perde quem ainda não foi visitá-lo. É importante estar perto de quem lida com esta arte – e qualquer outra -, principalmente, quando o construtor é, ele próprio, um bom músico, que pode presentear o visitante com a execução de uma bela valsa. E a conversa, é claro, vai girar em torno da música, do instrumento, da vida.

É certo, também, que Seu Expedito passa por alguns apertos. Às vezes, falta-lhe dinheiro para comprar as madeiras de que precisa, todas elas muito caras e trazidas de fora, como o jacarandá e as lâminas de pinho. Mas ele não se intimida. “Mesmo que ninguém nunca venha a comprar um violão meu, jamais irei parar de construir instrumentos”, diz Seu Expedito, com incrível singeleza e um riso pequeno de canto de boca. “Eu faço instrumentos, porque não posso parar de fazer”, complementa.

Quem for àquela casinha verde-cana, em Santana dos Brejos, não sairá dali a mesma pessoa. O mergulho no universo da música, quer enquanto luthieria, quer para ouvir Seu Expedito tocar clarineta e violão, ou mesmo para apenas vê-lo contar histórias de suas aventuras pelo mundo, amacia a alma e engrandece.

É como se o artista, vindo lá do fundo de um poço de pacatez, envolvesse o peito do visitante com um ungüento de ternura e paz, e encharcasse a sua cabeça de leveza. Seu Expedito é desses homens desinteressados, movido pelo mesmo espírito que anima os artistas, além do desejo de edificar algo melhor em sua comunidade, livrando-a das frivolidades, das bestialidades. Para Santana dos Brejos, deve ser um orgulho abrigar o homem com violões na alma.

Aloísio Brandão é o mais novo colaborador deste blog.

Projetos Culturais T-Bone

Este BLOG é um espaço aberto aos amigos convidados pela T-Bone para publicar seus textos de temas livres, além das notícias do dia-a-dia da ONG. Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo publicado. Boa leitura! Luiz Amorim

Setembro 2010
Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
 << <   > >>
      1 2 3 4
5 6 7 8 9 10 11
12 13 14 15 16 17 18
19 20 21 22 23 24 25
26 27 28 29 30    

Busca

Quem está online?

  • Outros usuários: 1