Açougue T-Bone

Você está em: Home


O açougueiro de Viena e o mestro da 312 Norte PDF Imprimir E-mail
Por Luiz Martins   
08 de janeiro de 2010

Image
Público durante o concerto da Orquestra de Viena no T-Bone.
Foto: Ademir Rodrigues

Apoteose. Esta é a palavra, pois sucesso pode não ter toda a força para designar o que se passou na noite do dia 11 de novembro de 2009, na 312 Norte, quando do concerto da Orquestra Johann Strauss Capelle de Viena, compromissada com uma apresentação de uma hora, mas que se estendeu por mais de duas, contagiada pela interação e alegria que dominaram platéia e músicos, compondo uma ocasião de júbilo jamais vista, por um e outro.

 

        Acostumado a shows e a manifestações de encanto e carinho por parte de artistas do porte de Alceu Valença, Antônio Nóbrega, Belchior, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo, o público das Noites Culturais do T-Bone não contava que a chance de se deparar com uma orquestra famosa fosse também uma oportunidade para boas risadas.

       – Eu acho que vai ser magnífico – disse a este jornal o jovem músico Gerard Mair, no momento preciso em que deixava o improvisado camarim, entre balcões e freezers, mas com direito a um buffet de frios e frutas tropicais, e se dirigia para o palco montado na calçada da 312 Norte e devidamente coberto, pois na semana anterior havia chovido todos os dias.

       – E você não acha embaraçoso tocar para uma multidão e ao ar-livre?

       – Não, ao contrário, acho que vai ser caloroso – disse convicto o jovem que, momentos antes, numa atmosfera de brincadeira improvisava com alguns colegas trechos de polcas e até um pedacinho de Aquarela do Brasil.

       – Obrigado, bom concerto! [em inglês]

       – De nada! – respondeu o jovem [em português e de forma bem humorada].

       – Eu acho que vai dar tudo certo – profetizou com muito otimismo, no mesmo ambiente, o embaixador da Áustria, Hans-Peter Glanzer, ao tempo em que elegantes violinistas já lideravam uma disciplinada fila indiana em direção ao tablado.

       – Tomara que dê tudo certo – dizia para um e para outro o presidente da ONG Açougue Cultural, Luiz Amorim, cuidando de cada providência e ainda preocupado de não ter oferecido as condições especiais que lhe haviam dito serem necessárias a um maestro. Nenhum gosto extravagante, mas tão somente uma etiqueta própria dessas ocasiões: o camarim do regente é separado dos demais. Mas, desta feita, o maioral não estava nem aí para esse detalhe.

        E nem para formalidades mais importantes. Tanto que achou formidável a sugestão recebida naquela tarde de ensaio, por uma produtora do Programa do Faustão: “Por que vocês não trocam um pouco de papéis?” Indagou a moça, no que foi prontamente atendida por Rainer Ross. Pois não é que no meio e no final da apresentação ele chamou ao palco o seu anfitrião, trocando a casaca pelo jaleco e entregando os seus regidos aos cuidados do açougueiro?

        O público adorou. A quadra, recheada de milhares de pessoas, veio ao delírio. E o cuidado de não interromper execuções com aplausos foi quebrado pelo próprio, que a todo momento se virava para a multidão e a incentivava a participar do ritmo com palmas, ora mais discretas, ora mais ovacionantes. Aliás, o intimismo predominou desde o início, quando Ross cumprimentou [em português] o distinto público: “Boa noite. A orquestra Johann Strauss Capelle saúda a todos”.

          Mas houve momentos sublimes, como nas duas vezes de “Danúbio Azul”, a primeira, por obrigatoriedade, a segunda, quando o calor das palmas trouxe de volta os músicos ao palco.

         Por parte da produção do espetáculo também houve alguns requintes de ousadia. A Embrashow, a empresa que organizou a vinda da OSSV ao Brasil, ofereceu ao T-Bone a chance da primeira apresentação no país, a abertura da turnê, que prosseguiu em outra capitais. Luiz Amorim largou facas e amoladores e saiu correndo em busca de patrocínio e apoio. E também por parte desses não faltou oportunidade e senso de ocasião. Bingo!

 

Última Atualização ( 08 de janeiro de 2010 )
 
< Anterior   Próximo >
Advertisement
Movimento Viva Arte