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Lua cheia
Por Luiz Martins da Silva
Para Luiz Amorim, grande lunático.
Hoje estou com a bola cheia,
Sorte que também é sua.
Mas, basta olhar para o céu,
Para ser dono da Lua?
Que beleza espantosa!
Que abismo de ironia!
O tanto que és luminosa,
És de juízo, vazia.
Dizem que a Lua serve,
Para dar um prumo ao mundo:
Cabelos, marés, estações...
E até rimas aos corações.
Mas que tenhas serventia,
Além do culto profano,
De malandro pra vadia
Viver dizendo eu te amo.
Lua, deixa de ser tonta,
Traze mais que nota à lira,
Pois loucos, poetas e ébrios,
Também pagam suas contas.
Roda de Samsara ( * )
No meu tempo de menino,
Cachorro era cachorro
E menino um pouco mais.
Cachorro doente era lixo;
Menino, entre os animais.
Hoje, todo mundo é gente,
Uns mais gente que os outros.
Agora, que bicho sente,
Tem direito até a astrólogo,
Clínica e pronto socorro.
Um poeta laureado ( ** ),
Mas que já saiu de cena,
Escreveu lindo poema
Sobre o céu dos animais,
Onde repousam suas almas.
Importante é quem se ama,
Pois todos iremos um dia,
Seja gente, planta ou bicho,
(Para todos há um nicho)
No céu dos céus, o Nirvana.
Luiz Martins da Silva
* Samsara – segundo o Dicionário Houais:
2 Rubrica: filosofia, religião.
no budismo, série ininterrupta de mutações a que a vida é submetida, espécie de ronda infernal de que o indivíduo só se liberta quando alcança o nirvana
** James Dickey (1923-1997) norte-americano – dele já traduzi e publiquei (na revista Bric-à-Brac) o seu O céu dos animais.
A ave una
Sempre desejei falar de uma visão,
Mas quanta ignorância a minha!
Sei somente que era uma ave marinha
Por algum desígnio pousada em minha visão.
Viajava num barco apinhado
E eu era o único besta a olhar
Um ponto, aos poucos ampliado,
Até à vista geral se apresentar.
Ninguém deu a mínima para a figura
Balouçante em mar de calmaria,
Obra do Artista anônimo em escultura,
Viva manifestação de sua Poesia.
Horas a fio, inerte, oscilando sobre uma bóia.
Ou era eu mesmo transmigrado em outra Idéia?
Luiz Martins da Silva
Brevidades
[de adolescência]
Vita brevis ars longa
Sim, sabia,
Tanto quanto o sabiá sabia
Dançar tango,
Mas nesse corre
Não
Assim, já é demais.
Que seja muita vela
Enquanto espuma para
O meu casquinho, mas
O marinheiro quer
Muito mais
Mar
Navegar
Nem que seja sobre
Espelhos
Índigos oceanos de dois olhos
Que não me davam paisagem.
Estreitas paragens que não viram
O quanto eu (precocemente) me fiz homem ao mar...
Entre rochedos,
Mas...
Por mais esguia que seja
A tormenta
Das vidas que a vida têm muito
Pouco,
Muito pouco, somente um
Estalo de pipoca,
Tão fugaz quanto se foram as tardes
De domingo no parque
Tanto que nem consigo saber
Em qual das minhas infâncias me afoguei.
Na seção de tiros um único [em ti] acertei,
Mas a prenda era tão insignificante que por pouco não
Aprendi com
Tanto amor que dizias ter
Aliás, mais para ensinar do que para
Dar.
Se bem que tu mesma me roubaste:
“Ulysses, não sou Penélope...”
Mas...
Valeu
Luiz Martins da Silva
Escandalosos crepúsculos ( * )
Amo sertões e veredas,
Aos brados reverencio
Profundas brenhas da América
Fazendo nascer grandes rios
Enigma destas paragens
Que, em ânsias de infinito,
Cruzam no mesmo horizonte
Céu, Terra, Água, Fogo e mito.
