Crônica

12.09.09

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Categoria: Coluna Aloísio Brandão

Crônica

A loja de memórias de Seu Vivaldo

Pelo jornalista e compositor Aloísio Brandão.
E-mail: aloisio.brandao@ig.com.br

Eu estava a caminho do povoado do Areão de Cima, para o lado oeste e a cinco quilômetros da cidade de Santana dos Brejos. Embora Julho (de 2009), quando, de dia, as temperaturas são mais amenas, eu precisava apressar o passo, para voltar com o sol ainda brando e vencer, com relativo conforto, os 14 quilômetros que teria de caminhada pela frente. Mas o sol de Julho deste ano foi implacável. Depois das 9 horas, o calor cáustico fazia lembrar dezembro e janeiro, quando a temperatura, lá, passa facilmente dos 40º. Não se anda, em Santana dos Brejos, sem que se encontre um amigo, em cada esquina. Ou um anjo, como disse o poeta Vicente Sá, quando passava uns dias de férias, lá, em minha casa. De sorte que eu havia tomado a Rua das Canelas, já avistando a estrada que vai para o Areão de Cima, quando percebi que passava em frente à Loja de Seu Vivaldo. Impossível não entrar para cumprimentá-lo. É a loja de memórias.

O estabelecimento é uma herança do seu pai, Seu Pompílio Pereira de Novaes. Floresceu, nas décadas de 50, 60 e foi uma das mais importantes no gênero de tecidos da Rua das Canelas, quiçá não o fosse de toda a Santana dos Brejos que, àquele tempo, ainda não tinha se espichado para os lados leste e norte. Vendia, também, aviamentos e ferramentas para carpinteiros, marceneiros e pedreiros.

A pequena cidade, localizada no Oeste da Bahia, mais precisamente na região do Médio São Francisco, a quase mil quilômetros de Salvador, teve um comércio de tecidos movimentado, dadas as proporções. Costureiras e alfaiates não davam conta dos pedidos. Todas as roupas eram confeccionadas, ali.

A Loja de Seu Pompílio, de duas portas altas e verdes e de balcão largo, de madeira de lei, não tinha lá uma grande profundidade. Uma porta lateral à esquerda dava para o corredor principal de sua residência, o que trazia a intimidade doméstica para a lida.

Mas veio a era das confecções industriais. Foi quando as calças jeans arrancaram as peças de brim caqui das lojas e das alfaiatarias, de onde foram expulsos, também, os finos linhos Pérola, que eram abrigados com arte pelas mãos hábeis dos alfaiates santanenses. Em seguida, veio outra onda mais avassaladora: a que trouxe os produtos chineses a preços de banana, não se lhes importando a qualidade. A esta onda, bem mais recente e devastadora, saliente-se, não se pode atribuir a derrocada do negócio de Seu Pompílio.

Fustigadas pelo novo nicho de mercado, as bem-sucedidas lojas de tecidos de Santana dos Brejos de outrora, uma a uma, fecharam as suas portas, restando umas poucas e resistentes, como o velho pajeú imponente que vê a cidade do alto (lá, à beira de um pequeno tanque de barro para dar de beber ao gado, na roça do velho Alípio, e à margem da estrada por onde eu iria passar, minutos depois). O pajeú parece impassível diante do tempo, mas, em verdade, já se ressente do movimento de carros e motos a metros dos seus pés.

De sorte que a loja de Seu Pompílio curvou-se diante do que lhe reservara o destino, e não lhe restou outra coisa, além de... Fechar as portas? Não! Isso, não. Jamais, ao longo de mais de 60 anos, teve as suas portas fechadas, num único e desafortunado dia que fosse, ainda que as suas prateleiras vazias já não abrigassem um fiapo de linho sequer.

A loja está, lá, do mesmo jeito e impávida, diante do tempo, alheia à tribulação progressista que sacode o pequeno centro comercial de Santana dos Brejos.

O filho de Seu Pompílio, Vivaldo, assumiu o controle do negócio, com a morte do pai, e, indefectível, passou a tocar a loja. Abre-a, no horário comercial, sem atraso, como se, febril, acordasse em outra dimensão, em outro tempo.

Mas o que vende a loja de Seu Vivaldo, se aquelas prateleiras de madeira encontram-se completamente vazias? O que existe, ali, de uns 20 anos para cá, são apenas um homem pleno de ternura e o vão. Um vão que, ressalte-se, cobriu de profundidade o pouco profundo quadrilátero da loja, em seus tempos de bonança. Portanto, não há nada a se vender, ali. Absolutamente, nada.

Nada mesmo? Não, de jeito nenhum. Algumas pessoas é que não conseguem enxergar o invisível que anima as suas prateleiras. A Loja de Seu Vivaldo, agora, vende memórias. As contas, ali, são feitas à luz de uma matemática inexata que faz com que adquirir e oferecer sejam a mesma coisa e vice-versa. Todos saem dali com as “mercadorias” na memória do coração, na cabeça.

Quer ouvir uma boa história da cidade e dos povoados mais longínquos de Santana dos Brejos? Quer apenas trocar pensamentos, telepaticamente? Quer rir, de orelha a orelha, com um caso bem contado? Ou apenas dar um cochilo, após o almoço, numa tarde escaldante, no balcão largo e acolhedor duma loja que transcendeu ao tempo, ao lugar, ao homem? Então, vá à Loja de Seu Vivaldo. Mas uma advertência: não leve dinheiro, pois que este, lá, não vale nada.

Incansável, sentado do lado de dentro do balcão e invariavelmente bem vestido, Seu Vivaldo, agora, já não tem pressa de fazer girar o seu capital, não tem medo de uma nova onda fabril soterrar a sua mercadoria, nem receio de que o ar oxide os seus produtos, ou de o tempo envelhecê-los. As suas mercadorias ficaram encantadas e já não gritam mais por tesouras e agulhas.

Quando estive, na loja de Seu Vivaldo, em Julho de 2009, saí com os olhos marejados, quando ele me disse: “Aloísio, seu pai, Seu Benedito de Amorim Brandão, é um dos homens mais honestos de Santana dos Brejos”. E contou histórias suas. Despedi-me, certo de estar levando as melhores mercadorias.

E quando saí da loja (e olha que não demorei tanto assim), senti o bafo quente do sol. Mas resolvi encarar a caminhada interrompida, e segui adiante. Meu coração firmara outro compromisso comigo: o de tomar aquela estrada que eu via à frente, chegar ao Areão de Cima e, dali, mergulhar à direita numa estradinha de carro de boi abandonada, onde não passa ninguém, absolutamente, ninguém.

A estradinha possui cerca de cinco quilômetros da mais transformadora e doce solidão. Tenho a sensação de que ela seja exclusivamente minha, e que ninguém a conhece, ninguém jamais pôs os pés, ali. Andar nela é criar uma hora boa para compor, para rezar, para pensar nas pessoas que amo. Um dia, ainda levo aquela estradinha abandonada para casa. Será que ela existe mesmo?

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