|
 Bate-papo com o escritor Leandro Narloch na última quinta (22) no Açougue T-Bone
O Açougue T-Bone já trouxe a Brasília grandes nomes da literatura e da música nacional. A ideia do projeto Quintas Culturais é proporcionar o encontro de escritores de outros estados e o do DF com o leitor, além de valorizar a produção musical da cidade com shows na abertura dos eventos. Na última quinta-feira (22), passaram pelo palco do Açougue Cultural a banda Caco de Cuia, o pessoal da Revista Guia Cultural Satélite 061, Rodrigo Jaguaribe com show de gaita e o escritor Leandro Narloch para bate-papo literário sobre o polêmico livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. Abaixo, pequena entrevista com o escritor sobre seu trabalho e também sobre a sua participação no Açougue Cultural.  O público curtiu o show da banda de forró Caco de Cuia
 Show de gaita com Rodrigo Jaguaribe
Açougue T-Bone - O que o motivou a escrever o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil? Esperava tanta repercussão?
Leandro Narloch - Eu percebi que o que havia aprendido nas aulas de história da escola - e o que muita gente da minha geração acreditava - estava ultrapassado. Nos anos 80, 90, a história era muito politizada e polarizada. Quase sempre resultava em história de vilões e bandidos, potências contra vítimas. A nova história do Brasil, uma corrente de estudos excelentes que surgiu nas universidades a partir dos anos 90, mostrou que o passado brasileiro é muito mais complexo e interessante. Aproveitei parte dessas conclusões (só as politicamente incorretas) para mostrar um outro lado. Como esse lado vai contra as convicções de muita gente, eu sabia que renderia polêmica e esperava, sim, a repercussão. Gostei que o debate está sendo elegante, com muitos elogios e críticas de alto nível.
AT - Quais foram suas principais fontes? LN - O livro é fundamentado em histórias que descobri em livros de Alberto da Costa e Silva, Guiomar de Grammont, João Fragoso, Manolo Florentino, José Murilo de Carvalho, Francisco Doratioto, Marco Antonio Villa, Jorge Caldeira, entre muitos outros. É preciso ressaltar que esses autores não são politicamente incorretos: como pesquisadores científicos, fazem trabalhos neutros. Eu é que me aproveitei de parte do que eles dizem para escrever o Guia. AT - Houve algum caso de rejeição por parte de historiadores considerados tradicionais?LN - Ainda não. Eles normalmente olham livros como o meu com uma desconfiança - e estão certos em agir assim. Os historiadores devem se preocupar menos com a discussão política, com o uso ideológico de suas descobertas, e mais com fontes e discussões clássicas. Esse, claro, não foi o objetivo do Guia. A ideia do livro é irritar um bom número de pessoas, sobretudo aquelas que se valem de vitimologias baseadas numa suposta história do Brasil. AT- Já conhecia o Açougue Cultural? LN - Já conhecia as bibliotecas dos pontos de ônibus, que são uma iniciativa muito legal, já famosa fora de Brasília. AT - O que achou do evento? Imaginou algum dia apresentar seu livro num açougue? LN - Achei ótimo. É muito legal a oportunidade de discutir ideias na calçada. E é ótimo para Brasília e para o Brasil ter mais arenas de debate, mais lugares para as pessoas conhecer ideias novas e discutir livremente. AT - Em sua opinião, o que mais deve ser feito para estimular à leitura no nosso país? LN - Não gosto muito da conversa de incentivo à leitura. Esses dias eu disse numa palestra que ler nem é tão importante - é melhor ver a série Seinfeld que muitos livros que existem por aí. O melhor incentivo à leitura é mostrar que ler, mais que necessário, é bom. Além disso, ler nem sempre garante uma sociedade civilizada - na verdade, grandes tragédias do século 20 foram causadas por multidões cheias de "ideias tiradas de livros", como diz o Dostoiévski. Isso cabe, sobretudo ao mercado - os escritores e as editoras. Quanto ao governo, se ele não atrapalhar o acesso à leitura, já está ótimo. O governo deve apenas criar boas bibliotecas públicas e, na escola, não traumatizar os estudantes com a exigência de ler livros chatos. |