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Crônica de Brasília XXIX
Um dia desses, o poeta Nicolas Behr deu-me uma flor retirada de uma linda árvore plantada em seu jardim. Pediu-me para amassar suas pétalas e aspirar-lhe o cheiro. Imediatamente, um aroma forte e doce espalhou-se pelo ar. Essa é a Chanel, disse-me o querido poeta e dublê de botânico. É com essa flor que os franceses fazem o Chanel nº 5, um clássico da perfumaria universal, penso, deitada na cama a ouvir no rádio a música-tema do filme Don Juan DeMarco, com o igualmente clássico ator norte-americano Marlon Brando.
O que mais me impressionou no filme foi a permanência do poder de sedução do inesquecível ator de filmes como Último Tango em Paris e O Poderoso Chefão. Com mais de 70 anos e mais de cem quilos, é Brando quem rouba a cena e arrebata nossos corações, absolutamente irresistível no papel do velho e romântico psiquiatra Jack Mickler. E olhe que ele contracena com ninguém menos do que Johnny Depp, considerado um dos mais belos e talentosos atores da atualidade.
Fazer arte é fazer sonhar, penso, de olhos fechados, revendo de memória a última cena do filme, em que Brando dança com sua mulher, interpretada por Faye Dunaway. Quando a tela escurece, a gente tem vontade de sair dançando pela vida afora, em estado de êxtase. Eu sempre tive essa sede de arte, no fundo, penso hoje, um desejo de sonhar permanentemente. Em Brasília, na década de 80, eu dividia meu tempo entre a UnB e a busca pela chama da arte, estivesse onde estivesse. Foi assim que assisti de perto a movimentos como o Concerto Cabeças, uma espécie de happenning ao ar livre que acontecia aos domingos, nos gramados da 311 sul, e reunia música, poesia, dança, pintura, teatro e circo.
Foi por essa época que conheci o poeta Nicolas Behr, ícone da chamada poesia marginal, que está para a poesia de Brasília como Renato Russo está para o rock candango. Ambos fizeram escola na cidade. Pois bem, ontem, eu e Nicolas, junto com o também poeta Luís Turiba - editor da histórica Bric-a-Brac, revista que sacudiu a cena cultural de Brasília naquela década – fomos ao Açougue Cultural T-Bone participar de um protesto dos artistas e organizadores da Feira do Livro de Brasília.
Após 28 anos de existência precária, a feira está ameaçada de simplesmente não acontecer, por absoluta falta de apoio e patrocínio. Brasília continua a mesma, penso, a arte continua marginal, ou seja acontece a margem dos poderes constituídos e do empresariado, que continuam a ter por ela um desprezo absolutamente constrangedor.
“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, diz a canção dos Titãs, em letra emblemática do poeta e roqueiro Arnaldo Antunes. Igualmente emblemática é a penúria imposta há 28 anos à Feira do Livro da Capital da República, em risco iminente de simplesmente não acontecer às vésperas do seu cinquentenário.
Brasília é a mais perfeita tradução do Brasil, até porque tanto sua população, quanto seus empresários, executivos e políticos, em sua grande maioria, vieram das mais diversas cidades e regiões desse país continental. Portanto, o que acontece aqui é problema de todos nós. Falar que o Brasil saiu de sua condição de país subdesenvolvido para o pleno desenvolvimento num país em que os escritores e seus livros são tratados com tamanho desprezo é piada, má-fé ou, no mínimo, ignorância.
E antes que eu me esqueça, o T-Bone Açougue Cultural é resultado de um sonho. O sonho de um menino pobre, açougueiro, que se alfabetizou já adulto e resolveu fazer do seu ofício arte. Seu nome, Luiz Amorim. Seu sonho, transformar-se e transformar, fazer arte, fazer sonhar. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.
Autora: Jornalista e escritora Amneres www.poesiaemtemporeal.com
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