Açougue T-Bone

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Por Luiz Martins   
25 de fevereiro de 2009

O açougue dos livros agora tem jornal

Há 14 anos incentivando a leitura, o Açougue Cultural T-Bone, de Brasília, está colocando nos pontos de ônibus da Asa Norte, sete mil exemplares do Parada Cultural, um ‘jornalzinho’ bimestral, colorido e recheado de poesias, contos, crônicas e outros conteúdos de educação e cultura. Como já é do conhecimento público, esse bairro da capital federal conta com o projeto Biblioteca Popular, desenvolvido em trinta e cinco pontos de ônibus, por meio do qual mais de seis mil livros são emprestados mensalmente à população, que fica à vontade para devolvê-los quando achar conveniente.

Estranha combinação, carnes e livros. Mas, esses dois alimentos, carne para a carne e livros para a liberdade, foram combinados com generosidade e êxito, numa entrequadra comercial de Brasília, por um cidadão chamado Luiz Amorim, dono do T-Bone. A carne, para os clientes, os livros, para empréstimos gratuitos e responsáveis, ou seja, dependendo do autocontrole de cada um dos beneficiários. Nada de cobrança, se quisessem não devolver os livros, melhor ainda, pois foram tantas as doações que se todos os leitores devolvessem os livros não haveria espaço nem estantes para contê-los.

Transformado em Organização Não-Governamental , o T-Bone ganhou simpatia do público, apoio da Unesco, de várias embaixadas e entidades culturais. Uma delas, a Fundação Alexandre de Gusmão, do Itamaraty, comprometeu-se a doar lotes de até dois mil livros para o projeto, que recebeu a visita de uma delegação da Europa, de olho na possibilidade de que a experiência dê certo por lá.

Apenas um porém se contrapôs à inovação do açougueiro amigo da leitura, a Vigilância Sanitária achou que carne e livro não tinha nada a ver. Longe de ver nisso um obstáculo, Amorim botou os livros para fora e os deixou à disposição dos transeuntes, inclusive, à noite. Ninguém os roubou. E se tanto livro não cabia nem dentro nem fora do açougue, eles foram colocados em estantes nas paradas de ônibus ao longo de toda a avenida W-3 Norte, mão e contramão. Foi assim que surgiu o projeto Biblioteca Popular.

Do apoio à leitura para outros projetos foi um passo. No final do ano passado o T-Bone comemorou os dez anos das Noites Culturais, shows de graça na entrequadra do açougue, a 312/313 Norte, graças ao patrocínio da Petrobras, do qual sai o cachê dos artistas e pro-labore dos técnicos de som e equipes de suporte. Dependendo do prestígio dos artistas contratados, até cinco mil pessoas comparecem a esses espetáculos a rua e céu abertos. Numerosos artistas locais e nacionais já passaram pelo palco do T-Bone, dos irmãos poetas-compositores Clodo-Climério-Clésio, prata da casa, a figurões, Geraldo Azevedo e Alceu Valença entre eles. Nessas ocasiões, o trânsito é desviado e a quadra fica do povo tanto quanto o céu é do condor (Castro Alves).

Escritores brasilienses e nacionais revezam-se semanalmente em noites de autógrafos e recitais do T-Bone, de Nícolas Beher, prata da casa, a Ziraldo, fenômeno de vendas que promete voltar. Sim, porque vários voltam. Tanto porque se apaixonaram pela experiência – como é o caso de Jorge Mautner (nas versões escritor, compositor e cantor), como pelo sucesso estrondoso que outros fizeram. Um formigueiro de crianças e mães provocou disputas por uma simples assinatura do autor de Menino Maluquinho. Amorim sonha em trazer mais estrelas fulgurantes. Elba Ramalho e Chico Buarque fazem parte dessa fantasia.

Mais do que o apoio da mídia brasiliense e até de organismos internacionais, o T-Bone tem sido objeto de carinhos institucionais e tem inspirado outras experiências e reforçado o trabalho de outras ONGs da cultura, entre elas a Oficina do Perdiz, que de dia conserta carros e de noite vira teatro popular. E até pessoas físicas seguem o exemplo de Amorim, promovendo a leitura. Em Planaltina (a 60 km do Plano Piloto) o professor José Humberto Brotas decidiu levar os livros para além das escolas, montando um “Cantinho da Leitura” – 500 volumes, cada --, em salões de beleza, oficinas, restaurantes. Mais recentemente, um cobrador de ônibus virou matéria de primeira inteira com chamada de capa: ele passou a carregar no ônibus um acervo ambulante de obras para emprestar aos passageiros. Ou seja, só não lê em Brasília quem não quer. E até o Congresso Nacional, sempre muito ocupado com grandes votações estratégicas, criou uma Frente Parlamentar de inventivo à leitura, já que o Brasil figura entre os países que menos lê. Em matéria de leitura de jornal, por exemplo, o brasileiro lê apenas um décimo do leitor norueguês (líder mundial na categoria).

Apesar de capital do país, Brasília tem um dos piores sistemas de transporte coletivo, daí o dito local “cabeça, tronco e rodas”. Esperar transporte, no entanto, deixou de ser aquela modorra, pois além dos livros, as paradas de ônibus contam agora com jornal de graça. Desta vez, o patrocínio veio do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário e Ministério Público do DF, o Sindjus, que também tem seus próprios projetos de incentivo à leitura, além de promover entre os seus associados o concurso literário Rachel de Queiroz (poesia e conto), com prêmios em dinheiro e publicação em livros.

 Clique nos links abaixo para visualizar as edições em arquivo PDF:

- 1ª Edição (agosto de 2008)

- 2ª Edição (outubro de 2008)

- 3ª Edição (dezembro 2008)

- 4ª Edição (maio de 2009)

- 5ª Edição (julho de 2009)

- 6ª Edição (agosto de 2009)

- 7ª Edição (outubro de 2009)

- 8ª Edição (novembro de 2009)

- 9ª Edição (Dezembro de 2009)

- 10ª Edição (Janeiro de 2010)

- 11ª Edição (Fevereiro de 2010)

- 12ª Edição (Março de 2010)

 

Última Atualização ( 23 de abril de 2010 )
 
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