Ah! Se por aqui houvera
Passados os olhos de Whitman
A recontar do Universo
Luxúrias em grandes escritos!
Quanta coisa a enumerar
Para compor um poema
Dos leques do buriti
À flor da canela-de-ema.
Mas quando cheguei por aqui,
Mesmo sabendo parlendas,
Não é que me enamorei
De estranha flor do cerrado?
E agora relendo passados,
De toda essa gente heróica,
Candangos, paus-de-arara,
Corridos das secas do ‘Norte’
Verei meus filhos crescidos,
Mas sem haver de inferir
Quanta estrada para um homem
Até se arranchar por aqui.
Quanto verso e quanta prosa
A desvendar destes céus
De dia, escassez de nuvens;
De noite, perfumes de flora.
Mas só pra quem vive de ocaso,
Patético semblante de louco,
Aparece lua branda de um lado;
E um disco laranja do outro.
Luiz Martins da Silva
* Dedico este poema-mosaico [antigo, mas reescrito] a tantos artistas amigos que têm, sem saber, feito em conjunto um único texto-mito (mitopema?) deste outrora sertão Centro-Oeste e que nestes versos irão flagrar alguma citação de seus estilos próprios.
Ora, valho uma nota de mil;
Ora, nem barro de porco.
Às vezes, sou reles e vil;
Às vezes, sou mesmo louco.
Avesso
Luiz Martins da Silva
Súplica
Todo dia, a petição,
Todo dia, o lero-lero.
Afinal, por que não dão
O que tanto pede o quero-quero?
Luiz Martins da Silva
Sentimento cerrado
Guardarei para sempre indelével aonde for
Estas patéticas paisagens tingidas de crepúsculos,
Estas noites agônicas de brisas vindas da Lua
E tão somente a nos proteger lassos orvalhos
Que logo desfalecem face à aparição de luz maior.
Ele, heliocêntrico, retinto, rútilo disco faraônico
Não tolera nuvens no seu salão azul de audiências,
Onde impõe cegueiras de narinas ressequidas,
Alérgicas à profusão de invisíveis cepas de rarefeitos pólens,
Mas ótimos para pintura corporal de seriemas e calangos.
E eis que surgem, tímidos, em meio à savana,
Aqui, acolá, um lobo, um anum, um carcará,
Cada um saiba de si, no sufoco, araçá, jenipapo, graviola, murici.
Aqui, acolá, num torto galho, ipês roxos e amarelos
E as esquálidas, mas elegantes se floridas, canelas-de-ema.
São, assim, silvestres estilos metamórficos todo o ano
Até virar folinhas desidratadas alimentando labaredas
A lamber vastidões na missão de estourar esporos
Que ao primeiro cio da terra se desdobram em rebentos.
Ramagens novas: sucupiras, quaresmeiras, guarirobas, caliandras.
Guardarei para sempre este cinema que me faz interior,
Alma de solo calcinado cor pó de cimento,
Que à primeira chuva se exagera na oferta de aromas,
Por todos os lados brotações de mimos,
É quando a pretexto de cajuzinhos a campo saímos
Feito bichos ainda há pouco escondidos em troncos queimados,
Tudo que era cinzas muda de pele para novos encontros.
É a vida, de novo colibri, sabiá, bem-te-vi, serigüela, cajá-manga,
Alaridos de convites. É a natureza musical dos amantes.
E o deserto? Redimindo-se em promessas de aguaceiros e torrentes.
Luiz Martins da Silva
Tempo de seca,
Ar rarefeito.
Nos pára-brisas
Dramático apelo.
“Lave-me!”
Luiz Martins Silva
jornalista e professor do Departamento de Jornalismo da UnB
Este BLOG é um espaço aberto aos amigos convidados pela T-Bone para publicar seus textos de temas livres, além das notícias do dia-a-dia da ONG. Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo publicado. Boa leitura! Luiz Amorim
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