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Confira abaixo, crônica publicada no Correio Braziliense da última quarta (15/09) sobre o Projeto Biblioteca Popular do Açougue Cultural T-Bone. Biblioteca popular
Por Severino Francisco
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No princípio era o delírio e o delírio se tornou realidade. Tudo é meio surreal, deliciosamente surreal, na história das bibliotecas e dos projetos culturais criados por Luiz Amorim, o dono do açougue T-Bone. Ele é um açougueiro que leu os filósofos gregos e resolveu botar a paideia dentro do açougue. Para quem não sabe, a paideia é o conjunto de conhecimentos essenciais para a formação de um ser humano e um cidadão de qualidade. Amorim é uma espécie de artista conceitual que instalou uma série de bibliotecas populares nos pontos de ônibus, abertas à interação mais democrática e anárquica com o público. Não é preciso se cadastrar, apresentar carteirinha ou assinar a ficha de controle para a devolução do livro.
Até os loucos, com ou sem carteirinha, têm acesso aos livros. Estava esperando um ônibus em um ponto com livros da biblioteca pública do T-Bone quando assisti a uma cena reveladora. Uma moradora de rua, negra, com roupas esfarrapadas e sujas, segurava um livro emprestado da estante do T-Bone. Cheguei mais perto e constatei que era um livro de ensino da língua portuguesa, mas estava de cabeça para baixo, enquanto ela simulava a leitura e fazia um discurso delirante sobre a injustiça social.
De acordo com pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas, Brasília ocupa, com exceção do Plano Piloto, o penúltimo lugar no ranking das bibliotecas públicas do país, só ficando na frente do Amazonas. A matéria informa ainda que, com exceção da Biblioteca de Ceilândia, nenhuma outra está incluída no orçamento das administrações regionais, dependendo exclusivamente de doações para sobreviver. O livro é o objeto mais perseguido ao longo da história. Ele sempre foi uma arma de consciência. Claro que quem cultiva currais eleitorais foge dos livros como o diabo da cruz.
Animado apenas pela ideia luminosa de colocar a inteligência na rua, sem contar com nenhuma estrutura, sem dotação orçamentária ou quadro de funcionários, Amorim faz mais pela democratização da cultura do que muitas secretarias. E, além dos livros, ele promove noites musicais, recitais de poesia e debates políticos, em sintonia com sua formação de leitor da filosofia grega, para quem o homem é um animal político e o lugar da cultura é na praça pública, o nascedouro da democracia.
Chega gente para agradecer porque a biblioteca ajudou a passar no vestibular da UnB ou no concurso público. É surpreendente como Amorim consegue trazer aos eventos do T-Bone um respeitável time de intelectuais, que inclui Ana Miranda, Ruy Castro, Jorge Mautner, Zuenir Ventura, entre outros. Ruy Castro quis tirar uma foto dentro de uma câmara fria e o maestro da Orquestra de Viena pediu o jaleco de açougueiro emprestado para reger os seus músicos.
Estava assistindo a um programa de tevê sobre a transformação que o teatro promoveu na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, e pensando em quem faria algo semelhante em Brasília. Sem dúvida, é o Luiz Amorim, ele é um dos mais admiráveis cidadãos brasilienses. Ele coloca de maneira radical a questão da democratização da cultura, mostrando que popular deveria ser sinônimo do acesso a tudo que há de melhor. “Cachorro também come filé se você jogar para ele”, me diz o Amorim: “Não sei porque os políticos não se envolvem com a arte. Em todas as cidades onde há investimento forte na cultura, a criminalidade bate no chão”.
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