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Clodo Ferreira é o homenageado do Projeto Bibliomúsica 2010
Criado há 15 anos, o Projeto Bibliomúsica da Biblioteca Demonstrativa de Brasília (W/3-Sul, EQ. 506/7) presta homenagem ao compositor Clodo Ferreira no dia 29 de março (2ª feira), às 19h30. Da programação constam: exposição sobre o homenageado e show musical com o artista e sua banda, formada pelos músicos NELSINHO SERRA (cavaquinho); FELIPE PESSOA (7 cordas), JOÃO FERREIRA (arranjos e violão) e PEDRO FERREIRA (percussão). Será cobrado ingresso no valor de R$ 20,00 e R$ 10,00 (estudantes e idosos). A indicação de faixa etária para o evento é livre.
Contamos com a presença de todos!
Mais informações: 61 3244-3015 / 3443-5682
No aniversário da capital do Brasil, brasileiros e estrangeiros têm a chance de enviar frases para homenagear as belezas de Brasília e declarar a sua grande história de amor pela capital do Brasil. As melhores frases farão parte do livro “Brasília Vale Ouro”, a ser editado por empresa privada, com apoio institucional da Associação Comercial do Distrito Federal (ACDF).
Para participar do concurso “Brasília Vale Ouro”, o internauta deve acessar o hot site www.brasiliavaleouro.com.br e criar uma frase em homenagem à Brasília e clicar em enviar. O concurso vai até 21 de abril de 2010.
Brasiliavaleouro.com.br
Os reiseiros cabisbaixos
Por Aloísio Brandão,
compositor e jornalista.
(aloisio.brandao@ig.com.br)
Choveu – e choveu muito – entre o Natal de 2009 e o Ano Novo, em Santana dos Brejos, sertão e oeste da Bahia. Sertanejo que é sertanejo ri, de orelha a orelha; chora de emoção e até arrisca versos e cantos, diante de uma chuva boa. Havia uma alegria contagiante, no Município, no fim do ano, porque a chuva era abundante; as aguadas para o gado, fartas; o pasto e as plantações, verdes e crescidos. Ninguém se importaria, caso a chuva não desse uma trégua, à noite, durante os festejos do réveillon, quando uma queima de fogos e um trio elétrico a plenos decibéis agitariam os santanenses que lotam o Calçadão, no centro da cidade.
Mas eis que, lá pelas 15 horas, o céu se abriu, e o fim da tarde chegou com a mansidão brejeira de sempre, e uns pálidos lilases enfeitavam as bordas das nuvens que insistiam em não se dissipar. Então, meu irmão, César, e eu fomos dar um passeio de carro com nosso pai, Seu Benedito, por bairros mais distantes da pequena cidade.
Do alto dos seus 98 anos, papai não perdeu o vigor, nem a lucidez. E não aceita ficar à margem do que acontece, no Município. Quer ver a escola em construção, o calçamento novo no bairro mais afastado, a ponte ainda no alicerce. Questiona tudo, faz comentários e jamais deixa de manifestar o seu otimismo em relação ao lugar. Naquela tardinha, aproveitamos para visitar amigos e lhes dar um abraço de Ano Novo.
Meu irmão, ao volante, tomou o rumo do Bairro São José, onde um Cruzeiro em frente à casa em ruínas do velho Otacílio expõe-se como o que, ainda, resta de um tempo de bonança. Ouvíamos, no toca-cd do carro, um disco de Nelson Gonçalves. Ouvir Nelsão é um passo para a boa emoção e para desencavar velhas lembranças da infância.
Criei-me, saboreando pérolas musicais vindas dos alto-falantes que varavam o céu, entravam pelas casas, encharcavam toda a cidade de uma doçura indescritível. Um deles era o “Serviço de Alto-falante A Voz Record” (com quatro potentes projetores por toda a cidade, como fazia questão de frisar a apresentadora Nicinha de Lê, a mulher com penas de beija-flor na garganta).
Ou o alto-falante das “Casas a Vencedora”, liderado pelo meu então professor de inglês Vilmar de Souza, hoje, um homem devotado ao estudo da história do Município. Vilmar apresentava o inesquecível “Saladinha de Sucessos”. Já o “Serviço de Alto-falante Santo Antônio”, pertencente ao Posto de Gasolina Santo Antônio, trazia um programa matinal cujo apresentador, Tõe de Doão, diariamente, tocava a bela “Normalista” (Benedito Lacerda e David Nasser). Nelson Gonçalves, portanto, era obrigatório, em Santana dos Brejos.
Voltando ao nosso passeio de fim de tarde, lá fomos nós visitar Maria, a empregada de nossa casa, aposentada há uns 15 anos, mas uma presença forte entre nós. Na volta, ouvi, de longe, pela fresta da janela do carro, a inconfundível música dos reiseiros santanneses. Pedi ao meu irmão que parasse o carro. Andei uns 50 metros, até alcançar-lhes à entrada de uma casa.
