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Foto: o propritário do Açougue T-Bone, Luiz Amorim, o escritor e jornalista Admilson Caminha e o escritor Frei Betto.
Luiz Amorim é o fundador do Açougue Cultural T-Bone em Brasília. Luiz trabalhou como vigia e engraxate antes de ser contratado aos 12 anos, por um pequeno açougue na 312 Norte. Durante o tempo em que morou nos fundos da loja, lia para passar o tempo e acabou apaixonado pelos livros. Em 1994, conseguiu comprar a loja e instalou uma estante com dez livros para emprestar e arrecadar doações e transformou-a no primeiro AÇOUGUE CULTURAL DO MUNDO. Ele conta que no começo foi difícil porque as pessoas ironizavam a idéia de um “açougue cultural”. Teve também, uma dificuldade com próprio Estado, quando a Vigilância Sanitária fechou o T-Bone por causa dos livros, que chegou a ter er um acervo de mais de 10 mil livros.
No final de 2002, abriu a biblioteca comunitária na SQN 712/13, uma casa com mais atividades culturais e 45 mil livros à disposição da comunidade.
No período em que eu morava no açougue, durante 15 anos, dedicou-se à leitura. Luiz foi alfabetizado aos 16 anos, leu seu meu primeiro livro aos 18 e depois começou a ler muita filosofia. “Tinha a leitura geral, mas filosofia era o que mais me atraia e foi o que me fez entrar nesse mundo da literatura”, diz.
Seu primeiro livro foi um gibi de filosofia onde afirma que leu e não entendeu, mas achou interessante e daí começou a ter compulsão pela leitura. Segundo ele, como morava no açougue e não tinha pra onde ir, fechava a loja e ia ler. Lia uma média de 10 a 15 livros por mês.
Em 1998, ano da primeira edição do projeto “Noite Cultural T-Bone” realizou um evento dentro do açougue e contou com trinta pessoas. Desde então já passaram mais de 150 mil pessoas e mais de 500 artistas para participar desta celebração à arte na entrequadra 312/13 da Asa Norte. Artistas de renome nacional já se apresentaram no projeto, entre eles: Moraes Moreira, Chico César, Guilherme Arantes, Célia Porto, Tom Zé, Manassés, João Donato, Affonso Romano de Sant’Anna, Flávio Venturine, Geraldo Azevedo, Jorge Mautner, Nelson Jacobina, Fernando e Osmair, Geraldo Azevedo, Belchior, Erasmo Carlos e outros.
O ano de 2008 é especial para o Açougue Cultural T-Bone que comemora dez anos de da Noite Cultural T-Bone, um projeto que é referência cultural de Brasília, inclusive, faz parte do Calendário Cultural Oficial do Distrito Federal (LEI Nº 3.193 /2003) e tem público de aproximadamente oito mil pessoas. Com duas apresentações por ano, uma em cada semestre, é uma noite única que integra pessoas de todas as classes sociais e de todas as idades numa celebração à arte.
O Açougue Cultural T-Bone promove também o projeto “Parada Cultural – Biblioteca Popular 24 horas”, biblioteca popular nos pontos de ônibus da Asa Norte, “Encontro com Escritores”, bate-papo com escritores de renome nacional e apresentação musical todas as quintas-feiras, no Açougue T-Bone.
Como começou essa relação apaixonada com a leitura? Eu vim pra Brasília em 1973, com 12 anos. Dos meus 7 aos 12 anos trabalhei como pedreiro, engraxate... Aos 12 comecei no açougue e trabalhei quase 15 anos como empregado até que, em 1994, comprei a loja e aí veio a idéia de montar a biblioteca. Nesse período em que eu morava no açougue, nesses 15 anos, é que eu me dediquei ao estudo, à leitura. Fui alfabetizado aos 16 anos, li meu primeiro livro aos 18 e depois comecei a ler muita filosofia. Tinha a leitura geral, mas filosofia era o que mais me atraia e foi o que me fez entrar nesse mundo da literatura.
Meu primeiro livro foi um gibi de filosofia. Eu li e não entendi, mas achei interessante e aí comecei a ter essa compulsão pela leitura. Então, como eu morava no açougue e não tinha pra onde ir, eu fechava a loja e ia ler. E lia uma média de 10 a 15 livros por mês. O mundo mudou pra mim em todos os sentidos. Quando você faz uma coisa e se dá muito bem, você acredita que as pessoas fazendo também vão ser melhores. Foi aí que comecei essa campanha pra incentivar a leitura.
Em 1994, quando comprei o açougue, botei logo uma estante com dez livros para emprestar e arrecadar doações. No começo foi difícil porque as pessoas ironizavam a idéia de um “açougue cultural”. Tivemos, também, uma dificuldade com próprio Estado, quando a Vigilância Sanitária fechou o T-Bone por causa dos livros. Nós chegamos a ter um acervo de mais de 10 mil livros. Por fim, preferimos manter um acervo de uns 500 exemplares e continuar fazendo empréstimos diários de 50 a 70 livros. No final de 2002, nós abrimos a biblioteca na SQN 712/13, uma casa com mais atividades culturais. Começaram também as Noites Culturais. Esse ano teremos a vigésima edição.
