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Roda de Samsara ( * )
No meu tempo de menino,
Cachorro era cachorro
E menino um pouco mais.
Cachorro doente era lixo;
Menino, entre os animais.
Hoje, todo mundo é gente,
Uns mais gente que os outros.
Agora, que bicho sente,
Tem direito até a astrólogo,
Clínica e pronto socorro.
Um poeta laureado ( ** ),
Mas que já saiu de cena,
Escreveu lindo poema
Sobre o céu dos animais,
Onde repousam suas almas.
Importante é quem se ama,
Pois todos iremos um dia,
Seja gente, planta ou bicho,
(Para todos há um nicho)
No céu dos céus, o Nirvana.
Luiz Martins da Silva
* Samsara – segundo o Dicionário Houais:
2 Rubrica: filosofia, religião.
no budismo, série ininterrupta de mutações a que a vida é submetida, espécie de ronda infernal de que o indivíduo só se liberta quando alcança o nirvana
** James Dickey (1923-1997) norte-americano – dele já traduzi e publiquei (na revista Bric-à-Brac) o seu O céu dos animais.
Tanto mar
De frente para o espelho, fazendo um nó na canga de praia, lembro-me: enrolei um sarongue no corpo e fui ao carnaval. Ou seria sarong? Não estou certa, sei que é um pano de vestir típico de algumas regiões da Oceania e, inspirado nele, fiz um dia uma fantasia e fui ao baile. O que encanta no carnaval são as infinitas possibilidades. Poder pintar-se, mascarar-se, desnudar-se. Poder brilhar, brilhar, brilhar.
Vozes cantando em uníssono espantam os pensamentos. Corro à varanda e vejo as costas molhadas dos soldados marchando e cantando no asfalto, na chuva que encobre a barra do tempo, no encontro entre céu e mar. Esse verso é recorrente, penso, como recorrente é o mar em meu coração. Ouvir seu barulho é assossegar, corpo e espírito totalmente harmônicos. Olho de novo, e estiara. Um frígido sol por entre as nuvens ilumina a praia. A barra ainda é escura, mas está clareando, penso.
“Tanto mar, tanto mar,
sei também quanto é preciso, pá,
navegar, navegar…”
Vem-me à memória a canção de Chico Buarque, o compositor carioca. Porque será que o mar emociona? Pergunto-me. Pela grandiosidade. Pela infinita beleza. E por poder ao vê-lo sonhar, como o faço agora a perder o olhar ao longe no horizonte onde o mar é mais distante.
Sarongue - segundo o Dicionário Aurélio, pedaço de tecido, ordinariamente de cores vivas, usado sobretudo pelas mulheres dalgumas regiões da Oceânia para cobrir o tronco e a parte superior das coxas.
Por Amneres
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