Manifestação das mais puras e intensas de Santana dos Brejos de outros tempos, aquele grupo de reiseiros, naquela tarde, porém, trazia alguma melancolia que, no início, eu não percebi, mas, depois, os minutos me fizeram reparar. Daí, a descobrir a sua origem, foi um triz. A ponta de tristeza vinha da indiferença a eles dispensada pelas pessoas.
Alegres, os resiseiros saem pelas casas da cidade ou dos povoados distantes, durante os nove dias que antecedem a sua data máxima, 6 de Janeiro, levando a sua folia. Mas o coração das pessoas daquela ruazinha já não parecia mais ser tocado pela música daquele grupo.
Meio acabrunhado, o grupo era de não mais que oito pobres homens solitários e de mãos calejadas pelo trabalho honrado, no campo, que, naquela rua distante e sossegada, ao fim daquela tarde do último dia de 2009, tocavam os seus instrumentos de fabricação caseira (pífaros de tabocas, tambores, maracás, reco-recos, ganzás) e cantavam para ninguém.
Ninguém os seguia, como em outros tempos. À porta de algumas casas, já não havia o corre-corre feliz que animava a chegada dos reiseiros, em tempos não tão distantes. Tão agitadas eram as suas chegadas às casas que eles mal conseguiam tomar as salas e se postar diante das lapinhas, onde iniciavam os seus catares e tocares. Aquele grupo que vi, na ruazinha do bairro distante, na tarde de 31 de dezembro de 2009, saiu de algumas casas do jeito que entrou: cabisbaixo, abatido, como se não conseguisse romper a cerca de indiferença que se formou diante de si.
Passei o resto da noite com aqueles homens na cabeça. Evoquei cenas de minha infância, quando uma multidão os acompanharia, dividindo com eles o canto, enquanto os donos das casas fariam as honras e serviriam comida e bebida, fartamente, como manda a boa tradição. E fui formando um bolo de questionamentos, como: que futuro aguarda a Folia de Reis, em Santana dos Brejos? Os reiseiros conseguirão tirar forças de seu próprio desalento para sobreviver?
As perguntas não são sem sentido. Outras manifestações santanenses, como os Caboclinhos, foram empurradas para o mesmo precipício onde estão soterradas outras manifestações folclóricas e culturais, como a representação da luta entre Católicos e Mouros, que contava com a liderança intrépida de Jaime Vilas Boas, nos anos 60 e 70. Não pode ser este o mesmo destino dos reiseiros.
O fenômeno que impõe uma distância abismal no tempo que nos separa de nossa própria cultura é universal, ressalte-se. Registre-se o esforço, em alguns Municípios brasileiros, envolvendo população, poder público e organizações não-governamentais, com o objetivo de manter vivas as manifestações folclóricas locais. Sabem as populações desses lugares que se o seu passado for soterrado, elas ficarão sem futuro.
Eu cresci, em Santana dos Brejos, acompanhando os grupos de Reis do povoado do Tabuleirinho e da Rua das Pedras. Andava longas distâncias (às vezes, de um povoado para o outro), dançando, cantando e tocando tambor com eles, bebendo de sua sabedoria e de sua cultura. Era uma alegria chegar à porta de uma casa e vê-los felizes, sendo recepcionados pelos moradores e seus vizinhos. E, num passe de mágica, a casa inteira, da porta da frente ao quintal, estava lotada de gente alegre.
Ali, estava a alma pura e viva de um povo, manifestada em sua cultura e levada ao máximo da alegria. O canto dos reiseiros é o cordão umbilical que os liga ao seu ventre cultural, à sua raiz ancestral. Se esse cordão for rompido, um vácuo se formará, deixando em seu lugar nada, além de um vazio doloroso.
Festa religiosa de origem portuguesa que ancorou, no Brasil, no século XVIII, a Folia de Reis tem uma natureza religiosa, além de certa voltagem lúdica. Está associada, na tradição católica, à passagem bíblica em que Jesus foi visitado pelos Reis Magos Melchior, Baltazar e Gaspar.
Tratar esses homens (as mulheres não integram grupos de Reis, mas apenas acompanham os maridos, de perto) de “bando de desocupados” ou de “cachaceiros” é de uma grosseria abominável. Pelo contrário, os que assim entendem deveriam curvar-se diante de um grupo de reiseiros, em sinal de respeito à cultura que ele transporta e transfere, há mais de um século, de pai para filho, num processo delicado, como se todos eles estivessem coletivamente prenhes de um filho amado. E estão mesmo grávidos, mas de cultura. E mais: todos deveriam abrir-lhes a porta e o coração, porque é a vida que vai entrar, ali. Ora, cultura é vida.
Este BLOG é um espaço aberto aos amigos convidados pela T-Bone para publicar seus textos de temas livres, além das notícias do dia-a-dia da ONG. Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo publicado. Boa leitura! Luiz Amorim
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