A idéia da nossa biblioteca não é resolver a vida literária de ninguém, mas é uma provocação pra tornar os livros mais acessíveis às pessoas, deixar mais à mão. Você vai até a padaria ou a farmácia e tem ali sua mini-biblioteca.
No início, de onde vinha o dinheiro para manter a biblioteca? Esse projeto o açougue é que custeia há quase 11 anos. Tem muita dificuldade porque somos uma empresa pequena, sem um grande faturamento. Pra ajudar, vieram as parcerias. No início, quando abriu a ONG, eram apoios pequenos: pequenas empresas faziam doação de R$100. Mas isso não era suficiente porque o projeto tem um custo alto. Isso não deu muito certo e precisamos recorrer aos grandes patrocínios, o projeto passou a exigir isso: ou nós parávamos ou conseguíamos um patrocínio. Era inviável manter sozinho o projeto todo. Hoje nós temos a Petrobrás como nosso maior parceiro, temos também o BRB, o Sesi, a Tecnolta, o Ministério da Cultura e a Caesb.
Como os clientes que vêm aqui pela primeira vez reagem ao ver os livros? Quando a pessoa nunca ouviu falar, ela estranha. É criada uma provocação com todo mundo. Dificilmente alguém entra aqui e não ouve umas das brincadeiras que a gente faz e que acabam funcionando. Eu tenho já um contato muito forte com o livro e pra mim é tranqüilo vender a idéia de a pessoa levar um livro.
Nossa idéia é sempre provocar: você entrar em um açougue e ver livros, ao mesmo tempo em que é uma alegria, gera um incomodo: um açougue não é um espaço adequado para livros! Mas tem que ver que o gosto pela leitura vem do contato. Se você vai à esquina e tem uma biblioteca ou uma livraria com livros e livros, você lê. É igual ao que acontece na Europa: quando vêem as pessoas lendo no metrô, as que não têm o hábito também começam a ler. Tanto que a média anual de leitura nos países civilizados é de 15 livros por adulto e aqui no Brasil é de menos de um livro por ano. Eu acho que, se toda vez que você entrar no açougue o açougueiro estiver falando de livros, você acaba pegando um.
E os funcionários do açougue, lêem também? Eu incentivo muito. Conviver comigo e não ler é um pouco constrangedor.
Você acha que a biblioteca está cumprindo a função? Quantos livros costumam ser emprestados por dia? A biblioteca tem um acervo de mais de 20 mil exemplares. Eu acredito na leitura de pequenas bibliotecas. É mais um incentivo, uma provocação. Quando alguém vem comprar carne e os meninos dizem “vai levar meio quilo de Saramago ou uns bifes de Machado de Assis?”, isso é uma brincadeira, uma provocação. A idéia é provocar, é constranger. A pessoa entra em um açougue, ela é de classe média e não está lendo. Então o cara pensa assim: “toda vez que eu vou lá o açougueiro me enche o saco”. Um dia acaba levando. E ainda é de graça. A idéia é que todo mundo saia com um livro do açougue.
Quando você pensa que, em um açougue, conseguiu juntar mais de 20 mil exemplares e a poucos quilômetros daqui, na Esplanada dos Ministérios, uma biblioteca gigantesca não tem acervo, você acha que falta vontade do poder público para incentivar a leitura, para educar a população? O Estado não tem essa visão de dar à massa acesso à cultura, aí faz qualquer coisa pra dizer que está fazendo. Eu acho que essas obras são interessantes, mas você tem que fazer paralelamente a isso pequenas obras também. Que você crie uma biblioteca grande como a Demonstrativa ou a do Complexo Cultural, mas cada quadra deveria ter uma biblioteca menor. Nem sempreas pessoas têm tempo pra ir até à Demonstrativa, por isso toda quadra deveria ter um mini-acervo, pelo menos pra satisfazer o prazer de ler dos moradores. O livro tem que estar à mão do leitor porque assim, se você não lê, se incomoda. É como o preguiçoso que fica perto do trabalhador. Existem várias ilusões e é a leitura que tira delas. Por isso tem que ler!
Qual o seu maior orgulho nesses 12 anos de T-Bone? É uma alegria ser o responsável por este grande projeto cultural. Eu acho que a contribuição para a cultura da cidade é o orgulho maior. A provocação que a gente criou gerou um debate muito forte. Pra mim, o ponto alto não é a Noite Cultural com 20 mil pessoas, não é a biblioteca, não é nada disso. O ponto alto é a reflexão que as pessoas fazem. Pra mim essa é a maior obra e está ao alcance de todo mundo. Mas a maior satisfação é, mesmo, quando alguém pega um livro.
E para o futuro, com o que você sonha? Eu não gosto muito de pensar a longo prazo, eu vou fazendo. Hoje tenho, claro, uma expectativa muito maior, afinal a cada ano a coisa avança muito e se consolida bastante. Em breve vamos lançar um grande projeto, a Parada Cultural, que vai ser o maior projeto cultural que Brasília já viu. Uma obra de reflexão mesmo: Se fosse literatura, seria um Guerra e Paz [romance de Leon Tolstoi]!
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